A continuidade do trabalho de Nagelsmann à frente do Hoffenheim

EMBORA TENHA MAIS DE 100 ANOS, o Hoffenheim só ganhou notoriedade nos anos 2000. Para a difícil missão de se inserir na elite do futebol alemão, a Bundesliga, Die Kraichgauer buscaram a expertise do treinador Ralf Rangnick, que hoje comanda o departamento de futebol do RB Leipzig. Era 2006. Nos dois primeiros anos de trabalho, houve acessos consecutivos; logo na chegada ao primeiro escalão, obteve um honroso sétimo lugar. Eram tempos em que contava com o talento dos brasileiros Luiz Gustavo e Carlos Eduardo. Julian Nagelsmann Hoffenheim

Rangnick permaneceu na equipe até 2011. Após sua saída, o time viveu instabilidade. O Hoffenheim quase foi rebaixado em 2012-13 e 2015-16, apesar de um ano positivo em 2013-14, com destaque individual para Roberto Firmino. Para voltar ao rumo certo, o jovem Julian Nagelsmann, que liderava o escalão sub-19, campeão nacional da categoria em 2013-14, foi efetivado. Deu certo, o técnico evitou o rebaixamento e, já em 2016-17, conduziu o time à quarta posição. Com a negociação de peças fundamentais, precisará reestruturar o time.

Antes do final do Campeonato Alemão 2016-17, já estavam fechadas as vendas de Niklas Süle e Sebastian Rudy, ambos partindo para o Bayern de Munique. Regularmente convocados por Joachim Löw à seleção alemã, eram fundamentais ao time. Confortável com a bola nos pés e duro na recuperação, o primeiro era o zagueiro mais confiável da equipe e peça importante na construção inicial do jogo. Por outro lado, o segundo era o capitão e, a despeito de sua versatilidade, era a referência do meio-campo, ditando o ritmo do time e coordenando suas ações.

Süle e Rudy são peças de difícil reposição; foram os jogadores de linha que mais minutos disputaram em 2016-17, pelos Kraichgauer. Apesar disso, outras referências permanecem na equipe. No gol, o arqueiro Oliver Baumann; na retaguarda, o melhor parceiro de Süle, Benjamin Hübner; e, na criação e ataque, foram mantidos o criativo Kerem Demirbay, além dos goleadores Andrej Kramaric e Sandro Wagner.

Novidades para Nagelsmann

A tendência é a manutenção do esquema tático com três zagueiros, com alternância entre 3-1-4-2 e o tradicional 3-5-2. A adaptação às ideias de jogo de Nagelsmann, de 30 anos, foi total: na última temporada, o Hoffenheim foi o último time, entre todos os das principais ligas europeias, a perder uma partida e não foi superado em nenhuma ocasião em sua casa.

As contratações parecem ter sido pensadas com critério. Do West Ham, chegou Havard Nordtveit. Embora não tenha se sobressaído em Londres, em ano de profunda instabilidade dos Hammers, trata-se de um jogador capaz de produzir impacto positivo na equipe, aferido nos tempos de Borussia Mönchengladbach. O norueguês pode ocupar a vaga de ambos os negociados. No tempo em que defendeu os Potros, foi zagueiro e volante; atuou muitas vezes em formação com três beques. Em relação à Rudy, é mais defensivo, razão pela qual, inicialmente, enxerga-se o jogador preenchendo vaga na defesa.

Nordtvelt Gladbach

Foto: Getty Images

“Ele tem características para jogar como zagueiro em defesas com três ou quatro homens, mas também pode jogar, em alto nível, como volante. Encontramos alguém que nos dá muitas opções”, disse Nagelsmann ao site oficial da Bundesliga.

Outras incorporações para a zaga foram Justin Hoogma, ex-Heracles, e Kevin Akpoguma, que retorna de empréstimo. Ambos são jovens e têm pouca experiência. Ainda que não apareçam como resposta imediata, mostram potencial para evoluir e acumulam passagens pelas equipes de base de Holanda e Alemanha, respectivamente.

Do Werder Bremen, chega o meio-campista com as melhores credenciais para suprir a ausência de Rudy. O jovem austríaco Florian Grillitsch mostrou boa contribuição defensiva em 2016-17, com médias de 2 desarmes e 2,2 interceptações por jogo, e obteve percentual de aproveitamento de passes semelhante ao de seu predecessor: 80,6% para Rudy; 79,7% para o Grillitsch. Além disso, embora tenha apenas 21 anos, vem de duas completas como titular dos Werderaner e tem ganhado terreno na seleção de seu país.

Contratando como pode

O clube não se limitou a repor suas baixas.

Por empréstimo, incorporou um jovem cujo talento pode ser determinante para uma boa temporada do time: Serge Gnabry. Aos 22 anos, o alemão vem de um excelente ano vestindo a camisa do Bremen: em 2016-17, marcou 11 gols em 27 jogos, normalmente pela ponta esquerda, mas podendo atuar por dentro. Não foi à toa que o Bayern de Munique contratou-o, antes de repassá-lo.

Sua chegada dá profundidade ao jovem — média de 24,6 anos — e curto elenco da equipe. No último ano, foram utilizados apenas 23 atletas.

Serge Gnabry Mannschaft 2016

Foto: Reprodução

Além de Gnabry, chegaram o jovem lateral esquerdo Nico Schulz, ex-Gladbach e que tem extensa passagem pelas seleções de base da Alemanha, e o meia-atacante austríaco Robert Zulj, proveniente do Greuther Fürth. Com essas mudanças, o site oficial da Bundesliga projeta a provável escalação do time: Baumann; Nordtveit, Vogt, Hübner; Grillitsch; Kaderabek, Demirbay, Gnabry, Zuber; Kramaric e Wagner.

Fundamental, contudo, é a continuidade do trabalho desenvolvido desde 2016. O Hoffenheim segue apostando em jogadores que se encaixam em seu planejamento de médio e longo prazo, assim como no seu orçamento. Assim, os conceitos propostos por Nagelsmann têm sido absorvidos com maior naturalidade e os resultados no campo tendem a melhorar.

Da tentativa frustrada de ser jogador de futebol à eleição de melhor treinador da Bundesliga na temporada 2016-17, o técnico consolida uma ideia de jogo muito própria.

Baby Mourinho?

Embora aposte em formações com três zagueiros, Nagelsmann gosta de ter a bola e, à moda alemã, atacar com rapidez e eficiência. Montou uma defesa sólida e capaz de, rapidamente, iniciar jogadas a partir da recuperação de bola e um meio-campo que a passa a bola com critério e tem profundidade pelos lados. No ataque, aposta em atacantes com faro de gol apurado. Suas ideias, todavia, seriam inviáveis sem coesão coletiva.

“Eu o considero muito, porque ele transformou o Hoffenheim completamente. Ele é muito capaz, tem empatia e uma boa conexão com os jogadores”, disse Joachim Löw, treinador da Mannschaft, ao site oficial da Bundesliga.

Com linhas de marcação próximas e trabalho constante na pressão ao portador da bola, o time busca a recuperação rápida da pelota e a chegada, ainda mais veloz, ao ataque. Tudo em bloco. Outra situação corriqueira é a ligação direta desde a sua retaguarda — com a bola partindo dos zagueiros, aptos aos passes longos, e chegando ao atacante Sandro Wagner, que, com 1,94m, destaca-se nas tarefas de pivô.

Sandro Wagner Hoffenheim

Foto: Reprodução

Não foi o acaso que rendeu a Nagelsmann o apelido de Baby Mourinho. “Ele mereceu o apelido”, disse Kramaric à Omnisport. “É um dos melhores treinadores que já me treinaram […] Ele é muito jovem para já ser um dos melhores treinadores da liga. Por que não ser um dos melhores treinadores do mundo? […] Desde o primeiro momento em que chegou ao clube, ele colocou diante de nós como queria que jogássemos”.

O Hoffenheim é um dos times para se acompanhar em 2017-18. O planejamento foi bem feito e o caminho traçado indica a possibilidade de evolução do modelo de jogo aplicado. No entanto, será necessário o encaixe e adaptação dos jogadores recém-chegados.

Wladimir Dias

Idealizador d'O Futebólogo. Advogado, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Escrita Criativa. Mestre em Ciências da Comunicação. Colaborou com Doentes por Futebol, Chelsea Brasil, Bundesliga Brasil, ESPN FC, These Football Times, revistas Corner e Placar. Fundou a Revista Relvado.

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