Os dias catalães de Thierry Henry

SENTADOS EM UM BAR de esquina, dois amigos conversam: “Quem foi o maior craque que você viu jogar no Arsenal?”, questiona o primeiro. Em meio a pensamentos que rondam figuras como Patrick Vieira e Dennis Bergkamp, uma certeza vem fácil: “Thierry Henry”, responde o inquirido. É uma resposta óbvia. Henry reinou no Arsenal. Mas não bastou. Em dado momento, decidiu que era a hora de respirar novos ares. Deixando idolatria para trás, no dia 25 de junho de 2007, firmou pelo Barcelona.

Thierry Henry Barcelona

Foto: Barcelona

Maior artilheiro da história do clube londrino, com 228 tentos, o francês nunca deixou de manifestar seu profundo carinho e respeito pela agremiação. No entanto, naquele momento, as entrelinhas de sua transferência revelaram um objetivo  evidente: vencer a Liga dos Campeões.

Pelo Arsenal, chegou perto em 2006. Perdeu a final justamente para o Barça, que por anos tentou contratá-lo. O namoro era antigo. Quando o casamento foi consumado, Henry deixou portas abertas e sentimentos que iam da genuína gratidão à adoração.  O próprio torcedor dos Gunners reconhecia ali que era justo o astro buscar sua meta, mesmo porque ele havia tentado ao máximo obtê-la de vermelho e branco.

“É um sonho para todos vencer a Liga dos Campeões e estou certo de que é o sonho do Barcelona vencê-la novamente na próxima temporada […] É a única coisa que não venci no Arsenal”, disse o atacante em sua chegada ao clube catalão.

Mantendo o histórico número 14 às costas, o craque chegou a um clube que contava com Ronaldinho, Samuel Eto’o e Deco, enquanto via a estrela de Lionel Messi ficar cada vez mais evidente. Apesar disso, tudo correu mal na primeira temporada na Catalunha. No que veio a ser a última temporada de Frank Rijkaard à frente do time, a queda de rendimento de seus principais craques foi notória. Internamente, o ambiente já não era bom.

Henry vs Barcelona 2006

Foto: Reprodução

O time terminou La Liga em terceiro lugar e foi às semifinais continentais, eventualmente eliminado pelo futuro campeão, Manchester United. Henry chegou a ser considerado uma decepção, um desperdício de dinheiro e visão, uma vez que não era possível acomodar tantos grandes jogadores no onze inicial. Tudo mudaria em 2008-09: começava a trajetória de Pep Guardiola.

Dança das cadeiras

Ronaldinho foi para o Milan; Deco, para o Chelsea. Eto’o ficou por pouco, assumindo o compromisso de se entregar ao máximo, após também ser tratado como dispensável em um primeiro momento.

O Barça se reinventou. Com o camaronês no comando do ataque e Messi pela ponta direita, coube a Henry exercer o papel ofensivo pelo lado esquerdo. Afinal, sua contratação se justificou.

Mesmo sem ser referência, atuando pela beirada, balançou as redes adversárias 26 vezes em 42 jogos, algumas delas cruciais. Seu final ainda não chegara. Pelo Espanhol, sua primeira grande atuação aconteceu em dezembro de 2008, na 14ª rodada. Os Blaugranas recebiam o Valencia, que alinhava um ataque estelar, apresentando Joaquín, David Villa e Juan Mata. Os donos da casa não deram sopa para o azar e impuseram um 4 a 0.

Com a ausência temporária de Eto’o, Henry deu um show particular, anotando um triplete. Primeiro, cumprimentou as redes com uma finalização por cobertura, após lançamento de Yaya Touré; a seguir, vindo da esquerda para o centro, recebeu bola de Aleksandr Hleb e fuzilou o goleiro brasileiro Renan; finalmente, como autêntico centroavante, concluiu com um toque uma bela jogada de Bojan.

Na Liga dos Campeões, foi determinante nas oitavas de final, contra o Lyon. Após empate por 1 a 1 no jogo de ida, em que marcou o solitário gol catalão, fez os dois primeiros tentos do triunfo da volta: 5 a 2. Nas quartas, na primeira mão contra o Bayern, assistiu Messi e fechou ele próprio uma goleada por 4 a 0.

Nos jogos decisivos, porém, sofreu com problemas físicos. Retornou a tempo de entrar em campo e assistir ao brilho de Eto’o e Messi. Finalmente levantou a sonhada Orelhuda.

Henry Champions League Trophy

Foto: Reprodução

Fechando a temporada com chave de ouro

Ao final da temporada, ainda teve tempo de reafirmar a qualidade do seu momento. Palco melhor não poderia haver: o estádio Santiago Bernabéu. Avassaladora, a primeira versão do Barcelona de Guardiola atropelou o Real Madrid por históricos 6 a 2. Henry marcou duas vezes. O primeiro, a partir de uma corrida por detrás da defesa capitalina, em enfiada de bola de Messi; o segundo, em movimentação semelhante, dessa vez lançado por Xavi, o maior astro daquela noite.

Em 2008-09, Henry aconteceu; conquistou La Liga, Liga dos Campeões e Copa do Rei. Ganhou também lugar na história do Barcelona. Mesmo que nada mais fizesse, já era o bastante.

A passagem pela Catalunha durou apenas mais uma temporada e 2009-10 não foi exatamente um ano bom para o francês. Embora tenha conquistado mais uma vez o campeonato nacional, além do Mundial de Clubes, da Supercopa da Espanha e da Supercopa Europeia, sofreu. Primeiro, com lesões. Além disso, acompanhou a ascensão de Pedro Rodríguez.

Sua estrela foi se apagando, sobretudo com o aumento da influência de Messi e a contratação de Zlatan Ibrahimovic. Fisicamente, entregara seu máximo no ano anterior. Dessa vez, em 32 jogos, marcou apenas quatro vezes. Ao final do ano, renunciou ao último ano de contrato e deixou o clube. Assinou com o NY Red Bulls, sua casa até o final da carreira — exceto por um breve empréstimo ao Arsenal.

No Barça, Henry nunca foi a maior estrela da companhia, jamais alcançou o estatuto que possuía no Arsenal. Porém, nunca esperou isso; sabia que seria mais um craque em uma constelação deles. Ainda assim, entrou para a história e conquistou seu maior objetivo, calou o Santiago Bernabéu e foi brilhante em vários momentos. Sem ter sido o Henry de Londres, foi gigante em Barcelona.

Wladimir Dias

Idealizador d'O Futebólogo. Advogado, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Escrita Criativa. Mestre em Ciências da Comunicação. Colaborou com Doentes por Futebol, Chelsea Brasil, Bundesliga Brasil, ESPN FC, These Football Times, revistas Corner e Placar. Fundou a Revista Relvado.

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