Mehmet Aurélio, um brasileiro em vermelho e branco

LUXEMBURGO, 16 de agosto de 2006. A seleção local enfrentou a Turquia em um amistoso e o placar final foi tão pequeno quanto o estádio Josy Barthel, que não comporta sequer 8 mil pessoas: 1 a 0 para as Estrelas Crescentes. A partida poderia ser irrelevante se não fosse um ato histórico. De forma inédita, em mais de 80 anos da criação da Federação de Futebol da Turquia, um estrangeiro naturalizado defendeu as cores do país. Marco encarnou Mehmet.

Mehmet Aurelio Turkey

Foto: Reprodução

Do Rio de Janeiro a Trabzon

Quase 30 anos antes da partida, no Rio de Janeiro, nasceu Marco Aurélio Brito dos Prazeres. O dia 15 de dezembro de 1977 data o início do processo de encurtamento dos cerca de 10.000 km entre a antiga capital brasileira e o país bicontinental.

Diante do pouco sucesso nos primeiros anos no futebol carioca, com passagens por Bangu, Flamengo e Olaria, Marco Aurélio não hesitou quando a chance de partir para Trabzon, em 2001, apareceu. O meio-campista partiu com três companheiros do Azulão da Bariri, mas somente ele vingou.

A cidade portuária, banhada pelo Mar Negro, é também conhecida por sediar o Trabzonspor. Embora viva à margem dos sucessos de Beşiktaş, Fenerbahçe e Galatasaray, trata-se de um clube tradicional e, em certa medida, vitorioso. É a quarta força do país, com seis títulos turcos e oito da Copa da Turquia.

Após um ano de estreia ruim, que culminou com a 14ª colocação no Campeonato Turco, a temporada 2002-03 foi um sucesso para Marco Aurélio, que conquistou o título da copa e ajudou o time a terminar o nacional na sétima colocação. Porém, o contrato do jogador estava próximo do fim e, embora chamado para renovar, optou pela saída.

O presidente do clube narrou ter sido uma despedida por dinheiro, um pecado imperdoável, um defeito de caráter, como relatado pelo Hurriyet, em 2003. Injuriado, prometeu nunca mais contratar brasileiros e viu seu volante rumar para Istambul.

Sucesso na parte asiática de Istambul

A mudança de clube inaugurou o princípio do fim da vida de Marco Aurélio. Vestindo as famosas cores amarela e azul marinho do Fenerbahçe, e acompanhado de Fábio Luciano e Márcio Nobre, conquistou seu primeiro título turco, como protagonista; riu por último na queda de braço com o mandatário do Trabzonspor, vendo o ex-clube ser vice.

No ano seguinte, o meio-campista seguiu em alta, impulsionado pela chegada de Alex, artífice da Tríplice Coroa do Cruzeiro e que se tornaria  uma lenda do clube. Em 2004-05, venceu seu segundo campeonato turco.

Mehmet Aurelio Cristiano Ronaldo

Foto: Reprodução

Seu estilo resiliente, com destacada aptidão para o desarme e o jogo coletivo, além de muita resistência física e compreensão tática, rendeu-lhe uma reputação na Turquia. A despeito disso, não foram apenas suas qualidades que o levaram a, eventualmente, buscar a cidadania turca. Havia também a necessidade de abertura de uma vaga de estrangeiro no elenco do Fener, devido aos limites impostos pela federação local e o desejo do clube de fazer novas contratações. O alvo era o centroavante francês Nicolas Anelka.

Após cinco anos no país, Marco Aurélio estava apto a iniciar o processo de naturalização.

“Eu não sabia que estava sendo observado pela seleção da Turquia. Mas o treinador me chamou para uma reunião perguntando o que eu achava, se eu jogaria pela seleção da Turquia. Eu fiquei muito feliz e aceitei na hora”, relatou o atleta em entrevista ao UOL, em 2015.

Ingresso na história

Pouco após a obtenção do passaporte turco, o jogador viveu aquela noite de verão em Luxemburgo — ainda que não haja Marco algum na ficha técnica da partida. O nome até então incógnito é o de Mehmet Aurélio.

No estádio da estreia, lia-se exposto em faixas: “Os Mehmets nascem, não se fazem”. Menos de dois anos depois, o cenário era outro e o volante era ovacionado pela campanha de terceiro lugar da Euro 2008. O volante superou o preconceito e as desconfianças da maioria e defendeu o país adotivo outras 37 vezes.

Durante o Campeonato Europeu, após a derrota na estréia para Portugal, a Turquia venceu Suíça e República Tcheca, avançando aos mata-matas. Nos pênaltis, despachou a Croácia, na única partida que não contou com a presença do turco-brasileiro, suspenso. Todavia, nas semifinais, a Alemanha de Miroslav Klose, Bastian Schweinsteiger e Philipp Lahm enterrou os sonhos das Estrelas Crescentes, em uma partida dura e carregada de simbologia, com o placar final em 3 a 2.

Mehmet Aurelio Turkey 2008 Germany

Foto: Reprodução

A trajetória de Mehmet Aurélio só não foi mais gloriosa porque o selecionado não se classificou para a Copa do Mundo de 2010. Sua última partida internacional foi justamente contra a algoz de 2008, a Alemanha, já em 2011.

Pelo Fenerbahçe, o volante voltou a vencer o Campeonato Turco e a Supercopa da Turquia, na temporada 2006-07. Marcou presença, ainda, na melhor campanha do clube na Liga dos Campeões. Em 2007-08, comandado por Zico e cheio de lusófonos ao lado, casos de Edu Dracena, Roberto Carlos, Wederson, e Deivid, além de Claudio Maldonado e Diego Lugano, estrangeiros de longa estadia no Brasil, chegou às quartas, sendo enfim eliminado pelo Chelsea, futuro finalista vencido.

Contudo, após a Euro, Mehmet decidiu realizar outro sonho.

Frustração acirra rivalidade

Após anos em Istambul, Mehmet Aurélio rumou para a solar capital andaluza, Sevilha. Com a camisa do Real Betis, disputaria La Liga, a famosa Liga das Estrelas.

Novamente acompanhado por outros brasileiros, o zagueiro Lima e os atacantes Edu e Ricardo Oliveira, decepcionou-se. Suas qualidades não bastaram para evitar o descenso alviverde à segunda divisão. A circunstância teve contornos de drama: o Betis somou os mesmos 42 pontos que o Getafe, 17º colocado e que conseguiu a permanência, e apenas dois a menos do que 13º colocado, Athletic Bilbao.

O turco-brasileiro não pulou do barco no meio da tempestade. Ficou e viveu nova frustração, ainda mais dolorosa. Os Béticos terminaram La Liga 2 na quarta posição, com os mesmos 71 pontos de Hércules e Levante, que ascenderam, e a três da campeã Real Sociedad.

A passagem pela Espanha foi toda pesadelo. Um lance em particular resume o período: na 37ª rodada, em partida contra o Gimnàstic de Tarragona, o volante escorregou em uma cobrança de pênalti, isolando a bola.

 

Diante do novo insucesso, retornou à Turquia em 2010-11, no que foi outra transferência polêmica. Mehmet Aurélio assinou com o Beşiktaş.

Apesar de ter entrado em descendente física e técnica, com 33 para 34 anos, voltou a conquistar a Copa da Turquia. O problema foi que, no ano seguinte, sofreu grave lesão no joelho e pouco atuou no que foi sua derradeira temporada na Turquia.

Os Mehmets se fazem

Mehmet Aurelio Simão Besiktas

Foto: Besiktas

Mehmet ainda teve tempo de retornar ao Brasil em 2013, para encerrar a carreira onde tudo começou: no Olaria, recusando-se a receber salários.

Disputou a Taça Rio, breves sete partidas, assegurando a quarta colocação do Grupo A. No entanto, na classificação geral do Campeonato Carioca, o Azulão acabou rebaixado e o veterano fechou com simplicidade e orgulho a sua carreira do jogador.

Ele continuou ligado ao futebol, no banco de reservas. Em 2015, voltou à Turquia como auxiliar técnico, primeiro no Kasımpaşa, pouco depois, em Göztepe e Sakaryaspor. Tudo isso, afinal, para ratificar que sua ligação com a Turquia transcende o campo e chega ao campo da identidade.

Wladimir Dias

Idealizador d'O Futebólogo. Advogado, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Escrita Criativa. Mestre em Ciências da Comunicação. Colaborou com Doentes por Futebol, Chelsea Brasil, Bundesliga Brasil, ESPN FC, These Football Times, revistas Corner e Placar. Fundou a Revista Relvado.

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