Rússia 2008

DEPOIS DE PARTICIPAR da Copa do Mundo de 2002, no ocaso da geração de Aleksandr Mostovoi, Viktor Onopko e Valeriy Karpin, a Rússia não se classificou para o certame de 2006, na Alemanha. Os russos coadjuvaram Portugal, líder do Grupo 3 das Eliminatórias Europeias, e Eslováquia, segunda colocada que foi à repescagem. Depois do insucesso, buscando reverter o cenário de desolação e se classificar ao Mundial de 2010, buscaram um treinador tarimbado e que vinha de trabalhos positivos com Coreia do Sul e Austrália: Guus Hiddink.

Rússia 2008

Em pé: Akinfeev, Pavlyuchenko, Zhirkov, Kolodin, Bilyaletdinov, Ignashevich; Agachados: Semak, Semshov, Anyukov, Zyryanov, Arshavin.

Seleção: Rússia

Período: 2008

Time base: Akinfeev; Anyukov, Ignashevich, V. Berezutskiy (Kolodin), Zhirkov; Semak; Zyryanov, Semshov (Bilyaletdinov), Saenko (Torbinski); Arshavin e Pavlyuchenko. Téc.: Guus Hiddink

Conquista: Terceiro lugar na Euro 2008

A missão maior do holandês era levar o selecionado à África do Sul. Pelo caminho, porém, havia as disputas das Eliminatórias da Euro 2008 e da própria Euro. Mesmo sem ser prioridade, o êxito era esperado e foi alcançado, ainda que o objetivo final tenha ficado pelo caminho.

Sob vitoriosa direção

Em 2002, já um treinador respeitado e veterano, Guus Hiddink levou a Coreia do Sul à quarta colocação do Mundial daquele ano — ainda que a campanha tenha sido cercada de polêmica. Quatro anos mais tarde, conduziu a Austrália às oitavas de finais da disputa sediada na Alemanha, quando os oceânicos resistiram até os minutos finais. Contra a Itália, futura campeã, os Socceroos se seguraram até o fim dos acréscimos, quando Francesco Totti deu números definitivos à partida e classificou a Azzurra.

Antes disso, Hiddink também treinou a virtuosa Holanda de 1998. Com a base de jogadores que levou o Ajax ao seu último título europeu, em 1995, perdeu para o Brasil e ficou com a quarta colocação da Copa do Mundo da França. Isso posto, quando os russos fecharam a contratação do técnico, esperavam que devolvesse ordem a uma casa em frangalhos, promovendo uma necessária transição geracional e levando os herdeiros da União Soviética às glórias.

Guus Hiddink Russia

Foto: Reprodução

Com o tempo e o vindouro sucesso na Euro, o holandês seria aclamado. Ao site da UEFA, Sergei Semak, capitão da equipe e um dos poucos que superara os 30 anos, diria que o comandante era “sensato”. Já Diniyar Bilyaletdinov garantiria que: “As questões de organização deixaram de ser um problema desde que Hiddink assumiu o comando da seleção”.

Atrás da Croácia, à frente da Inglaterra

O sorteio dos grupos das qualificatórias continentais evidenciou que a vida russa não seria fácil. A despeito das inofensivas presenças de Israel, Macedônia, Estônia e Andorra, Croácia ou Inglaterra, egressas do último Mundial, teriam que cair para a Rússia ascender. Foi o que ocorreu.

Ao final da disputa, a tabela registrou um passeio da Croácia. A axadrezada somou 29 pontos, com um recorde de nove vitórias, dois empates e apenas uma derrota. A briga sobrou para os protagonistas de vários dos principais eventos do século XX. E a Inglaterra, apesar da qualidade de Wayne Rooney, Frank Lampard, Steve Gerrard, não seria páreo.

 

Com uma vitória para cada lado nos confrontos diretos, fizeram a diferença os resultados obtidos contra os croatas. A Rússia empatou ambos, enquanto os Three Lions perderam-nos. Ainda que o selecionado do Leste Europeu tenha sido inesperadamente derrotado por Israel, foram os pontos obtidos contra a líder que decidiram as trajetórias de russos e ingleses.

Nem Ibra, nem a última campeã: o mata-mata é da Rússia

Outro sorteio voltou a colocar a Rússia em maus lençóis, ao menos à primeira vista.

Ainda que a Espanha não viesse de período vitorioso, era um adversário duro e vencera o Grupo F das Eliminatórias. Por sua vez, a Suécia apostava suas fichas no talento de Zlatan Ibrahimovic, e a Grécia era a última campeã, tendo batido Portugal, em solo lusitano, na edição de 2004.

Os russos não brincaram em serviço. Depois de caírem duramente aos pés hispânicos na partida de estreia, derrota por 4 a 1 num recital de David Villa, recompuseram-se. Vale um adendo: na goleada, não foi possível contar com Andrey Arshavin, que cumpria uma suspensão atrasada.

Diante da conhecida retranca grega, arquitetada por Otto Rehhagel, coube a Konstantin Zyryanov aproveitar assistência do veterano Semak e rolar a bola para as redes desprotegidas, já que o experiente goleiro Antonis Nikopolidis saíra da meta para evitar conclusão do assistente russo. Era a primeira vitória.

 

Por último, perante a Suécia, valeu o coletivo. O primeiro tento da vitória por 2 a 0 saiu dos pés de Roman Pavlyuchenko, em trama bem construída, com trocas de passes e movimentação envolvente; o segundo, em jogada de velocidade de Yuri Zhirkov concluída por Arshavin.

Com coesão e presença de espírito, a Rússia mandou Ibra de volta para casa e também os gregos. Começava a ficar óbvio que se estava diante de uma geração especial e que, sob o comando de Hiddink, encontrara uma maneira de jogar. A base formada por jogadores de CSKA e Zenit entregava futebol de ótima qualidade.

Nada de Carrossel Holandês… Roleta Russa!

Líder do grupo da morte, a Holanda superou Itália, França e Romênia e avançou às quartas de finais. O novo desafio russo era enorme; a Oranje destroçara as finalistas da última Copa do Mundo — 3 a 0 contra a Itália; 4 a 1 perante a França. Além disso, sem se desgastar, deixara os romenos pelo caminho, 2 a 0.

A geração de Arjen Robben, Wesley Sneijder e Robin van Persie, que viveria o auge no Mundial de 2010, aproximava-se dos seus melhores anos ao lado de peças experientes que estabilizavam a equipe, como Giovanni van Bronckhorst, Edwin van der Sar e Ruud van Nistelrooy.

Como esperado, o jogo foi duro, mas a Rússia se agigantou. Com tentativas de ligação direta e apostas nos dribles do endiabrado Arshavin, a nação do Leste levava perigo à meta rival. No início do segundo tempo, Semak foi à linha de fundo e cruzou para Pavlyuchenko cumprimentar as redes e inaugurar o placar. No entanto, já no apagar das luzes, Sneijder colocou a bola na cabeça de Van Nistelrooy. A partida foi para a prorrogação.

Na segunda etapa do tempo extra, Arshavin foi ao limite do campo e cruzou para Dmitri Torbinski desempatar a partida. Ainda houve tempo para ele próprio, Arshavin, aproveitar falha da cansada defesa holandesa e dar números finais à partida, 3 a 1. Como franco atiradora, a Rússia foi superior e, jogando bonito, avançou às semifinais.

 

Derrota para a futura campeã e esquecimento

A despeito dos esforços russos, a competição estava destinada a reintroduzir no panteão das grandes nações futebolísticas uma campeã e não era a vez da Rússia.

No reencontro com a Espanha, foi impossível pará-la. Ainda assim, os ibéricos precisaram suar, depois de um 0 a 0 na etapa inicial. Xavi abriu o placar quando eram decorridos cinco minutos do segundo tempo. Aos 73′, Dani Güiza ampliou e, aos 82′, David Silva sentenciou a eliminação dos russos. Ainda assim, quando o placar ainda sinalizava igualdade, Pavlyuchenko teve a chance de dar a vantagem a seu país; não evitou o triste, porém honrado, final.

Pior que a eliminação foi o azar da Rússia na sequência. Dividindo o Grupo 4 das Eliminatórias para o Mundial de 2010 com a Alemanha, foi vice-líder. Ficou atrás dos germânicos e à frente de Finlândia, País de Gales, Azerbaijão e Liechtenstein. Após sete vitórias, um empate e duas derrotas, justamente nas partidas contra a Mannschaft, a equipe de Hiddink foi à repescagem, ante a Eslovênia.

Quando o retorno à elite do futebol mundial parecia favas contadas, os eslovenos surpreenderam. Perderam fora de casa, mas marcaram um tento que seria crucial, 2 a 1. Na volta, o marginal 1 a 0 foi suficiente para, no critério do gol como visitante, os russos ficarem em casa.

Zhirkov Chelsea

Foto: Reprodução

Após o fracasso, o time nunca mais foi o mesmo, ainda que seus destaques tenham se mudado para centros maiores do futebol. Arshavin foi ao Arsenal, Zhirkov ao Chelsea, Pavlyuchenko ao Tottenham e Bilyaletdinov ao Everton. Nenhum foi bem-sucedido. Hiddink logo assumiu a Turquia, após uma passagem breve pelo Chelsea.

O grupo mesclou experiência e juventude

A meta dos russos, historicamente um ponto forte com ícones como Rinat Dasaev e Lev Yashin, era defendida por Igor Akinfeev, um garoto de 22 anos. Ele era titular do CSKA desde os 17 e acumulava experiência apesar da idade. Na Euro, não chegou a ser um dos grandes destaques, mas cumpriu seu papel. É um dos atletas que mais vezes envergou a camisa da seleção de seu país, superando as 100 internacionalizações.

Igor Akinfeev Russia

Foto: imago/Norbert Schmidt

Pelas laterais, Guus Hiddink contava com muita potência ofensiva. Pela direita, Aleksandr Anyukov foi uma alternativa presente no campo de ataque; não por acaso colaborou com duas assistências, nas cinco partidas disputadas. Já o flanco canhoto tinha o referente Yuri Zhirkov. Polivalente, capaz de exercer com qualidade qualquer função no lado esquerdo, era um motor e arma importante. Na competição, proveu também uma assistência.

A defesa central era pesada, mas firme e não hesitava na tomada de decisão. Sergei Ignashevich era a principal referência do setor, um jogador fisicamente forte e bom no jogo aéreo, porém lento. Sua companhia acabou sendo variada durante o certame. Hiddink demonstrou apreço por Denis Kolodin, beque que atuava no Dynamo e possuía um chute poderoso de longa distância, mas o entrosamento trazido do CSKA, fê-lo optar majoritariamente por Vasili Berezutski, de similares aptidões e defeitos em relação aos concorrentes.

Na meia cancha, postado à frente da defesa, Semak era o líder e responsável pela gestão do jogo russo. Preterido durante as Eliminatórias, foi chamado para os últimos amistosos antes da disputa, ganhou moral e vaga no time titular. Foi decisivo contra a Grécia, com a assistência para o gol da vitória. O tento foi anotado por Konstantin Zyryanov, outro meio-campista da equipe, habitualmente postado pela faixa direita, importante na transição de ataque e defesa, e que se beneficiava da parceria com Anyukov, forte desde o Zenit.

Semak Russia 2008

Foto: Reprodução

Centralizado, Igor Semshov era outro articulador — ao lado de Semak o único remanescente do elenco da Copa do Mundo de 2002. Além dele, atuou Ivan Saenko, um caso raro. Começou a carreira na Alemanha e foi um dos últimos a estrear pela seleção. Entre os meias, era o mais ofensivo, habilidoso e veloz. Não tardaria a ser lembrado pelas lesões. Assolado por elas, aposentou-se em 2011, aos 28 anos.

Alternando a titularidade com Saenko, havia ainda Bilyaletdinov, um canhoto habilidoso e voluntarioso.

Era no ataque que Guus Hiddink depositava suas maiores esperanças. Arshavin vivia momento especial na carreira. Parecia que tudo o que tentava dava certo. Era o mais talentoso da equipe, driblando com objetividade e rapidez. Tornou-se o russo mais temido daquele campeonato europeu e deixou a competição valorizado. Seu parceiro não ficou muito atrás. Substituto de Aleksandr Kherzakov, que vivia má fase e não foi convocado, Roman Pavlyuchenko foi o maior goleador russo, com três gols — um a menos que o espanhol David Villa, artilheiro do certame.

Arshavin Russia 2008

Foto: Alex Livesey/Getty Images

O time ainda apresentava alternativas importantes, como Dmitri Torbinski, meio-campista decisivo para a vitória da Rússia contra a Holanda, ou Dmitri Sychev, atacante que começou a competição como titular e entrou no decorrer de algumas partidas.

No fim das contas, ganhar da Espanha que venceria, além da Euro 2008, a Copa do Mundo de 2010 e a Euro 2012, era uma missão impossível. A Rússia fez o que podia e consagrou uma geração que se perdeu com o tempo, mas deixou a Inglaterra em casa, despachou Grécia e Suécia e, além disso, bateu com autoridade a talentosa Holanda. Com Hiddink, os russos foram além do esperado, encantaram com bom futebol e ganharam lugar cativo na memória dos torneios europeus.

As ruas se lembram do futebol jogado na Áustria e na Suíça.

Partidas importantes no período

Grupo E das Eliminatórias para a Euro 2008: Rússia 2×1 Inglaterra

Estádio Luzhniki, Moscou

Árbitro: Luis Medina Cantalejo

Público 84.700

Gols: 70′ e 73′ Pavlyuchenko (Rússia); 29′ Rooney (Inglaterra)

Rússia: Gabulov; Anyukov, Ignashevich, V. Berezutskiy (Torbinski), A. Berezutskiy; Zyryanov, Semshov, Zhirkov; Bilyaletdinov, Kerzhakov (Pavlyuchenko) e Arshavin (Kolodin). Téc.: Guus Hiddink

Inglaterra: Robinson; Richards, Campbell, Ferdinand, Lescott (Lampard); Barry, Gerrard, Wright-Phillips (Crouch), Joe Cole (Downing); Owen e Rooney. Téc.: Steve McClaren

Quartas de finais da Euro 2008: Holanda 1×3 Rússia

Estádio St. Jakob-Park, Basileia

Árbitro: Ľuboš Micheľ

Público 38.374

Gols: 56′ Pavlyuchenko, 112′ Torbinskiy e 116′ Arshavin (Rússia); 86′ van Nistelrooy (Holanda)

Holanda: van der Sar; Boulahrouz (Heitinga), Ooijer, Mathijsen, van Bronckhorst; Engelaar (Afellay), de Jong; Kuyt (van Persie), van der Vaart, Sneijder; van Nistelrooy. Téc.: Marco van Basten

Rússia: Akinfeev; Anyukov, Ignashevich, Kolodin, Zhirkov; Semak; Zyryanov, Semshov (Bilyaletdinov), Saenko (Torbinski); Arshavin e Pavlyuchenko (Sychev). Téc.: Guus Hiddink

Semifinais da Euro 2008: Rússia 0x3 Espanha

Estádio Ernst-Happel, Viena

Árbitro: Frank De Bleeckere

Público: 51.428

Gols: 50′ Xavi, 70′ Güiza e 82′ Silva (Espanha)

Rússia: Akinfeev; Anyukov, Ignashevich, V. Berezutskiy, Zhirkov; Semak; Zyryanov, Semshov (Bilyaletdinov), Saenko (Sychev); Arshavin e Pavlyuchenko . Téc.: Guus Hiddink

Espanha: Casillas; Sergio Ramos, Marchena, Puyol, Capdevilla; Senna, Xavi (Xabi Alonso), Iniesta, Silva; Villa (Fàbregas) e Torres (Güiza). Téc.: Luis Aragonés

Wladimir Dias

Idealizador d'O Futebólogo. Advogado, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Escrita Criativa. Mestre em Ciências da Comunicação. Colaborou com Doentes por Futebol, Chelsea Brasil, Bundesliga Brasil, ESPN FC, These Football Times, revistas Corner e Placar. Fundou a Revista Relvado.

Sem Resultados

  1. Jorge disse:

    Excelente artigo. Asisti aquela Eurocopa e lembro bem desse jogo Holanda e Rússia. A seleção russa era muito boa ,muito talentosa . Pena que fracassou no objetivo de ir a Copa do mundo.

  2. Unknown disse:

    Muito bom relembrar esse excelente time da russia, por mais artigos como esse!!!

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