A Espanha aprendeu

A ESPANHA CANSOU de fracassar enquanto era a Fúria. Queria ser aguerrida, provar seu empenho em campo, e raramente tinha material humano para isso. Na via oposta, os jogadores talentosos nunca pareciam suficientes para levar o país às vitórias. Quando Vicente Del Bosque assumiu o comando da equipe em 2008, o paradigma estava prestes a mudar definitivamente. Saiu a Fúria, entrou a Roja. Não dava mais para ignorar o contexto.

Nico Williams, Rodri and Pedri for Spain

Foto: Julian Finney/Getty Images

Quando Frank Rijkaard assumiu o comando do Barcelona, o cenário era de terra arrasada. Era junho de 2003 e o clube terminara La Liga na sexta colocação, 22 pontos atrás do rival e campeão, Real Madrid. Era o fim da linha para a segunda passagem de Louis van Gaal, marcada por atritos com craques e pouco futebol. Ronaldinho Gaúcho chegou logo depois e encabeçou a renovação de um time que começava a dar mais espaço a Andrés Iniesta.

Rijkaard devolveu o orgulho ao Camp Nou. Conquistou dois títulos de La Liga, um da Liga dos Campeões e viu R10 se tornar o melhor jogador do planeta. O fim de sua gestão, entretanto, não foi positivo. Ele havia recolocado o clube em alto nível, mas ainda faltava o salto que transformaria aquela recuperação em uma nova era. Esse trabalho estava reservado para Pep Guardiola, cujas ideias provocaram impacto imediato, com um controle das partidas inédito.

Reserva não utilizado por Rijkaard na final da Liga dos Campeões de 2005-06, Xavi se tornou o dínamo da equipe de Guardiola ao lado de Andrés Iniesta, que entrou no lugar do brasileiro Edmílson naquela partida. Dois canteranos. A eles se juntou Sergio Busquets, um meio-campista que não parecia ter a força necessária para atuar à frente da defesa, mas simplificava o jogo e se comportava perfeitamente sob pressão.

Xavi and Rijkaard at Barcelona

Foto: Miguel Ruiz

Estrelado por Lionel Messi, esse time dominou a Europa. Parte de seu DNA vinha de Johan Cruyff, treinador de Guardiola nos anos 1990. Mas não apenas. Pep imprimiu sua marca e mudou a cena com a consolidação de seu jogo de posição fortalecido pela desenvoltura de seus atletas para jogar em espaços curtos, potencializada pelos famosos rondos. Vicente Del Bosque assistiu tudo de camarote.

É verdade: Luis Aragonés, o líder espanhol na conquista da Euro 2008, havia começado a mudar o estilo da Espanha. Já era um time de posse, mas ainda não tinha tanta qualidade na saída de bola da defesa, e nem todo mundo se encaixava perfeitamente, apesar da qualidade individual. A semente, porém, estava ali e o grande símbolo era um brasileiro naturalizado: Marcos Senna, na cabeça de área. Um jogador altamente técnico.

“Não íamos ignorar o trabalho que Luis Aragonés fez. Simplesmente, adicionamos coisas novas”, garantiu ao Coaches Voice.

Vicente Del Bosque Spain

Foto: Reprodução

Del Bosque trouxe Gerard Piqué, outro pupilo de Guardiola, e Busquets para o time titular. Sua decisão mais dura foi, justamente, abandonar Senna. A troca dizia muito sobre o novo estágio da seleção: Busquets oferecia outra capacidade de circulação e controle.

“Busquets e Xabi Alonso eram a espinha dorsal do time. Eles não eram apenas volantes, faziam tudo. Eles jogavam com a bola e construíam nosso jogo, mas também chegavam na área do adversário”, falou à mesma publicação.

Em retrospectiva, exceto pelo esforçado Joan Capdevilla, lateral esquerdo, a Espanha de 2010 era um time estrelado e com soluções: como antídoto para a posse de bola muitas vezes estéril, havia Pedro Rodríguez, mais um do Barça, e David Villa, um atacante mais móvel do que seus concorrentes em fase excepcional.

Spain players celebrate after the 2010 World Cup final soccer match between Netherlands and Spain at Soccer City stadium in Johannesburg

Foto: Reuters/Dylan Martinez

Levantar a taça mundial foi a confirmação de que a mudança de identidade era necessária. Mas aquele time não era perfeito; tinha dificuldades para quebrar sistemas de marcação estruturados. Perdeu para a Suíça; penou para eliminar o Paraguai; e teve muitas dificuldades para vazar a Holanda, na decisão. Em sete jogos, sofreu dois gols, mas marcou apenas oito.

Dois anos depois, com Jordi Alba na ala esquerda e novas tentativas no comando do ataque — notadamente com a de utilizar Cesc Fàbregas para emular Lionel Messi —, a Espanha foi melhor na Euro 2012 e alcançou o bicampeonato goleando a Itália na decisão. Era um time com mais recursos, inclusive no banco de reservas.

A geração envelheceu, contudo, e a reposição não foi imediata. Nove anos e dois fracassos em Mundiais mais tarde, a Espanha perdia a final olímpica de Tóquio para o Brasil. Do banco de reservas, Luis de la Fuente dava ordens a jogadores como Marc Cucurella, Pedri, Mikel Merino, Mikel Oyarzabal e Dani Olmo. E o time correspondia, com um estilo envolvente, confirmando a manutenção de uma identidade.

Mikel Oyarzabal Spain Olympics 2020

Foto: Getty Images

“Nosso foco em jogadores jovens foi o resultado de um conhecimento profundo das categorias de base do futebol espanhol e das academias — além do trabalho com eles […] Para mim, a força de um time está em se comportar igual, independentemente do momento. Ou, ao menos, não sofrer uma mudança perceptível. É nisso que nos especializamos”, revelou De la Fuente ao Coaches Voice.

Em 2022, o comandante foi valorizado pela Federação Espanhola e sucedeu Luis Enrique no comando da seleção principal. Com naturalidade, consolidou no time os jovens que já conhecia há tempos, seja no comando da seleção olímpica ou em categorias menores.

Se no final dos anos 2000, o país construiu uma nova identidade, nos anos que se seguiram, tratou de consolidar processos, para que as novas gerações mantivessem o padrão. Mesmo durante as vacas magras, a ideia não mudou.

Na Euro 2024, azeitada pelo frescor das presenças de Nico Williams e Lamine Yamal pelas pontas, aumentando a imprevisibilidade da equipe, a Espanha mostrou que estava definitivamente de volta ao posto das melhores equipes do planeta. Venceu a Inglaterra na decisão e foi novamente campeã. E a renovação não foi um processo vazio. Luis de la Fuente chamou, por exemplo, Jesús Navas. Aos 38 anos, foi um elo entre o passado e o presente.

Nico Williams Lamine Yamal

Foto: Ina Fassbender/AFP

Em meio a tudo isso, há Rodri. Nem nos melhores sonhos a Espanha poderia imaginar um sucessor tão bom para Sergio Busquets. O paralelo não é automático: Rodri é mais forte, se impõe mais facilmente, gosta de finalizar de fora da área. Por outro lado, não é tão sutil, especialmente sob pressão. De toda forma, cumpre precisamente aquela função que começou com Senna e se confirmou um divisor de águas com Busquets.

A Roja foi ao Mundial de 2026 e venceu-o. A novidade da vez era um zagueiro de 19 anos chamado Pau Cubarsí, que parecia um veterano. Além disso, na ausência frequente de Nico Williams, com problemas físicos, Álex Baena correspondeu. Quando o meio-campo pediu ainda mais estabilidade, Fabián Ruiz estava preparado para estruturar a equipe e, no momento em que a chance chegou, Pedro Porro tomou conta da lateral direita.

Nenhum deles teve dificuldades para se adaptar. Afinal, a Espanha sabe o que faz e esses jogadores cresceram sob essa máxima. Na sua vez, a equipe de Luis de la Fuente já não tem tanta dificuldade para marcar gols. Em oito jogos, concedeu um gol e marcou 14 na América do Norte. A final contra a Argentina foi para a prorrogação e terminou 1 a 0, como a disputa de 2010, diante da Holanda. Porém, foi um jogo completamente diferente. Um ataque contra defesa.

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Foto: Reprodução

Rodri foi eleito o melhor jogador da Copa, o que dá a medida da função que a Espanha aprendeu a valorizar: o jogador que organiza o time sem precisar de brilho individual.

Com a história escrita, é tentador imaginar um duelo entre 2010 e 2026. Xavi, Iniesta, Piqué e Busquets teriam nível técnico superior ao dos atuais? Talvez. Mas a pergunta diz pouco, porque cada um joga no seu tempo.

O que atravessa as gerações é outra coisa. A Espanha de 2010 precisou abandonar a Fúria para se encontrar; a de 2026 herdou o que a anterior aprendeu. Tudo é um grande processo, em que o mais importante é reconhecer as próprias qualidades. Os jogadores não precisam ser altos, fortes, agressivos. O jeito de jogar, este sim, importa.

O renascimento do Barcelona foi, ao que tudo indica, a mola propulsora. A Espanha aprendeu e o coletivo catalão continua moldando a seleção, com figuras como Cubarsí, Pedri e Yamal. Com qualquer geração, a identidade prevalece. Nas melhores, há títulos.

Wladimir Dias

Idealizador d'O Futebólogo. Advogado, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Escrita Criativa. Mestre em Ciências da Comunicação. Colaborou com Doentes por Futebol, Chelsea Brasil, Bundesliga Brasil, ESPN FC, These Football Times, revistas Corner e Placar. Fundou a Revista Relvado.

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