A histórica dupla entre Gabriel Batistuta e Rui Costa

OS ANOS 1990 FORAM PECULIARES, fortemente marcados pela nostalgia. A década representou o auge da japonesa Nintendo, famosa empresa do ramo dos jogos eletrônicos, que passou a estampar sua marca na icônica camisa violeta da Fiorentina. O fardamento já seria motivo de saudades, mas não seria tão lembrado sem o sucesso da equipe e, em especial, de uma dupla.

Rui Costa Batistuta Fiorentina

Foto: Reprodução

A esquadra que, no decênio anterior, quase conquistou o título italiano de 1981-82, projetou o talento de Roberto Baggio e contou com a distinção técnica de Sócrates, viveu tempos conturbados na transição para a década seguinte. Entre 1989 e 92, a Viola terminou dois nacionais em 12º lugar e um em 13º, próxima da zona do descenso, que à época começava na 15ª posição. Eventualmente, o inevitável aconteceu: em 1992-93, os toscanos desceram à segunda divisão.

A Fiorentina não passou muito tempo no segundo escalão. Voltou imediatamente, apoiada no talento de uma dupla fantástica. Eram os primeiros anos de calmaria e sucesso.

Com Gabriel Batistuta no auge de suas capacidades, vivendo anos extremamente prolíficos no comando de ataque, e o português Rui Costa orquestrando a equipe, o time ganhou lugar cativo na memória. El Ángel e El Maestro impressionaram no período em que estiveram juntos, entre as temporadas 1994-95 e 1999-00.

Primeira parada, Buenos Aires

Antes do sucesso, Batigol atravessou os tempestuosos tempos vividos no Stadio Artemio Franchi. Um dos poucos loucos a representar as cores de River Plate e Boca Juniors, o atacante formado no Newell’s Old Boys chegou à Fiorentina em 1991, quando o futebol italiano atraía os maiores jogadores do planeta.

Tudo acontecera rapidamente em sua carreira. Em um ano era revelação dos Leprosos, no outro representava os Millonarios e, logo depois, os Xeneizes. Em 1991, passou a vestir a camisa da Viola e conquistou a Copa América pela Argentina. As coisas não iam bem na Fiorentina, mas não impediam o goleador de alcançar marcas expressivas.

Gabriel Batistuta scores for Fiorentina

Foto: Reprodução

Até 1994, quando Rui Costa chegou, foram 54 gols em três temporadas. Nada mal, mas o melhor estava por vir: faltavam-lhes passes de genialidade.

“A nossa história dentro do campo de jogo é suficiente para demonstrar a nossa amizade, ali nos entendíamos muito bem”, revelou Batigol, em 2008, ao periódico português Mais Futebol.

A Fiorentina ganhou um grande reforço em sua volta à primeira divisão, em 1994-95.

Segunda parada, Lisboa

Tratava-se de um miúdo de apenas 22 anos. Em 1991, participara do irresistível título do Mundial Sub-20, conquistado pela seleção portuguesa de Luís Figo, Jorge Costa, João Pinto, Capucho e… Rui Costa.

Cria da prolífica base do Benfica, chegou à Itália após uma temporada de sucesso com a camisa encarnada. Em 1993-94, as Águias conquistaram o Campeonato Português, impedindo o tricampeonato do Porto e adiando um período de supremacia dos Dragões. Rui custou valores que, atualizados, aproximam-se dos 6 milhões de euros — pechincha na era dos milhões, uma fortuna em 1994. Valeu cada centavo.

Rui Costa conduces the ball for Fiorentina

Foto: Reprodução

Juntos, Batistuta e Rui Costa foram brilhantes. Na primeira temporada da parceria, o argentino foi o artilheiro do Campeonato Italiano, com 26 tentos. O time terminou em 10º lugar, porém, ao menos em pontos, mais próximo da classificação à Copa da Uefa do que da zona do descenso.

O melhor momento da dupla, porém, veio no ano seguinte, na campanha de 1995-96. Mais entrosada, levou a Viola de volta ao pódio.

Sucesso individual e coletivo

Sob a liderança de Claudio Ranieri e ladeados por jogadores como o goleiro Francesco Toldo, o meio-campista sueco Stefan Schwarz e o brasileiro-belga Luis Oliveira, Gabriel e Rui conduziram a Fiorentina ao título da Coppa Italia, batendo a Internazionale na semifinal e a Atalanta na final. Batistuta marcou nos dois jogos. Além disso, a dupla de craques levou a equipe ao 4º lugar no Campeonato Italiano, a melhor posição desde 1986.

Em 1996-97, a campanha foi marcada pelo título da Supercoppa. A conquista veio com vitória sobre o Milan, treinado por Óscar Tabárez e que tinha em seu ataque o talento de George Weah, então o melhor jogador do mundo, e o montenegrino Dejan Savićević. Batistuta somou mais dois gols no triunfo.

Na Serie A, os toscanos ficaram com a 9ª colocação e na disputa da Recopa fizeram bonito, chegando às semifinais. Antes da queda, eliminaram os romenos do Gloria Bistrița, os tchecos do Sparta Praga e os portugueses do Benfica. Comandados pelos gols de Batistuta, que marcou quatro vezes no certame, só pararam no Barcelona de Giovanni, Luís Figo, Ronaldo e Hristo Stoichkov — o argentino marcou na partida de ida, empate por 1 a 1.

Com Rui Costa e Batistuta, a Viola ainda conquistou o terceiro lugar do Campeonato Italiano em 1998-99, com o matador na vice-artilharia, um gol atrás do brasileiro Amoroso. Em 1999-00, seu último ano em Florença, voltou a ser o 2º capocannoniere do certame, dessa vez superado por um tento de Andriy Shevchenko.

Novas vitórias para a dupla, novas derrotas para o clube

A parceria terminou antes da campanha de 2000-01.

Gabriel Batistuta, 2º maior artilheiro da história da Fiorentina, com 207 tentos, partiu para a Roma, sendo finalmente campeão italiano. Rui Costa ficou por mais um ano, adicionando mais uma taça da Coppa Italia ao seu currículo, antes de partir para o Milan, onde empilhou mais conquistas.

No período em que estiveram juntos, atacante e meia tiveram companhias qualificadas — chegaram a dividir clube até mesmo com Edmundo. Porém, foram sempre as referências, com a capitania da equipe, os gols do argentino e as assistências do português. História escrita, os craques gozam de uma certeza: sempre terão casa na Toscana.

Para a Viola, foi um fim trágico. Os dias de glória iniciados na segunda metade dos anos 1990 acabaram abruptamente. Em 2002, foi decretada a falência do time, que desceu à quarta divisão. A retomada começou no ano seguinte e, curiosamente, o salto se deu diretamente à segunda divisão, em razão do controverso Caso Catania, que provocou o aumento do número de disputantes da competição e admitiu a Viola. O retorno à elite ocorreu em 2004-05.

Batistuta | Gabriel Omar Batistuta (1º de fevereiro de 1969)

Carreira: Newell’s Old Boys (1988-89), River Plate (1989-90), Boca Juniors (1990-91), Fiorentina (1991-00), Roma (2000-02), Internazionale (2002-03) e Al-Arabi (2003-05).

Títulos: Campeonato Argentino (1990), Torneo Clausura (1991), Serie B (1993-94), Coppa Italia (1995-96), Supercoppa(1996 e 2001), Serie A (2000-01), Copa América (1991 e 1993) e Copa das Confederações (1992).

Rui Costa | Rui Manuel César Costa (29 de março de 1972)

Carreira: AD Fafe (1990-91), Benfica (1991-94 e 2006-08), Fiorentina (1994-01) e Milan (2001-06).

Títulos: Taça de Portugal (1992-93), Campeonato Português (1993-94), Coppa Italia (1995-96, 2000-01 e 2002-03), Supercoppa (1996 e 2004), Serie A (2003-04), Liga dos Campeões (2002-03) e Supercopa da Uefa (2003).

Wladimir Dias

Idealizador d'O Futebólogo. Advogado, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Escrita Criativa. Mestre em Ciências da Comunicação. Colaborou com Doentes por Futebol, Chelsea Brasil, Bundesliga Brasil, ESPN FC, These Football Times, revistas Corner e Placar. Fundou a Revista Relvado.

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