E se Zidane tivesse ido ao Blackburn?
NO VERÃO EUROPEU DE 1995, o Blackburn estava no topo. A equipe de Lancashire era a campeã da Premier League, contrariando todos os prognósticos. Sob a tutela de Kenny Dalglish, o treinador, e a liderança de Jack Walker, proprietário, somou um ponto a mais que o Manchester United e levantou o troféu. Não acontecia há mais de 80 anos. Era um clube requisitado e com ambição.
Não tão longe dali, do outro lado do Canal da Mancha, o Bordeaux passava por uma fase de indefinição. Não lutava por títulos, mas figurava na parte de cima da tabela da Ligue 1 e buscava vagas em competições continentais. Em 1994-95, acabou em sétimo lugar, mas com os mesmos pontos que levaram o Monaco à Copa da Uefa. Faltava profundidade ao elenco, não propriamente qualidade.
Os girondinos tinham referências em todos os setores. Na defesa, o lateral Bixente Lizarazu era uma certeza que se firmava também na seleção francesa. No ataque, algo similar se passava com Christophe Dugarry. Já o meio, além da experiência do holandês Richard Witschge, jogador de Copa do Mundo, via a ascensão de um jovem Zinedine Zidane.
Apesar disso, sem a perspectiva de conquistas, uma mudança de ares não era descartada por alguns atletas. Notadamente, Zidane e Dugarry receberam uma chance de ouro. Abordados pelo Blackburn, voaram para Ewood Park e, após serem apresentados às instalações, aprovaram as condições oferecidas e firmaram contratos de quatro e três anos, respectivamente.

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Novas peças para Ray Harford
Zidane e Dugarry não foram as únicas novidades da temporada. Após o título, Dalglish assumiu a posição de diretor de futebol. Ray Harford, seu auxiliar, passou ao comando técnico da equipe. Em tese, era uma passagem de bastão natural. A realidade trouxe imediatamente um grande desafio: como encaixar os recém-chegados na equipe?
Dugarry vinha de uma boa temporada, com 11 gols em 39 partidas. No entanto, concorria com Alan Shearer e Chris Sutton. Além de ser um dos favoritos do torcedor, o primeiro havia sido o artilheiro da Premier League 1994-95, com 34 gols. Seu companheiro também se destacou, emplacando 15 tentos. Juntos, somaram mais de 60% dos 80 gols da equipe. Nenhum juízo justo admitiria mudanças, mas Dugarry não se mudara para amargar a reserva. Sobrou para Sutton.
No meio-campo, a disputa era diferente. O Blackburn adotava um esquema tático 4-4-2 clássico e não havia um meio-campista cerebral. Pelos lados, atuavam Stuart Ripley e Jason Wilcox. Na faixa central, com funções híbridas de construção e destruição, Mark Atkins e o capitão Tim Sherwood. O encaixe de Zidane não era simples, razão que levara o proprietário a se opor inicialmente ao negócio.

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A resposta estava pronta: seria loucura sacar Sherwood. Era o esteio da equipe. Sobrou para Atkins, que se destacou substituindo David Batty, lesionado na campanha anterior. Não era uma solução satisfatória, entretanto. Zidane não tinha a capacidade física para ir e vir várias vezes durante o jogo e enfrentar os duelos necessários para a função. Além disso, precisava de tempo para se adaptar ao futebol inglês, em que o jogo não passaria necessariamente por seus pés.
A Premier League 1995-96 começou em uma partida contra o QPR. A vitória magra foi confirmada por um gol de pênalti de Shearer, aos cinco minutos do primeiro tempo. Dugarry e Zidane não voltaram para o segundo tempo. Batty e Sutton foram rapidamente acionados. O time ganhou pegada e aumentou a presença de área. Os resultados seguintes foram pífios e confirmaram os problemas imaginados.
Desacertos irreversíveis
O Blackburn foi derrotado por Sheffield Wednesday, Bolton, Manchester United, Liverpool e Middlesbrough; empatou com o Aston Villa e venceu apenas o Coventry. Harford começou a balançar, mas foi bancado por Dalglish. No entanto, o ex-comandante exigiu o retorno aos métodos do ano anterior, com Sutton e Atkins ou Batty entre os titulares. Zidane e Dugarry foram para o banco. A contragosto.
O time cresceu de produção e nas cinco rodadas seguintes venceu Southampton, Chelsea e Forest, em uma acachapante goleada por 7 a 0. Ficou também no empate com o West Ham e perdeu para o Everton. Foi uma grande melhoria e os ânimos se renovaram no elenco. Menos para os dois forasteiros, que foram ficando cada vez mais isolados e com minutagem mais escassa.
Entre a 17ª rodada e a 24ª, tudo correu bem. O Blackburn ficou invicto, enfileirando seis vitórias e dois empates. Foi o suficiente para Harford confiar que era a hora de oferecer novas chances. O cenário era favorável, jogo em casa contra o lanterna Bolton. Zidane, em especial, fez uma partida para justificar a contratação. Marcou dois gols e assistiu Shearer, que consolidou o triunfo por 3 a 1.
O fiel da balança veio a seguir. Em Old Trafford, os homens de Lancashire encaravam o grande rival da temporada anterior, que estava na luta pelo título mais uma vez. Alex Ferguson alinhou o que tinha de melhor. No ataque, estavam David Beckham, Ryan Giggs, Eric Cantona e Andy Cole. E de uma bola perdida por Zizou surgiu o único gol da partida. Sherwood subiu o tom nas cobranças internas e o vestiário implodiu.
Nem todos os jogadores entenderam como correta a eloquência do capitão, mas o único que ficou deliberadamente ao lado do recém-chegado foi o amigo Dugarry. Acuado num primeiro momento, Harford não levantou a voz, mas opinou por meio de suas ações. Os franceses seguiram na equipe, assim como os maus resultados: derrotas para Aston Villa e Liverpool, além de um empate com o Manchester City.

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Os problemas também aconteceram na Liga dos Campeões da Europa, com o time inglês amargando a lanterna de um grupo com Spartak Moscou, Legia Varsóvia e Rosenborg. Na FA Cup, caiu diante do Ipswich Town, na terceira fase. Na Copa da Liga, o algoz foi o Leeds United, na quarta.
Walker e Dalglish entram em cena
Sem os resultados para bancar suas escolhas, Harford ficou de mãos atadas quando foi cobrado por seus superiores. Jack Walker já havia decidido: negociaria os franceses ao final da temporada. Diante disso, Dalglish demandou novamente a saída deles do time titular. Sem surpresa, os resultados voltaram. Nas nove rodadas remanescentes, o Blackburn registrou seis vitórias, um empate e duas derrotas apenas.
O fecho da temporada aconteceu em Stamford Bridge, uma vitória por 3 a 2. Sem Shearer e Sutton, os gols couberam a Sherwood, Billy McKinlay e Graham Fenton. Zidane e Dugarry sequer viajaram a Londres. O Blackburn acabou a temporada em sétimo lugar. Dias depois, foram anunciados como reforços de Juventus e Milan, respectivamente. Ainda amigos, mas a partir de então, rivais. A imagem de Ewood Park escorreu diante de seus olhos, como chuva no para-brisas.

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Walker não seguiu seus instintos e foi obrigado a contabilizar os prejuízos. Dalglish e Harford deixaram o clube logo no início da temporada 1996-97, devido aos maus resultados. Sherwood seguiu até 1999, quando Zidane e Dugarry já eram campeões do mundo pela França.
O Blackburn só voltou a conquistar algo relevante em 2001-02, a Copa da Liga. Curiosamente, com Graeme Souness, grande amigo de Dalglish e companheiro no Liverpool e na seleção escocesa, à beira do campo. O time ainda jogava em um 4-4-2 típico e a base era formada por jogadores do Reino Unido, da Irlanda e da Escandinávia.
O que de fato aconteceu…
Em 1995, efetivamente, Zidane e Dugarry foram abordados pelo Blackburn e voaram à Inglaterra. Porém, o negócio não foi efetivado, contrariando o desejo de Dalglish. Como repetido várias vezes pelo folclore do futebol, Jack Walker teria dito que não precisava de Zizou, afinal já contava com Tim Sherwood. O resto, como dizem, é história.
A narrativa acima reconstrói uma hipótese alternativa a partir de um episódio real, preservando alguns dos resultados e acontecimentos da temporada 1995-96. A declaração atribuída a Jack Walker deve ser tratada como anedota, não como citação comprovada.
