O que Bernardo Silva oferece ao Manchester City?

POUCAS DIAS após o final da Premier League 2016-17, o Manchester City anunciou uma renovação. Despediu-se de Willy Caballero, Bacary Sagna, Gaël Clichy, Pablo Zabaleta e Jesús Navas; confirmou o acerto com o português Bernardo Silva. Cria do Benfica, destacou-se pela seleção sub-21 e pelo Monaco.  Aos 22 anos, chega ao Etihad Stadium por 50 milhões de euros. Em um time que já conta com peças criativas como Kevin De Bruyne e David Silva, o que esperar do recém-chegado?

Bernardo Silva Scores for Monaco

Foto: JEAN-Christophe Verhaegen/AFP/Getty Images

Nas últimas três temporadas, Bernardo viu sua carreira decolar. Embora tenha laços com o Benfica que vão além da gratidão por ter sido formado em suas categorias de base, só evoluiu quando se mudou para o Principado. Sob o comando de um compatriota, Leonardo Jardim, em seis meses já se tornara peça importante para os monegascos.

Um meia-ponta?

Quase sempre pelo lado direito do meio-campo, o canhoto demonstrou porque era um talento digno do pagamento de 15 milhões de euros aos Encarnados, mesmo verde. Com 19 para 20 anos, não sentiu o peso de vestir a camisa 10 de um time que tradicionalmente luta pelo título francês e por uma vaga na Liga dos Campeões.

As intenções de Jardim ficaram logo claras. Faltava-lhe alguém que, ao mesmo tempo, fosse decisivo no terço final e tivesse características de armação. Jogadores como Yannick Ferreira Carrasco, Nabil Dirar, Thomas Lemar ou Anthony Martial corresponderam, mas como flechas pelos flancos. Bernardo Silva é capaz de desempenhar tal papel, mas não é assim que se destaca.

O futebol do português se assemelha ao desempenhado por De Bruyne nos tempos do Wolfsburg e na primeira campanha pelo City. O belga assumiu a missão de construir o jogo a partir do lado direito. Contudo, não é por ali que o camisa 17 se expressa melhor e o treinador Pep Guardiola sentiu falta de alguém capaz de construir jogadas partindo do lado.

Bernardo Silva Monaco

Foto: Reuters

Não é que não tivesse bons ponteiros. Raheem Sterling e Leroy Sané foram bem, Gabriel Jesus mostrou potencial para atuar pelo flanco e até mesmo Jesús Navas cumpriu bom papel. Porém, nenhum oferece que Bernardo entrega.

Guardadas as proporções, o português chega para desempenhar papel similar ao de Jadson no Corinthians de 2015, sob Tite. Embora seu jogo partisse do lado direito, o meia raramente buscava jogadas de linha de fundo; procurava o interior do campo. Quem cobria o corredor era o lateral Fágner. Algo nesse sentido é esperado de Bernardo Silva.

Canhoto, tem ainda mais propensão a fazer incursões pelas zonas centrais. Normalmente, buscando o passe, não a finalização. Embora marque gols, Bernardo é ainda melhor criando jogadas. Na Ligue 1 2016-17, foi o segundo jogador do Monaco a criar mais passes-chave (59), atrás apenas de Lemar. Ao todo, disputou 147 partidas, marcando 28 gols e criando 17 assistências. São números significativos para um jogador tão jovem.

Presente e futuro

Ao lado de David Silva e De Bruyne tende a crescer e oferece uma nova alternativa. Guardiola segue tendo em Sterling, Sané e Jesus opções de velocidade e drible, mas ganhou um construtor de jogo.

Monaco Bernardo Silva

Foto: EPA

O garoto não chega para ser titular, mas é visto como sucessor de Silva, que durante muito tempo atuou justamente como Bernardo, sendo um meia de criação, canhoto, pelo lado direito. Pode também se desenvolver em outras faixas do campo; não é por estar acostumado com um posicionamento que não pode aprender outros, sobretudo sob a direção de Guardiola.

“Falamos uma dezena de minutos depois da assinatura do meu contrato. Ele me explicou um pouco o que queria de mim. Me disse que teria de me adaptar ao campeonato, ao clube. E me revelou a posição em que ele deseja que eu jogue. Ele me vê na direita ou no meio. Posso jogar nas duas posições, mas penso que também poderei alinhar na esquerda se for preciso”, disse o jovem ao periódico português Record.

A mudança para o City representa um salto de qualidade. No Principado, foi brilhante, sobretudo em sua última temporada, conquistando a Ligue 1 e chegando às semifinais da Liga dos Campeões. Mas bateu no teto. As pretensões dos azuis de Manchester são ainda maiores. Quando Guardiola está no comando, não se espera menos do que a luta por todos os títulos disputados.

É possível que o garoto precise de tempo de adaptação. Também pode ser que tudo ocorra naturalmente, como o exemplo de Gabriel Jesus não deixa mentir. O negócio é bom para todos as partes. Para o Monaco, conhecido por sua política de contratar jovens e desenvolvê-los, a venda é parte do jogo; para Bernardo, é a chance de afirmação no cenário internacional; por último, para o City, representa a oportunidade de tornar seu elenco ainda mais completo.

Wladimir Dias

Idealizador d'O Futebólogo. Advogado, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Escrita Criativa. Mestre em Ciências da Comunicação. Colaborou com Doentes por Futebol, Chelsea Brasil, Bundesliga Brasil, ESPN FC, These Football Times, revistas Corner e Placar. Fundou a Revista Relvado.

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