Eduardo Berizzo: a escolha racional do Sevilla

EM 2016-17 o torcedor do Sevilla viveu a expectativa de passar por uma revolução: o argentino Jorge Sampaoli, vencedor com a Universidad de Chile e a seleção chilena, chegou para comandar os Rojiblancos. Um dos mais famosos discípulos de Marcelo Bielsa, levou uma visão particular do futebol à Andaluzia. Apesar do bom início, o final foi desgastante e o treinador preferiu realizar o sonho de liderar a Argentina. Restou ao clube contratar um novo treinador. Sem desviar muito da rota, fechou com outro argentino que bebeu da fonte de bielsista: Eduardo Berizzo.

Eduardo Berizzo Celta de Vigo

Foto: AFP

Revelado por Bielsa no Newell’s Old Boys, ainda no final da década de 1980, e auxiliar técnico do ícone no Chile (2007-10), chega a Sevilla após um sólido trabalho de três temporadas no Celta de Vigo. Com estilo de jogo baseado na manutenção da posse de bola e na marcação sob pressão, transformou os Celestes em um dos times mais elogiados na Espanha, alcançando feitos notáveis — como uma goleada por 4 a 1 imposta ao Barcelona, na 5ª rodada do Campeonato Espanhol 2015-16.

A descrição remete a Sampaoli. Não obstante, há diferenças estruturais.

Notavelmente, Berizzo raramente utiliza formações com três defensores, uma das preferências de seu antecessor. Seu estilo costuma se manifestar a partir de um 4-2-3-1. A alternativa soa menos brilhante que o 3-4-3, e suas variações, na execução de uma proposta de domínio das ações. Porém, é mais preparada para encarar adversidades na retaguarda e também evita o constante improviso de jogadores. O novo treinador do Sevilla não abre mão de explorar a criatividade e o passe, porém não chega a extremos característicos de Sampaoli.

Os times de Berizzo buscam, constantemente, rodar a bola até a abertura de espaços para infiltrações. A posse não se justifica em si mesma. Meio-campistas e atacantes buscam movimentos e toques que forçam as defesas adversárias a se abrir. Foi assim que Iago Aspas se tornou o principal artilheiro do Celta de Vigo — pela facilidade para se movimentar no espaço, entre o lado direito e o centro do ataque.

Jorge Sampaoli first spell at Sevilla

Foto: Toni Rodriguez

A proposta do comandante contempla, também, o passe de maior risco, com a bola longa por trás da defesa adversária. Embora seus times costumem ser prevalentes na posse de bola, não lideram rankings de acerto dos passes. O jogo do Celta era vertical e o Sevilla oferece condições para Berizzo replicar o sucesso anterior.

“Tenho muito mais ideias comuns que diferentes com Jorge [Sampaoli]. Minha ideia é atacar, assegurarmos que a bola esteja em nossos pés na maior parte do tempo e atacar rápido. Gosto de atacar, mandar nas partidas e para isso procuro a bola”, disse o treinador em sua apresentação.

A direção rojiblanca procurou alguém capaz de lapidar o trabalho feito na temporada 2016-17, não um reinício. Reconheceu-se que o time não estava preparado para uma abordagem tão radical, mas se manteve a ideia bielsista de jogo de pressão alta e controle, sempre voltado para o ataque.

O novo técnico andaluz encontra peças capazes de aplicar sua ideia de jogo. Em Steven N’Zonzi, Michael Krohn-Dehli (ex-comandado no Celta) e Ever Banega — de volta após um ano ruim na Inter —, tem alternativas confortáveis com a bola nos pés e preparadas para manter um jogo de pressão alta. Em jogadores ofensivos de intensa movimentação e versatilidade, como Franco Mudo Vázquez, Joaquín Correa e Pablo Sarabia, tem também peças aptas a construir o jogo e fazer infiltrações.

Há, contudo, uma incógnita: Ganso. Desprestigiado com Sampaoli, terá outra chance de crescer, mas precisa se tornar mais participativo e intenso, algo que lhe cobram desde os tempos de Santos e São Paulo. Poderá confirmar o potencial que sempre lhe foi atribuído ou reafirmar a dificuldade para se tornar um jogador de elite.

Paulo Henrique Ganso at Sevilla

Foto: Aitor Alcalde Colomer/Getty Images

Diante das saídas de Vicente Iborra, Benoit Tremoulinas, Vitolo, Luciano Vietto, Sebastián Cristóforo, Samir Nasri, Stevan Jovetic e Matías Kranevitter, o time irá ao mercado e fará contratações. Especula-se a chegada do volante argentino Guido Pizarro, do Tigres, e se fala sobre a possibilidade de acerto com Nolito  — também ex-comandado de Eduardo Berizzo no Celta. Mais importante, Jesús Navas, ídolo e canterano do clube, pode voltar.

A diretoria sabe o que quer. Não contratou Sampaoli e Berizzo ao acaso. Não se pode ignorar, contudo, a saída do diretor esportivo Monchi. Responsável por 17 anos de ótimos negócios, partiu para uma aventura na Roma. Para seu lugar foi promovido Oscar Arias, que já fazia parte do corpo diretivo rojiblanco.

É esperado, ademais, um trabalho de transição de jovens das categorias de base. Conforme informou Anderson Queiroz, do blog Sevilla somos nosotros, oito farão a pré-temporada com os profissionais.

Tudo vem sendo pensado no sentido de se aprimorar o legado de Jorge Sampaoli. Coisas boas foram deixadas para trás. A filosofia de jogo procurada segue a mesma, mas muda a abordagem: menos drástica e — esperam os torcedores — mais eficiente.

Wladimir Dias

Idealizador d'O Futebólogo. Advogado, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Escrita Criativa. Mestre em Ciências da Comunicação. Colaborou com Doentes por Futebol, Chelsea Brasil, Bundesliga Brasil, ESPN FC, These Football Times, revistas Corner e Placar. Fundou a Revista Relvado.

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