A importância do Anderlecht na carreira de Lucas Biglia
COM A DISPUTA de uma Copa do Mundo no currículo, passagem de destaque pela Lazio e contratação pelo Milan, o argentino Lucas Biglia se tornou um nome conhecido internacionalmente. No entanto, os 31 anos do jogador às vezes surpreendem, afinal não foram muitos nos principais centros do futebol europeu. Passam muitas vezes despercebidos os onze anos, sete em Bruxelas, vividos no Velho Continente.

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Tudo começa em La Paternal
O início da trajetória de Lucas Biglia foi comum. Como é corriqueiro na América do Sul, foi lançado ao futebol profissional com pouca idade. O volante despontou no Argentinos Juniors em 2004, aos 18 anos. Eram tempos difíceis e o Bicho lutava para retornar à primeira divisão argentina. Conseguiu seu objetivo e negociou o talentoso meio-campista com o Independiente.
No Rey de Copas, ficou apenas um ano e meio, mas, no curso desse período, disputou e conquistou o Mundial Sub-20, em 2005. El Principito estava cercado de boas companhias. Na defesa, Pablo Zabaleta; no meio, Fernando Gago; no ataque Lionel Messi e Sergio Agüero, seu parceiro em Avellaneda. Durante a competição, Biglia foi titular em duas partidas e ficou de fora de apenas uma. Na finalíssima, contra a Nigéria, ingressou na segunda etapa, rendendo Gago.
Era evidente que Biglia possuía a qualidade técnica necessária para fazer uma carreira de alto nível. Ainda assim, seu primeiro destino na Europa foi o Anderlecht, de longe o clube mais bem-sucedido do futebol belga. Quando do acerto, o garoto revelou que seu objetivo era “dar um passo adiante na carreira” e que “o Anderlecht me permitirá jogar a Liga dos Campeões”, conforme reportou o periódico La Libre. O que o argentino talvez não previsse era o duradouro impacto que teria na capital belga.
Adaptação rápida
Quando chegou a Bruxelas, Biglia teve a sorte de encontrar jogadores argentinos. Em particular, um antigo companheiro: Nicolás Frutos, ex-Independiente. Passado o primeiro jogo, em que ingressou no decorrer da partida, foi titular durante toda a primeira temporada e essa foi a realidade dos sete anos que se seguiram. Nesse ínterim, foram quatro títulos do Campeonato Belga, um da Copa da Bélgica e três da Supercopa.
Na Bélgica, o volante construiu uma reputação como controlador de meio-campo, alguém capaz de determinar como o jogo é desenvolvido. Sua influência na saída de bola, construção das jogadas e no ritmo das partidas cresceu ano após ano. Não demorou a se tornar o jogador mais importante do time; muitas vezes, seu capitão — notadamente, nas ausências de Olivier Deschacht, o que inclui a temporada 2012-13 inteira.

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O destaque na capital belga foi tanto que, mesmo longe dos holofotes, em 2011 foi lembrado como alternativa para a seleção argentina. Convocado por Sergio Batista, disputou amistosos e ganhou vaga na Copa América 2011. No entanto, o comandante foi substituído por Alejandro Sabella, que só voltou a chamá-lo em 2012 e apenas uma vez.
Ele voltou a ser opção frequente após a transferência para a Lazio e, desde então, tornou-se figurinha carimbada entre os 23 selecionáveis da Albiceleste.
Biglia fez história
Além do sucesso doméstico, Lucas Biglia participou de momentos internacionais importantes da história recente dos Mauves et Blancs. Em 2008, após sofrer pesada derrota para o Bayern de Munique nas oitavas de finais da extinta Copa da Uefa, 5 a 0, o Anderlecht foi à Baviera e deixou a Allianz Arena com uma vitória por 2 a 1. Não anulou o peso da derrota anterior, mas foi uma despedida com honra.
Semelhantemente, na mesma fase, mas já em tempos de Liga Europa (2010), os belgas perderam o jogo de ida para o Hamburgo, que alinhava Zé Roberto e Ruud van Nistelrooy, 3 a 1, mas lutaram bravamente na volta, alcançando vitória por 4 a 3. Biglia marcou naquela noite, assim como um jovem Romelu Lukaku.
No Anderlecht, o argentino encontrou uma característica que define a identidade de seu próprio país: a luta até o fim. Ao mesmo tempo, teve contato com o estilo europeu de jogo. Viveu um estágio riquíssimo e se preparou adequadamente para o inevitável salto a uma liga de maior expressão.
Eventualmente, Biglia entendeu que não havia mais objetivos a alcançar na Bélgica. Embora tenha manifestado a intenção de sair em momentos anteriores ao da efetiva saída, terminou sua trajetória com honras e a conquista de seu último título belga. Na ocasião, um empate contra o Zulte-Waregem, marcou o gol do título e se disse feliz por “oferecer esse belo presente de despedida aos torcedores”, conforme relatou o Fox Sports.
Ao todo, foram 303 partidas pelo Anderlecht, com 16 tentos marcados e 51 assistências.
Novas páginas na Itália
“Chegou o momento de dar outro passo. Tenho conversado com o Anderlecht […] Tenho sete anos nessa entidade. É o momento justo de mudar de ares. O Anderlecht também entende assim”, relatou Biglia à ESPN Deportes.
Soa estranho que um jogador do nível de Lucas Biglia tenha representado o Anderlecht por tantos anos, afastado dos grandes palcos. No entanto, a experiência foi proveitosa. Em Bruxelas, transformou-se no jogador capaz de equilibrar meio-campos, o típico “queridinho” de treinadores. Sem surpresa, logo se tornou capitão da Lazio e assegurou lugar cativo na seleção argentina.
Após quatro anos de titularidade absoluta e bom desempenho com a camisa biancoceleste, o mercedino acertou sua transferência para o Milan, em um momento em que os Rossoneri trabalham para recuperar relevância. Apostas de futuro foram contratadas; nesse sentido, o argentino chega, ao lado de Leonardo Bonucci, como referência da equipe.

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Qual o potencial impacto no Milan?
“Patrão” no meio-campo laziale, desembarca em Milão para repetir o que sempre fez: dar equilíbrio ao time.
No ritmo imposto por Franck Kessie e no controle de meio-campo do técnico Hakan Çalhanoğlu, há talento. Porém, quem chega para estabilizar o setor, vivendo o auge da carreira, é Biglia. Isso tende a ter dois significados preponderantes: 1) o jogador ajudará a equipe a se encaixar; e 2) entregará melhores condições para o desenvolvimento das habilidades de seus companheiros mais jovens.
A opção por Lucas Biglia é uma tacada certeira da direção milanista. Como foi também do Anderlecht, no distante ano de 2006. Vestido de roxo e branco, o argentino se tornou o jogador influente e importante internacionalmente reconhecido e valorizado, mundo afora.

