Athletic vs. Real Sociedad: o derby do País Basco

FUNDADO EM 1898, o Athletic Club é um emblema da cidade de Bilbao, no País Basco. A rival surgiu em 1909: direto de San Sebastián, vem a Real Sociedad. Diferentemente de outros casos, isso representa muito mais do que um mero lugar no mapa da Espanha.

Real Sociedad vs Athletic Bilbao 2020

Foto: David S. Bustamante/Soccrates

Localizado ao norte do país e sudoeste da França, cortado pelos Pirineus, o País Basco é uma região que, há tempos, luta pela sua independência. Ao longo da história, o separatismo basco provocou conflitos, enfrentando o centralismo da capital. O futebol não ficou à margem.

O País Basco é único

A região possui cultura singular, o que inclui idioma próprio, com raiz completamente distinta das línguas de origem indo-europeia. As peculiaridades chegam ao nível do DNA, com menor mistura genética do que o dos demais povos da Península Ibérica, como reportou estudo publicado pela revista Science.

Historicamente, tamanha diferença trouxe consequências indesejadas. Durante a Ditadura Franquista, por exemplo, o País Basco teve seu idioma proibido, o Euskara. Foi um período longuíssimo, entre 1939 e 76, em que o desejo emancipatório se tornou ainda mais forte, em resposta à repressão — que, entre outras ações, torturou intelectuais locais.

A partir de 1979, Euskadi se tornou região autônoma, viabilizando governo próprio e autonomia em diversos segmentos, como a gestão fiscal e a segurança. País Basco Mapa

As lutas nem sempre foram pacíficas, entretanto. A região foi palco de diversas ações do ETA (Pátria Basca e Liberdade), organização nacionalista de resistência, considerada terrorista por países como Espanha, França, Reino Unido e Estados Unidos.

O primeiro assassinato ocorreu em 1968, quando Melitón Manzanas, líder da polícia secreta, foi morto. O grupo também assumiu autoria de outros atos de violência extrema, como a explosão de um carro-bomba no aeroporto de Madrid, em 2006. Em 2011, porém, anunciou um cessar-fogo permanente e, seis anos mais tarde, o total desarmamento.

Athletic e Real Sociedad cresceram, pois, muito mais vinculados à defesa de uma cultura comum, do que ao ódio puro e simples que costuma caracterizar rivalidades esportivas. O principal motivador, efetivamente, foi a disputa de protagonismo de suas cidades. Enquanto Bilbao é uma urbe industrial de forte economia, San Sebastián é lembrada pelas belezas naturais que a tornam um ponto turístico importante.

Real Sociedad vs Athletic Bilbao

Foto: Luis Jauregialtzo/Foku

Dado o contexto sociopolítico, a disputa sob esses fundamentos se tornou trivial — quase tola. Nos dérbis, são raras as ocorrências de violência.

O trato nas arquibancadas é narrado como quase amigável e se deve ao desejo de preservação da cultura que lhes é comum: há, acima de qualquer coisa, a defesa do orgulho basco. Os dois clubes, seja no plano institucional, seja entre as pessoas, têm, arraigadas em si, as mesmas tradições.

Real Sociedad vs Athletic Bilbao 2011

Foto: Jon Urbe/Foku

A Ikurriña entra em campo

O exemplo mais evidente foi vivido em 1976. Pouco após a morte do General Francisco Franco, Caudillo da Espanha durante a Ditadura, as equipes disputaram uma partida especialmente marcante. Entraram em acordo e subiram ao campo do estádio de Atocha, em San Sebastián, ostentando a Ikurriña, a bandeira basca. Foi um ato de desobediência civil, que evidenciou o senso de união existente entre os bascos.

No campo, a rivalidade ferve, mas o sentimento comum supera isso. Questionado em entrevista à Deia Noticias de Bizkaia sobre o significado do tetracampeonato espanhol dos rivais nos anos 1980, com duas conquistas para cada lado, o ex-goleiro José Ángel Iribar, glória bilbaína, indicou que aquilo apenas favoreceu o futebol da região:

“Foi uma alegria para o futebol basco, nos parabenizamos mutuamente, porque era importante que esses títulos se projetassem ante os clubes com mais poderio econômico”.

Ikurriña 1976

Foto: Aygues/Diario Vasco

Até 2013, o histórico de confrontos entre as equipes contabilizava 149 partidas. A vantagem era do Athletic, com 64 vitórias, contra 47 da Real Sociedad. Aconteceram também 38 empates.

O placar mais largo ocorreu em 1930, quando o Athletic conseguiu um triunfo por 7 a 1. Além de nunca ter sido rebaixado para a segunda divisão, ao contrário do rival, o clube também tem mais títulos. São oito conquistas do espanhol, contra duas do rival. Apesar disso, quando se encontraram na final da Copa do Rei de 2019-20, deu Real Sociedad, 1 a 0.

 

Quem pode jogar?

A rivalidade para saber quem produz mais talentos também pesa. Jogadores como Xabi Alonso, Joseba Exteberría, Aitor Karanka, Julio Salinas e José Mari Bakero foram alguns dos talentos revelados ou desenvolvidos pelos clubes. Já nos anos 2010, as equipes revelaram talentos como Iker Muniaín, Antoine Griezmann, Javi Martínez, Mikel Oyarzabal e Iñaki e Nico Williams.

Nos bastidores, há inclusive casos controversos entre as equipes no que diz respeito ao “roubo” de jovens prospectos. O caso mais relevante foi o de Exteberría, símbolo do Athletic que aos 16 anos saiu da Real Sociedad para o rival.

Real Sociedad vs Athletic Bilbao

Foto: Gari Garaialde/Foku

Outra diferença notável é que o Athletic só aceita atletas inseridos na cultura basca — nascidos no País Basco, educados pela cultura basca ou filhos de bascos. Até 1989, quando contratou o irlandês John Aldridge, a Real Sociedad manteve um padrão similar. Contudo, optou por se abrir em prol da manutenção da competitividade esportiva.

Athletic Club e Real Sociedad fazem um dos dérbis mais curiosos do planeta.

Ez da inoiz futbola bakarrik izaten.

* Texto editado e atualizado em 05 de outubro de 2026

Wladimir Dias

Idealizador d'O Futebólogo. Advogado, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Escrita Criativa. Mestre em Ciências da Comunicação. Colaborou com Doentes por Futebol, Chelsea Brasil, Bundesliga Brasil, ESPN FC, These Football Times, revistas Corner e Placar. Fundou a Revista Relvado.

5 Resultados

  1. Cleverson disse:

    usei trechos deste texto numa prova de geografia sobre a questao basca!!! valeu

  2. Emanuel disse:

    Excelente texto. Em particular, me intriga e fascina (não necessariamente de forma positiva) esse comportamento do Athletic de aceitar apenas jogadores bascos (ou "quase" bascos).

  3. Unknown disse:

    Wladimir, só uma correção: a diferença entre a Real Sociedad e Athletic, quanto à permissão de jogadores apenas bascos é que o Athletic de Bilbao, efetivamente, só permitia jogadores nascidos na região do País Basco (atualmente, eles abriram para jogadores com descendências bascas: neste caso, temos o Amorebieta – venezolano – e o zagueiro Ramalho – nascido no Cabo Verde mas de pais bascos). Por outro lado, a Real Sociedad tinha uma patricularidade que era que eles só permitiam jogadores espanhóis nascidos na região do País Basco, porém permitiam estrangeiros (atualmente, isso mudou e permitem jogadores espanhóis de outras regiões, um exemplo é o Esteban Grenero, nascido em Madrid).

  1. 30 de abril de 2025

    […] DOS DÉRBIS MAIS ACOSTUMADOS AO TRANSITAR de um rival ao outro é o basco. Não é difícil entender os […]

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