1981-82: A chaga eternamente aberta da Fiorentina
QUAL A MEDIDA da tradição de uma equipe de futebol? Florença prova que títulos não são tudo. A Fiorentina não está entre os times mais vencedores da Itália, mas basta o menor vislumbre de violeta no horizonte e se sabe que vem ali um orgulhoso torcedor da equipe. Em 1981-82, faltou muito pouco para ele ostentar o Scudetto pela terceira vez.

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Fazia 11 anos desde que o time treinado por Bruno Pesaola, levado adiante pelos gols de Mario Maraschi, e que tinha em Amarildo — o Possesso — a qualidade de um campeão mundial, conquistara o título italiano pela última vez. A Viola foi quase imbatível: em 30 rodadas, só foi superada uma vez, contra o Bologna ainda na 5ª rodada.
Entre 1968-69 e 1981-82, terminou cinco vezes entre os cinco primeiros da Serie A. A liderança de Giancarlo Antognoni, contratado aos 18 anos para se tornar uma lenda da equipe, inspirava, mas sempre faltava algo. Entre 1979 e 81, anos em que Antognoni foi o principal artilheiro da equipe, com 8 e 9 gols, respectivamente, pesou o excesso de empates: 11 em um ano, 14 no outro.
Remediando a situação
Também faltavam gols. Apesar da sequência de quintos lugares, a Fiorentina marcou 28 vezes em 1979-80 (0,93 por partida) e 33 no ano seguinte (1,1). Não dava para ser campeã com marcas tão baixas e, ciente disso, o presidente Ranieri Pontello buscou a contratação de Francesco Graziani. O centroavante fora artilheiro da Serie A na década passada e trazia mais de 100 gols com a camisa do Torino.
Eram os primeiros anos da gestão da família, que não poupou esforços para tentar recolocar a equipe na rota do Scudetto. “Não foi particularmente difícil. Meu pai [Flavio Pontello, proprietário da equipe] era um bom amigo do presidente granata, [Orfeo] Pianelli. Ele precisava se reerguer, então decidiu vendê-los para nós e nos ajudar a fortalecer a equipe”.

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A fala de Ranieri ao La Nazione aparece no plural, porque também buscou a contratação do meio-campo Eraldo Pecci. Descrito pelo periódico como a figura mais humana e romântica de seu clã, o mandatário não tinha dúvidas sobre o lugar que a Viola deveria ocupar na hierarquia do Calcio. Contratações futuras como as de Sócrates, Daniel Passarella, Roberto Baggio e Dunga seriam testemunhos vivos de sua ambição.
Faltavam ainda alguns ajustes. Um deles correspondeu ao principal investimento da equipe na temporada. A Fiorentina foi à Andaluzia tirar o argentino Daniel Bertoni do Sevilla. As outras contratações eram apostas mais jovens: do Monza, veio Daniele Massaro; da Sampdoria, por empréstimo, Pietro Vierchowod. Ídolo violeta como jogador, o treinador Giancarlo De Sisti tinha então a matéria-prima para fazer bonito.
A temporada começou bem: no Artemio Franchi, um solitário gol do meio-campista Francesco Casagrande bastou para garantir a vitória contra o Como. A equipe, porém, oscilaria até a oitava rodada, acumulando empates sem gols contra Milan e Ascoli, além de derrotas para Roma e Cesena. Dali em diante, não voltaria a perder — mas quase.

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O baque fatal
O nono confronto da Fiorentina foi em casa, diante do Genoa. Decorridos mais de 50 minutos de partida, tudo corria bem, sobretudo após o gol de pênalti de Antognoni, que definiu o 2 a 1 no placar. Lutando para ampliar a vantagem, o ídolo da Viola se chocou com o goleiro adversário, Silvano Martina, e caiu desacordado. O diagnóstico de fratura no crânio gerou todo tipo de temor, afinal foi acompanhado por uma parada cardíaca que durou cerca de 30 segundos.
O capitão adversário gritou, inconsolável: “Ele está morto, ele está morto!”. O pênalti grosseiramente ignorado pelo árbitro Paolo Casarin era o menor dos problemas. Claudio Onofri, o dito líder genovês, pediu socorro imediato; a língua de Antognoni estava se enrolando e asfixiando-o.
O coração da Fiorentina pedia socorro, mas ainda estava vivo.
“Eu jamais o teria machucado de propósito. A bola bateu na linha da grande área, ele tentou me driblar, escorregou e minha perna bateu na cabeça dele […] Eu só estava arrependido, muito arrependido, pelo meu colega. O árbitro nem sequer marcou falta […]
Quando fui visitar Giancarlo no hospital, eu disse a ele: ‘No primeiro encontro, você vai marcar um gol’. Aconteceu na segunda vez, uma bela vitória da Fiorentina por 3 a 0 com um gol dele. Ele poderia ter me dito qualquer coisa e eu teria entendido, mas, em vez disso, sempre foi um cavalheiro”.
Foram quase quatro meses de ausência. Nesse período, seus companheiros honraram-no. Começando pela própria partida contra o Genoa, a Viola acumulou uma sequência de 14 partidas invicta (nove vitórias e cinco empates). No retorno, contra o Cesena, atuou os 90 minutos e viu, de perto, Casagrande marcar seu terceiro gol na competição, confirmando o 1 a 0.
A batalha contra a Juventus
Na vice-liderança, a Fiorentina estava viva na luta pelo Scudetto. Faltavam sete partidas — uma delas um confronto direto, em casa, contra a líder e rival, Juventus. A Viola foi para a partida com a corda no pescoço, após um empate com o fatídico Genoa.
De Sisti escalou o que tinha de melhor: Galli; Contratto, Cuccureddu,Vierchowod, Miani; Casagrande, Pecci, Antognoni; Bertoni, Graziani e Massaro. Do outro lado, Giovanni Trapattoni alinhava uma defesa praticamente intransponível. Além do goleiro Dino Zoff, havia uma trinca de defensores formada por Claudio Gentile, Gaetano Scirea e Sergio Brio. Foi mais um empate por 0 a 0.

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Apesar de tudo, as vitórias diante de Bologna, Napoli e Udinese, além de um empate como visitante diante da Internazionale, deixaram tudo aberto na última rodada. Era preciso superar o Cagliari, na Sardenha.
“Foi um dia muito triste para todos nós florentinos. Sentimos que a pressão do sonho era grande demais. Em Cagliari, não jogamos tão bem quanto poderíamos e deveríamos. Além disso, anularam um gol legítimo”, comentou Antognoni, ao Il Foglio.
Do outro lado da disputa, a Juventus contou com a leniência da arbitragem. No Stadio Nicola Ceravolo, o árbitro Claudio Pieri marcou um pênalti controverso para os Bianconeri. Liam Brady converteu e deu números finais à partida. Mandante, o Catanzaro foi derrotado por 1 a 0. “Vamos deixar isso para lá…”, arrematou Antognoni.
Fugindo do mérito arbitral, a tabela provou que a Fiorentina evoluíra, mas não o suficiente. Os 11 empates totais e os 12 gols marcados a menos em relação à Juve pesaram. Com nove tentos cada, Bertoni e Graziani fizeram metade do total da equipe; corresponderam ao investimento. Das arquibancadas, a torcida também entregou seu máximo: a Viola teve a segunda maior média de público: 47.660 pessoas por jogo. Ficou atrás apenas do Napoli.
Uma história incompleta
Foi um ano de lamentação e que deixou uma pergunta no ar: faltou um mísero ponto para empatar com a Juventus. Como teria sido a vida sem a perda temporária de Antognoni? “Embora Luciano Miani tenha sido brilhante, teríamos marcado mais pontos com Giancarlo no campo? Acho que sim”, refletiu Pontello.
Depois de anos evitando falar sobre arbitragem, o presidente colocaria outra carta na mesa. “Dizer que fiquei desapontado é um eufemismo. Éramos fortes. Digamos que algo aconteceu. Talvez não pudéssemos jogar um playoff pelo Scudetto, havia uma Copa do Mundo a seguir”.
Fiorentina e Juventus entraram na rodada final com 44 pontos. Caso terminassem empatadas, a competição seria decidida em um spareggio, um jogo de desempate. A partida contra o Cagliari aconteceu em 15 de maio de 1982. O Mundial da Espanha começou em 13 de junho.

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Seis jogadores da Vecchia Signora foram chamados pelo treinador Enzo Bearzot. Todos titulares: Zoff, Gentile, Scirea, Antonio Cabrini, Marco Tardelli e Paolo Rossi. A Viola foi contemplada com cinco chamados, mas apenas Antognoni e Graziani eram escolhas iniciais (Massaro, Giovanni Galli e Piero Vierchowod também foram chamados). A diferença é clara e a Nazionale precisava de todos o quanto antes.
“Os garotos de 1982 têm um lugar especial [no meu coração]. Tanto que temos um grupo chamado Terzo Scudetto em que sempre nos falamos”, completou Pontello.
Enquanto a Juventus venceu ali seu 20º campeonato, recebendo a honra de exibir sua segunda estrela dourada sobre o escudo, a Fiorentina recolheu os cacos e continuou. Em 1983-84, ficou em terceiro lugar. Dois anos depois, em quarto. Sempre perto, sempre longe.
No fim da década, em 1989-90, com Roberto Baggio, foi à final da Copa da Uefa. Perdeu para a Juventus e o craque se mudou justamente para a rival. A dor é uma velha conhecida em Florença, mas a camisa violeta segue. Mesmo ao longe, continua reconhecível.
