Coppa Italia 2011-12: como o Napoli reconquistou a autoestima

A POPULARIDADE DO NAPOLI, um dos símbolos de sua cidade, nunca se explicou apenas pelos resultados ou pela presença de craques. O culto à figura de Diego Maradona, a partir dos anos 1980, foi construído pela qualidade técnica singular do argentino e pelas conquistas, mas sobretudo por personificar o sentimento do torcedor. Após sua saída em 1991, o time declinou e, pouco mais de uma década depois, foi à bancarrota.

Napoli Title Coppa Italia 2012

Foto: Ansa/Sky Sports

Time ioiô a partir da segunda metade dos anos 1990, o Napoli lutou contra o rebaixamento sucessivas vezes, desceu e subiu de divisão e precisou ser refundado em 2004-05. Direto da indústria cinematográfica, Aurelio De Laurentiis socorreu o clube. O recomeço foi na Serie C1, sob outro nome: Napoli Soccer. Nada de que se orgulhar, especialmente após falhar no acesso na primeira temporada.

Mesmo em dificuldades, o Napoli levou mais de 37 mil pessoas por jogo ao estádio San Paolo naquele ano. O clube não caminhou sozinho em momento algum e a fidelidade da torcida foi fundamental para o que veio a seguir. Em 2006-07, com o treinador Edoardo Reja no comando, conseguiu o acesso à Serie A. Foi um ano atípico, já que a Juventus, punida pelo envolvimento no Calciopoli, estava na disputa.

Fortalecimento gradativo

O acesso permitiu uma reformulação no elenco. O diretor Pierpaolo Marino viajou à América do Sul e encontrou um talento promissor. Revelado no Estudiantes de Buenos Aires, Ezequiel Lavezzi representava o San Lorenzo e havia recebido o primeiro chamado da seleção argentina. Mesmo sem ser um centroavante, levava 26 gols em 97 partidas pelo Ciclón — além do título do Clausura 2007.

Com raízes italianas na família, El Pocho havia tido vínculo com o Genoa antes de chegar ao San Lorenzo, mas nunca atuou pelo Rossoblù. O Napoli desembolsou 5 milhões de euros, que logo se confirmaram uma pechincha. Ao lado do uruguaio Marcelo Zalayeta, experiente na Serie A, marcou 11 gols na primeira temporada. O time ficou em oitavo lugar. Foi um retorno tranquilo.

Lavezzi Napoli 2007-08

Foto: Reprodução

“Houve uma relação genuína entre eu e o Napoli. O segredo é este: gostaram de mim como se eu fosse um napolitano. Tive o respeito de uma cidade que me permitia ser feliz jogando futebol”, falou ao jornalista Gianluca Di Marzio, do Sky Sports.

Não foram, porém, só os sul-americanos que alavancaram o renascimento napolitano. Se a disputa pelo acesso em 2006-07 acabou restrita a Juve, Napoli e Genoa, outras cinco equipes lutaram o quanto puderam. Entre elas, o Brescia, sexto colocado.

No início da década, os Rondinelle tiveram meio-campistas como Andrea Pirlo, Pep Guardiola e Roberto Baggio. Quem honrava essa tradição era um garoto eslovaco de 19 anos: Marek Hamsik. Mesmo jogando como um armador, nem sempre próximo do gol, marcou 11 gols na temporada, incluindo um tento diante do Milan, na Coppa Italia.

Hamsik Napoli 2007-08

Foto: Reprodução

Contratado pelo Napoli, Hamsik manteve a forma no primeiro ano e anotou 10 tentos. A camisa 17 começava a ficar famosa.

“Nunca havia sentido em nenhum outro lugar o calor humano que existe em Nápoles. É o ambiente ideal para um jogador de futebol que quer se sentir importante. Também há aspectos difíceis de digerir, mas, quando você entra no San Paolo e 70 mil pessoas gritam seu nome, entende que Nápoles é única no mundo”, falou ao Caserta News, em 2008.

Sem grandes conquistas, mas também sem flertar com o rebaixamento, o Napoli consolidava seu retorno à elite. Na Sicília, outro jovem começava a chamar a atenção com a camisa do Palermo.

 

O matador e o comandante

A gestão de Edoardo Reja chegou ao fim em março de 2009, após uma sequência de nove partidas sem vitória (2E e 7D). Foi uma trajetória importante, mas que perdeu o fôlego. Ele totalizou 189 jogos (92V, 52E e 45D). Roberto Donadoni concluiu a temporada e iniciou a campanha de 2009-10. Durou pouco e, em outubro do mesmo ano, deu lugar a Walter Mazzarri.

Quando Mazzarri assumiu o Napoli, além de Lavezzi e Hamsik, o elenco já apresentava coadjuvantes de peso, como o zagueiro Hugo Campagnaro, os laterais Christian Maggio e Juan Camilo Zuñiga, o meia argentino Jesús Dátolo, o volante Walter Gargano e o atacante Fabio Quagliarella. O time voltou para os trilhos e terminou a Serie A em sexto; Hamsik foi o principal goleador da equipe, o que explicava sua importância e a necessidade de um autêntico 9.

Quagliarella Mazzarri Napoli

Foto: Giuseppe Bellini/Getty Images

Aos 23 anos e adaptado ao futebol italiano, Edinson Cavani foi o escolhido para servir de matador para a temporada 2010-11. O Napoli deixou 17 milhões de euros nos cofres do Palermo e levou o uruguaio, que registrara 15 gols em cada uma das duas temporadas anteriores e estava numa crescente.

“Nós o acompanhamos por um mês. Embora outros clubes tenham tentado contratá-lo, fomos mais rápidos. Estamos orgulhosos por oferecer outro grande jogador para nossos torcedores”, indicou De Laurentiis. Cavani foi a cereja do bolo de um time que voltou a disputar uma competição europeia — a Liga Europa. Não foi muito longe, mas na Serie A a história foi diferente.

O Napoli terminou em terceiro e se classificou para a Liga dos Campeões de 2011-12. Cavani fez a melhor campanha de sua carreira até então: em 47 jogos, marcou 33 gols. Na Serie A, foram 26 — ficou apenas dois tentos atrás de Antonio Di Natale, artilheiro do certame. Ele impressionou em várias ocasiões, como nos tripletes diante da odiada Juventus, de Sampdoria e Lazio.

 

Como nos anos 1980, quando apresentou ao torcedor o trio Ma-Gi-Ca — com Maradona, Bruno Giordano e Careca —, os Partenopei tinham uma nova formação ofensiva para celebrar: Lavezzi, Hamsik e Cavani.

Grandes noites

No futebol, algumas temporadas carregam o peso do cânone. Para o Napoli, 2011-12 foi uma delas. Se a luta pelo título italiano ficou em segundo plano, o coletivo celeste chamou a atenção na fase de grupos da Liga dos Campeões.

Na luta com Bayern, Manchester City e Villarreal, ficou com a vice-liderança e foi aos mata-matas. A única derrota na fase inicial foi diante dos alemães, como visitante. Nas oitavas, porém, acabou eliminado pelo Chelsea — não sem uma vitória em casa por 3 a 1, com dois gols de Lavezzi e um de Cavani. A queda só foi confirmada na prorrogação e os ingleses acabaram campeões daquela edição.

 

A eliminação continental aconteceu em 14 de março de 2012. Pela Coppa Italia, o Napoli havia eliminado Cesena e Internazionale. Contudo, nas semifinais, disputadas em jogos de ida e volta, vinha de derrota marginal para o Siena, 2 a 1. O gol contra marcado por Emanuele Pesoli deixara tudo em aberto.

Uma semana depois da queda em Stamford Bridge, os Partenopei reencontraram o Siena e saíram na frente com outro autogol. Simone Vergassola foi o responsável. Ainda na etapa inicial, de cabeça, Cavani ampliou a vantagem e fechou a eliminatória. O uruguaio concluiu uma jogada construída por Lavezzi e Hamsik, este último responsável pela assistência.

Cavani Napoli

Foto: Sky Sports

“Esse era um dos objetivos que determinamos no início do ano. Precisamos sofrer. Depois do intervalo, eles tomaram o controle, mas resistimos. Agora, precisamos pensar na Serie A, vamos pensar na final mais tarde”, garantiu o uruguaio.

Apesar das intenções, foi inevitável a quebra de foco. Desde o título da Serie A de 1989-90, o Napoli não conquistava nenhum título de primeira grandeza e, do outro lado da final, esperava a rival Juventus. Os Celestes não venceram seus quatro compromissos seguintes (1E e 3D), incluindo uma pancada da própria Juve, 3 a 0.

Pela cidade

No dia 20 de maio de 2012, Juventus e Napoli subiram ao gramado do Stadio Olimpico di Roma para a decisão da Coppa Italia.

Os times se espelhavam: se os turineses tinham três zagueiros com Martín Cáceres, Andrea Barzagli e Leonardo Bonucci; os napolitanos apresentavam Paolo Cannavaro, Salvatore Aronica e Hugo Campagnaro. A vantagem juventina era o meio-campo, com Arturo Vidal, Claudio Marchisio e Andrea Pirlo, enquanto o Napoli mostrava superioridade na linha mais avançada, com Hamsik, Lavezzi e Cavani.

Foi um jogo tenso. O árbitro Christian Brighi apresentou seis cartões amarelos e um vermelho para Fabio Quagliarella, agora vestido de preto e branco. Logo aos dois minutos, Zuñiga obrigou o goleiro Marco Storari a trabalhar. Ainda assim, o placar só foi aberto aos 63. Até então destaque, Storari derrubou Lavezzi na área e Cavani converteu a penalidade.

O treinador Antonio Conte colocou a Juventus para frente, introduzindo Simone Pepe, Mirko Vucinic e Quagliarella na partida. Então, brilhou o goleiro Morgan De Sanctis — notadamente parando uma bela finalização de Bonucci. A pressão bianconera abriu espaços, e o Napoli aproveitou.

 

Em um contra-ataque puxado por Pandev, emprestado pela Inter, Hamsik recebeu em velocidade e bateu na saída de Storari para ampliar a vantagem. Nos minutos finais, Quagliarella ainda foi expulso após acertar uma cotovelada em Aronica.

“É o primeiro troféu após uma longa espera para o Napoli. Estamos muito felizes por estar aqui celebrando com nossos torcedores. Vencer a Coppa Italia superando um time como a Juventus torna isso ainda mais especial. Eles ficaram invictos a temporada toda, mas viemos aqui e vencemos por 2 a 0. É uma grande conquista. Esse grupo fez grandes coisas nos últimos três anos e essa é uma grande recompensa para todos”, falou Mazzarri.

O Napoli, oficialmente, estava de volta. Foram 22 anos esperando para comemorar algo que estivesse à altura de sua história. A torcida nunca arredou o pé e a direção encontrou gradativamente jogadores identificados com o clube; os resultados apenas confirmaram a força dessa relação em Nápoles.

Hamsik Cavani Lavezzi Napoli

Foto: Sky Sports

Wladimir Dias

Idealizador d'O Futebólogo. Advogado, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Escrita Criativa. Mestre em Ciências da Comunicação. Colaborou com Doentes por Futebol, Chelsea Brasil, Bundesliga Brasil, ESPN FC, These Football Times, revistas Corner e Placar. Fundou a Revista Relvado.

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