Seleções de que Gostamos: França 1998-2001
Após lembrar os grandes feitos da
Seleção Espanhola do período entre 2008 e 2012, volto as atenções para a
França, que, comandada pela genialidade de Zinedine Zidane, entre 1998 e 2001
viveu seu período histórico mais glorioso.
Em pé: Zidane, Desailly, Leboeuf, Thuram, Guivarc’h, Petit; Agachados: Karembeu, Djorkaeff, Deschamps, Barthez e Lizarazu. |
Thuram, Desailly, Blanc (Leboeuf), Lizarazu; Deschamps, Vieira (Karembeu),
Petit, Zidane; Djorkaeff (Henry) e Guivarc’h (Dugarry/Trezeguet). Técs.: Aimé Jacquet e Roger Lemerre
O início do ano de 1998 foi
marcado por muita pressão em cima da Seleção Francesa. Ausentes na Copa de1994, quando perderam jogo crucial para a Bulgária e viram uma geração quetinha nomes como David Ginola, Eric Cantona e Jean-Pierre Papin fracassar, Les Bleus precisavam dar uma resposta
forte na Copa do Mundo que sediariam.
Entre expectativas e decepções: o período pré-1998
outro, a esquadra francesa disputou muitos amistosos, eliminatórias para a Euro
1996 e apenas uma competição oficial, a referida disputa continental. Na
Inglaterra, em 1996, não fez papel ruim, mas também não convenceu.
Líder do Grupo B, tendo batido Romênia e
Bulgária e empatado com a Espanha, avançou com tranquilidade aos playoffs do certame. Nas quartas de final,
contudo, já se viu muita dificuldade e somente as penalidades conseguiram
confirmar a vitória francesa contra a Holanda, após empate sem gols no tempo
regulamentar e prorrogação. Na fase semifinal, contudo, foi vítima do próprio
veneno e não evitou a eliminação perante a República Tcheca, também nos
pênaltis.
Zinedine Zidane, mais uma vez falhou. Em novo turno, identificou-se enorme
potencial e qualidade técnica nos Bleus,
porém, novamente, a equipe não conseguiu corresponder às expectativas criadas e
já se começou a falar que alguns de seus melhores jogadores, como foi o caso de
Zidane, destacavam-se muito mais em seus clubes do que quando representavam sua
seleção nacional.
francês já era o criticado Aimé Jacquet e a base da equipe que venceria a Copa do Mundo de
1998 já estava formada. Atletas como Lilian Thuram, Laurent Blanc, Marcel
Desailly, Bixente Lizarazu, Didier Deschamps, Zidane, Christian Karembeu e
Youri Djorkaeff já faziam parte dos planos do comandante gaulês. Veio, enfim, o
Mundial.
Dificuldades de anfitrião
forte Dinamarca, que havia vencido a Euro 1992, a África do Sul e a Arábia
Saudita, a França não encontrou muitas dificuldades para avançar à fase final
da competição; goleou África do Sul (3×0) e Arábia Saudita (4×0) e bateu a
Dinamarca por 2×1; 100% de aproveitamento, que não deixou de dar margem para
críticas: Zidane não só não vinha jogando bem como fora expulso contra a Arábia
Saudita, ficando fora de duas partidas, e Jaquet também mostrava dificuldades
para definir seu melhor onze inicial.
franceses suaram a camisa para vencer um valente Paraguai, de defesa
praticamente intransponível. Os donos da casa precisaram de um Golden Goal para mandar a Albirroja de volta para casa. E esse foi
o ritmo do que se seguiu.
Com a volta de Zidane, a equipe
enfrentou outra esquadra de retaguarda implacável: a Itália. Sem conseguir
tirar o zero do placar, como na Euro 1996, a França viu sua sorte ser decidida
nas penalidades e, dessa vez, pôde comemorar; garantiu-se nas semifinais da
competição, em que enfrentaria a grande surpresa do torneio, a Croácia do artilheiro Davor Suker, que havia atropelado a Alemanha, por 3×0.
daquele Mundial: Lilian Thuram. O lateral francês falhou no tento que abriu o
placar para os croatas, dando condição legal para Suker sair sozinho frente à
frente com o goleiro Fabien Barthez.
maravilhoso, dentre outras razões, por sua capacidade de converter vilões em
mocinhos em questão de minutos – nesse caso de um minuto. Pouco após o reinício
da partida, a França pressionou a defesa eslava, recuperou a bola no ataque e
empatou. Quem infiltrou na área croata para equalizar o placar? Sim, ele mesmo,
Thuram. E vejam só: quem acertou belo chute da entrada da área com o pé
esquerdo (o menos privilegiado) para dar números finais à partida e colocar a
França na final? Thuram, novamente, comemorando com visível incredulidade.
jogo extremamente duro e parelho com o Brasil, a Canarinho viveu a conturbação de
ter que lidar com as famosas convulsões de Ronaldo e foi superada pela autoridade
de uma equipe claramente destinada à grandeza, liderada pelo maior de seus
jogadores. Zidane marcou duas vezes e Emmanuel Petit sacramentou a derrocada
brasileira. Pela primeira vez, a França teve o prazer de levantar a Copa do
Mundo.
O fim das dúvidas
passou a sofrer com acusações maldosas no sentido de questionar sua autoridade
de campeã em razão de ter enfrentado uma Seleção Brasileira combalida e sem
clima para a disputa da final, em razão dos acontecimentos com Ronaldo. Nada
mais distante da realidade. No entanto, foi necessário novo título para
dissipar, de uma vez por todas, tais desconfianças.
Lemerre, que substituiu o desgastado Jacquet (de quem havia sido auxiliar), após liderar o Grupo 4 (dividido com Ucrânia, Rússia,
Islândia, Armênia e Andorra) das Eliminatórias para a Euro 2000, perdendo
apenas uma partida para a Rússia, a França chegou à Holanda e Bélgica. Membro do Grupo
D, ao lado dos anfitriões holandeses, de República Tcheca e Dinamarca, ficou
com a segunda posição, atrás dos donos da casa, que venceram os campeões mundiais,
por 3×2.
pela frente a Espanha de Raúl González e, em boa atuação de Zidane, autor de um
dos gols dos Bleus, venceu a Fúria, por 2×1.
Nas semifinais, novas
dificuldades vieram. Jogando contra uma das mais talentosas gerações
portuguesas de todos os tempos, liderada pela qualidade técnica de jogadores
como Sergio Conceição, Rui Costa e Luís Figo, os franceses voltaram a sofrer,
mas venceram.
O 1×1 do tempo regulamentar, construído por gols de Nuno Gomes e
Thierry Henry, levou o jogo para o Gol de Ouro. Foi então que o lateral direito
Abel Xavier defendeu com as mãos, dentro da área, chute de Sylvain Wiltord. O
pênalti foi marcado e convertido por Zidane; a França estava, novamente, em uma
final.
Itália, que buscava uma revanche e o jogo foi ainda mais emocionante do que a
partida contra Portugal. O atacante Marco Delvecchio, então na Roma, colocou a Azzurra em vantagem e a liderança italiana
foi levada até os acréscimos do segundo tempo, quando Wiltord foi novamente
protagonista, marcando o gol de empate e levando o jogo à prorrogação.
Enfraquecida pelo choque causado pelo empate, a Itália não foi capaz de parar
David Trezeguet, autor do decisivo Golden Goal,
após grande jogada de Robert Pirès, que deu mais um título europeu para a França.
Um último título com time misto
principais estrelas (Barthez, Zidane, Henry, Trezeguet, Thuram, dentre outros),
o treinador Roger Lemerre aproveitou a Copa das Confederações de 2001, evento
teste para a Copa do Mundo de 2002 sediado em Japão e Coreia do Sul, para fazer experiências. Assim, jogadores como Éric Carrière, Steve Marlet e Laurent
Robert ganharam oportunidades. Mesmo sem ter brilhado, Les Bleus conquistaram mais um título.
Líder do Grupo A, a França goleou
Coreia do Sul (5×0) e México (4×0), mas sofreu inesperada derrota para a Austrália
(1×0), fazendo o suficiente para ir às semifinais. Na ocasião, novamente
enfrentando o Brasil (que, treinado por Emerson Leão, levara um grupo
alternativo de jogadores, integrado maiormente por jogadores que atuavam no
país), venceu por 2×1.
Na final, os Bleus voltaram a sair vitoriosos, com o placar
mínimo, 1×0, perante o anfitrião Japão, com gol do excelente volante Patrick Vieira.
a França viveu dias de brilho intenso e chegou com favoritismo à Copa do Mundo
de 2002. No certame, entretanto, protagonizou um dos maiores fracassos da
história do futebol. Na ocasião, caiu na fase de grupos, vendo, da lanterna, Dinamarca e
Senegal avançarem aos playoffs, sem
ter, sequer, sido capaz de marcar um gol. Esse foi o abrupto final de um
período de grandes glórias.
O mais vitorioso grupo da história francesa
muito pouco alterado no período em comento. Fazendo a defesa da meta, o goleiro
Fabien Barthez foi uma das referências da equipe. Baixo e dono de grandes
reflexos, era capaz de fazer defesas de impressionante complexidade,
verdadeiros milagres que demandavam elasticidade, e de tomar os mais
bobos frangos. Naquele momento, contudo, o carequinha vivia momento excelente
em sua carreira, tendo sido, ao lado do paraguaio José Luis Chilavert, o
arqueiro menos vazado da Copa do Mundo de 1998. Ao todo, representou a França
em 87 ocasiões.
disputa da Copa das Confederações de 2001, Barthez foi substituído por Ulrich
Ramé, ex-goleiro do Bordeaux, retomando seu posto na Copa do Mundo de 2002.
habituais. Os titulares até 2000 foram Laurent Blanc e Marcel Desailly. O
primeiro, conhecido como Le Président,
era um líder nato e um dos capitães da equipe. Lento, mas bom tecnicamente, fazia
parceria interessante com Desailly, que, diferentemente, tinha no físico imponente
sua grande força. Ambos eram bons no jogo aéreo, conseguiam sair jogando com
qualidade e chegaram a atuar como líbero e volante. Blanc representou a França
em 97 jogos e Desailly em 116.
A despeito disso, a dupla tinha um suplente que muito atuava e se tornou titular após 2000, ano em que Blanc deixou a Seleção Francesa: Frank Leboeuf. Jogador que não possuía a qualidade técnica de seus titulares, mas também não deixava a desejar, era opção constante e à época parceiro de Desailly no Chelsea.
durante todo esse tempo foi Lilian Thuram. Jogador que terminou sua carreira
detendo o recorde de jogos por Les Bleus,
142 encontros, tinha todas as qualidades de um ótimo defensor. Fisicamente
imponente, mostrando sempre muita capacidade para ir à frente e defender, foi
um jogador vital para todos os êxitos obtidos pela Seleção Francesa no período
em que a defendeu. Na Copa das Confederações foi substituído por Willy Sagnol,
que mais tarde se tornaria titular, com Thuram passando a atuar na zaga.
Do lado contrário, a titularidade
também tinha dono bem definido. Baixinho e rapidíssimo, Bixente Lizarazu,
jogador importante nas histórias de Bordeaux e Bayern de Munique, era figura útil na saída de bola e no auxílio ao setor ofensivo, sempre se
projetando muito bem pelo flanco esquerdo. Impressionava também pela
regularidade; era muito difícil ver o jogador fazer um jogo ruim. Fez 97
partidas por seu país.
Didier Deschamps era a principal voz da equipe. Com leitura de jogo excelente e capacidade para organizar sua equipe, tinha bom passe e ajudava a dar
estabilidade à equipe. Líder nato, foi o responsável por levantar o troféu do
mundial. É outro que se aposentou da Seleção Francesa em 2000, após 103 jogos, passando a
braçadeira de capitão para Desailly.
trabalho facilitado pela boa companhia com a qual atuou. Até 2000, normalmente
o jogador era flanqueado pela força física e raça de Christian Karembeu e a
técnica distinta de Emmanuel Petit. É curioso perceber que era justamente o
estilo diferente e complementar dos dois que dava sustentação ao meio-campo da
equipe. Karembeu foi importante em vários momentos – sendo inclusive improvisado
em outras posições – assim como também foi Petit, autor do gol derradeiro da
final da Copa do Mundo de 1998.
Arsenal, Patrick Vieira (que representou a França em 107 ocasiões e marcou o gol do título da Copa das Confederações de 2001), reserva em 1998, foi se tornando titular, relegando
Karembeu ao banco. Com pernas longas, cabeça erguida, muita força física para
destruir as jogadas adversárias e técnica para iniciar a construção daquelas de
sua equipe, aos poucos se tornou um dos jogadores mais importantes dos Bleus.
Na criação, a referência era uma,
única e absoluta: Zinedine Zidane. Cerebral, dono da mais refinada técnica,
visão de jogo e elegância, ignorava o peso da camisa 10 francesa como o fazia
com seus marcadores. Decisivo, calou os críticos de seu futebol decidindo a
Copa do Mundo de 1998 e sendo eleito o melhor jogador da Euro 2000. Fez 108
partidas pela Seleção Francesa.
davam suporte, Youri Djorkaeff e Robert Pirès eram outras peças sempre
presentes no time titular francês. Habilidosos e velozes, eram também
versáteis, podendo fazer função de criação no meio-campo, atuar abertos ou ainda
mais avançados, como segundo atacante. Em especial, Djorkaeff foi peça muito
importante para os três títulos franceses, sempre sendo titular.
embora pudesse contar com a juventude, excepcional técnica e grande faro de gol
de jogadores como Thierry Henry e David Trezeguet, os técnicos franceses muitas
vezes alinharam jogadores de qualidade extremamente contestável. Stéphane
Guivarc’h e Christophe Dugarry, alternativas habituais, não possuíam nenhuma grande distinção; eram
centroavantes comuns e sequer possuíam faro artilheiro muito apurado. O
primeiro disputou apenas 14 partidas pela França, marcando um tento, e o
segundo em 55 jogos, com oito gols marcados.
Trezeguet foram gradativamente ganhando importância no selecionado francês. Com
habilidade e velocidade impressionante, o primeiro já era titular na Euro de
2000, enquanto o segundo foi uma espécie de talismã, tendo sido sua a autoria
do gol que deu o título da citada competição para a França. Enquanto Henry é o
maior artilheiro de todos os tempos da França, com 51 gols em 123 partidas,
Trezeguet é o terceiro, com 34 tentos em 71 jogos.
Ficha técnica de alguns jogos importantes nesse período:
Karembeu (Henry), Petit, Zidane; Djorkaeff (Leboeuf) e Guivarc’h (Trezeguet).
Téc.: Aimé Jacquet
Jarni, Boban (Maric), Asanovic; Vlaovic e Suker. Téc.: Miroslav Blazevic
Árbitro: Said Belqola
Leboeuf, Lizarazu; Deschamps, Karembeu (Boghossian), Petit, Zidane; Djorkaeff
(Vieira) e Guivarc’h (Dugarry). Téc.: Aimé Jacquet
César Sampaio (Edmundo), Dunga, Leonardo (Denílson), Rivaldo; Ronaldo e Bebeto.
Téc.: Zagallo
Público 48.000
Dimas (Rui Jorge); Costinha, Vidigal (Paulo Bento); Sérgio Conceição, Rui Costa
(João Pinto), Luís Figo; Nuno Gomes. Téc.: Humberto Coelho
Vieira, Petit (Pirés), Zidane; Henry (Trezeguet) e Anelka (Wiltord). Téc.:
Roger Lemerre
(Itália)
Deschamps, Vieira, Djorkaeff (Trezeguet), Zidane; Henry e Dugarry (Wiltord).
Téc.: Roger Lemerre
Baggio (Ambrosini), Albertini, Fiore (Del Piero); Totti e Delvecchio (Montella)
Téc.: Dino Zoff
Gols: ‘7 Pirés e ’54 Desailly (França); ’30 Ramon (Brasil)
Karembeu, Djorkaeff (Carrière); Wiltord (Robert) e Anelka. Téc.: Roger Lemerre
Rochemback, Carlos Miguel (Robert), Ramon; Leandro Amaral (Vampeta) e
Washington. Téc.: Emerson Leão
Yokohama
Toda, Ono (Kubo); Inamoto (Miura) e Nishizawa (Nakayama). Téc.: Philippe
Trousier
França: Ramé; Karembeu, Desailly, Leboeuf, Lizarazu; Djorkaeff
(Carrière), Vieira, Pirés, Wiltord; Anelka e Marlet (Robert). Téc.: Roger
Lemerre