Juventude e intensidade: Marcelo Bielsa no Lille
MARCELO BIELSA não é o treinador de futebol mais vencedor de sempre, mas é referência. O estilo de jogo de pressão constante, assim como o idealismo inegociável, transformaram-no em guru para vários colegas, aspirantes e amantes do esporte. Em outra conhecida faceta, o rosarino nunca escondeu o apreço pelo trabalho com jogadores jovens. Assim, encontra terreno fértil na temporada 2017-18. Contratado pelo Lille, molda um elenco recheado de prospectos.

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Mavuba e o Lille em mutação
Do time que conquistou o Campeonato Francês na temporada 2010-11, com o florescimento de Eden Hazard, resta apenas a referência do capitão Rio Mavuba, de 33 anos. O volante, com passagens pela seleção francesa, lidera um grupo de garotos. Experientes, os defensores Marko Basa e Franck Béria, ambos com 34 anos, deixaram a equipe. Mavuba passa a ser o jogador de linha mais experiente da equipe. É o remanescente em um clube que passa por mudanças profundas, inclusive no corpo diretivo. E não tem a certeza de uma titularidade constante.
É pouco provável que Bielsa prescinda de seus serviços, mas é esperada uma utilização mais ponderada. A principal razão? A imperatividade da escalação dos jogadores que apresentem as melhores condições físicas, que estejam “na ponta dos cascos”. Esse é um dos motivos pelos quais sempre gostou de comandar com jovens: pela energia e a disposição para aprender. Bielsa tem uma mentalidade agressiva e repetitiva. Não raras vezes, lida como cansativa. Pressão constante desgasta.
Como aponta Jonathan Wilson em A Pirâmide Invertida, o treinador busca o novo, o inesperado. E isso é mais fácil quando se tem atletas menos experientes e com menos movimentos internalizados devido à experiência adquirida.

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“Sua filosofia, segundo ele, poderia ser destrinchada em quatro termos: “concentración permanecente, movilidad, rotación y repenitización”. Os primeiros três são relativamente fáceis de traduzir: foco permanente, mobilidade e rotação. Mas o quarto é uma expressão clássica de Bielsa […] Tem um aspecto de urgência. É a chave da filosofia de Bielsa: exigir, repetidamente, que os jogadores façam coisas pela primeira vez”¹
Um bom exemplo é o de Arturo Vidal, na seleção chilena. Comandando La Roja entre 2007-11, ou seja, entre os 20 e os 24 anos do meio-campista, utilizou-o como lateral, tanto pelo lado direito quanto pelo esquerdo, na zaga e na sua posição natural. Foi assim que uma nova geração inspirou o país, que, com a continuidade promovida por Jorge Sampaoli, entrou definitivamente no mapa da bola.
Novidades chegando
No contexto do Lille, as novidades iniciais são as chegadas do meio-campo português Xeka, de 22 anos, que já havia sido emprestado pelo Braga no meio da temporada 2016-17 e firmou vínculo permanente, do atacante brasileiro Luiz Araújo (21), ex-São Paulo, e do marfinense Nicolas Pepe (22), ex-Angers.
O primeiro tende a espelhar o papel exercido por Ander Herrera no Athletic Bilbao dos tempos de Bielsa. Combativo e bom passador, o garoto não retém a bola; tão logo a recupera dá-lhe destinação — o que é fundamental para a construção de ataques rápidos e letais. Na temporada vencida, registrou média de 2,1 desarmes, 1,7 interceptações, e acerto médio de 82,4% dos passes a cada partida.
Xeka precisa se tornar mais influente durante as partidas, porém, revela o potencial para se tornar uma engrenagem do time, tanto na pressão pela recuperação da bola quanto no início da construção das jogadas.
Seus companheiros são ponteiros rápidos, canhotos e que gostam de trabalhar a bola partindo do flanco direito para o centro. À primeira vista, parecem jogadores semelhantes. É provável que um deles seja adaptado para outra função, seja atuando mais perto do gol adversário ou pela ponta esquerda. Também se imagina que Bielsa trabalhará as capacidades defensivas e noções de jogo coletivo dos garotos.
Eles se juntam a outro atacante contratado há pouco tempo e em quem se deposita muita esperança: Anwar El Ghazi, proveniente do Ajax. Aos 22 anos, o garoto, que já representou a seleção holandesa, chegou na janela do último inverno europeu e ainda não mostrou suas qualidades. Há expectativa de que se desenvolva com o novos companheiros e sob as ordens de Bielsa. Também rápido, mas, mais forte e melhor finalizador do que seus companheiros recém-chegados, oferece muitas alternativas técnico táticas.
Atacar tanto quanto possível
“Tentaremos atacar tanto quanto seja possível, defender bem mais no campo do adversário, jogar com a bola no chão. […] O futebol é um pouco sobre trabalho e muito sobre paixão. O que encontrei aqui se encaixa em minha visão”, disse o comandante em entrevista de apresentação ao clube.
O Lille também entregou ao argentino jogadores com passagens por equipes de base da França. São os casos dos atacantes Yassine Benzia, formado no Lyon e que representa a Argélia; Martin Terrier, cria da casa; e Farès Bahlouli, também trabalhado pelas camadas jovens do Lyon, mas já com passagem pelo Monaco. Todos apresentam elevado potencial técnico e margem para evolução, mas, em um primeiro momento, partem atrás na corrida por lugares no time; mostram-se imaturos.
Artilheiro do time em 2016-17, o belga Nicolas de Préville deve ser a referência de ataque — mesmo porque terminou a última temporada marcando três gols no Nantes. Pode aparecer ainda como meia ofensivo, por trás do herói do título português na Euro 2016, o centroavante Éder. Quanto a este, é difícil fazer qualquer prognóstico. Sem grandes diferenciais técnicos, sua utilização tende a refletir seu contributo coletivo e desempenho individual, com gols.

Foto: A. Martin/L’Equipe
Mais atrás, também há atletas de referência. Um deles é o lateral direito Sébastien Corchia, que recentemente recebeu suas primeiras convocações para representar os Bleus. Consistente, fecha bem seu setor, mas desempenhando tarefas iminentemente defensivas. O outro é o volante Ibrahim Amadou. Ao lado de Corchia, liderou as estatísticas de desarmes da equipe na última temporada — Corchia apresentou média de 2,7 e Amadou de 2,5 por jogo.
Também é preciso defender
As questões mais problemáticas ficam na retaguarda.
O lateral esquerdo Julian Palmieri se consolidou como um jogador mediano; regular, mas que raramente é a diferença entre o sucesso e o fracasso. O miolo de zaga é que concentra as maiores preocupações. A principal alternativa é o jovem paraguaio Júnior Alonso, que se saiu bem na temporada de estreia. Contudo, trata-se de um jogador de 24 anos, com apenas seis meses de experiência europeia.
Especulado, o garoto Jean-Kévin Duverne também não inspira confiança. Aos 19, o zagueiro do Lens está próximo de ser contratado, mas embora tenha potencial e certa experiência, tendo sido titular durante a última temporada, é também um garoto. Quem também tem sido fortemente apontado como possível contratado no clube francês é o volante Thiago Mendes, do São Paulo.
Os caminhos vêm de cima
Tudo isso faz parte do projeto ambicioso do novo proprietário do clube, Gerard López, que fez fortuna investindo no aplicativo Skype e investidor da Lotus, na F1.

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Antes de confirmar a chegada de Bielsa, buscou o antigo diretor de futebol do Monaco, Luis Campos, responsável pela montagem do time semifinalista na última edição da Liga dos Campeões. Outro novo membro da direção é Marc Ingla, ex-vice-presidente do Barcelona, entre 2003-08 e que chegou a disputar a presidência contra Sandro Rossell, em 2010. Há ambição e know-how no clube francês.
“Queremos promover um modo de jogar futebol espetacular e vencedor[…] Apostando em talentos jovens”, disse Ingla ao Independent.
Seguindo o que se viu no passado, o processo de adaptação e apreensão das ideias do treinador argentino não deve ser rápido e, por isso, há pouco espaço para imediatismo. Como o diálogo entre clube e comandante se mostra alinhado, é esperado tempo para o desenvolvimento do trabalho proposto. Há dinheiro e visão. O Lille tem mão de obra jovem e talentosa à espera de um mentor; um dos melhores cenários possíveis para o retorno de Bielsa ao futebol, após dois anos de afastamento.
¹ WILSON, Jonathan (2016). A Pirâmide Invertida. Campinas: Editora Grande Área, p. 355.
