SC Freiburg, o triunfo da modéstia e da paciência

NO FUTEBOL, não há fórmula perfeita, embora algumas retornem resultados melhores. A continuidade de um trabalho não oferece garantias, mas figura entre os métodos mais consistentes já testados. Os 16 anos em que o Freiburg foi comandado por Volker Finke (1991–2007) apontam nessa direção, assim como os 13 sob a liderança de Christian Streich (2011–2024).

Freiburg Farewell Stadium

Foto: DFL

O Freiburg chega à elite

Até o início da década de 1990, a Brisgóvia não tinha grandes motivos futebolísticos para se orgulhar.

Com relativa relevância na cena germânica na primeira metade do século XX, o Freiburger FC caíra no esquecimento, um andarilho das divisões inferiores. O SC Freiburg, por outro lado, caminhava pela segunda divisão desde 1978-79. Ensaiou o salto algumas vezes, contou com nomes de relevo como Joachim Löw e Souleyman Sané (mais tarde reconhecido como o pai de Leroy), mas não chegou à elite.

Para a temporada 1991-92, apostou na contratação de Volker Finke, um treinador incógnito que vinha do modesto Norderstedt, agremiação que lutava insistentemente para acessar a 2. Bundesliga, sem êxito. O alemão tinha pouco mais de 40 anos e nada a perder, a exemplo do clube, que tampouco corria grandes riscos. O sucesso revelaria a típica situação ganha-ganha; o insucesso apenas antecederia mais um dia na vida de ambos.

Volker Finke Freiburg

Foto: imago sportfotodienst

Na primeira temporada em que foram incorporadas as equipes da Alemanha Oriental, após a Queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, o Freiburg fez uma campanha decente e ficou perto do acesso. Faltaram cinco pontos apenas para superar o Saarbrücken no grupo Süd. Individualmente, brilharam Andree Fincke e Uwe Spies, que marcaram 22 dos 52 gols da equipe.

A proximidade da subida deixou um sabor de possibilidade, levando o Freiburg a apostar na contratação do albanês Altin Rraklli. O atacante obtivera números superlativos no comando do ataque do Besa Kavajë e começava a ser convocado para a seleção nacional. Somadas as duas temporadas anteriores, registrara 48 tentos em 68 jogos. Era o suficiente para fazer uma aposta que se pagou.

Ele foi o goleador da equipe em 1992-93, com 16 tentos, uma engrenagem determinante em um time que marcou 102 gols em 46 jogos. Outros quatro atletas conseguiram registrar dois dígitos artilheiros: Martin Braun (15), Spies e Jens Todt (11) e Thomas Seelinger (10). Importante no ano anterior, Fincke fez quatro, mas partiu para o Wolfsburg no meio da temporada.

Sem qualquer surpresa, o Freiburg foi o campeão. Em sete oportunidades, marcou quatro ou mais gols, em uma campanha soberba e que teve como um dos pontos altos um triunfo por 3 a 1, contra o Duisburg, o eventual segundo colocado. Enfim, a Floresta Negra tinha representante na elite.

Primeiros passos rumo à consolidação

Ninguém achou que os primeiros anos seriam fáceis. Sem dinheiro para investir, o clube era visto como um aventureiro fatalmente destinado ao retorno às divisões de acesso. No entanto, a percepção pública não poderia ser mais equivocada. O Freiburg era um time que tinha os pés no chão, característica fundamental de Achim Stocker, seu presidente desde 1972.

Stocker Freiburg

Foto: imago werek

O mandatário era advogado e servidor público da Oberfinanzdirektion, autoridade estadual de administração das finanças públicas. Estava em seu dia a dia a necessidade de lidar adequadamente com o dinheiro, assim como corria em seu sangue a modéstia e, em sua cabeça, a certeza de que não tentaria jamais dar um passo maior do que a capacidade de suas pernas.

Sua humildade era tanta que, em aspas que mais tarde se tornaram anedóticas, disse a Finke para “jamais sequer pensar em primeira divisão”. O time não faria nada que pudesse ter como efeito colateral sua própria extinção. O sonho de grandeza que tantos projetos arruinou nem passava pela cabeça de Stocker, que faleceu em 2009, e era até então o presidente mais antigo do futebol alemão.

Além de sua atuação como dirigente, o homem que vivia a centenas de metros do Dreisamstadion era um torcedor fiel. “Não consigo assistir aos jogos, isso não mudou. Sempre saio para passear com meu cachorro. É uma mania minha, sim, e também tem a ver com o meu coração. Eu fico muito exaltado no estádio e não consigo, emocionalmente, assistir a um jogo assim”.

Stocker foi o símbolo de uma cultura que permitiu estabilidade ao clube. Nunca faltaram amor e dedicação, mas ele nunca mentiu para os torcedores sobre as pretensões do clube e eles responderam de forma condizente. O Freiburg se tornou uma equipe em que uma sequência de derrotas não conduz ao caos. E foi assim que cresceu.

Jorg Heinrich Freiburg

Foto: HJS/imago-images-bilder

Sob a liderança de Volker Finke, o Freiburg conseguiu permanecer na elite em 1993-94 e, no ano seguinte, obteve a melhor colocação de sua história, o terceiro lugar. Entre os reforços da temporada esteve Jörg Heinrich, lateral esquerdo mais tarde campeão europeu pelo Borussia Dortmund. Já o artilheiro da equipe foi o argentino Rodolfo Cardoso, meia contratado junto ao Hombug e que marcou 16 dos 66 gols da equipe.

Depois daquele ano atípico, em que o Bayern de Munique passou por uma grande crise e acabou em sexto, o Freiburg continuou seu trabalho como se nada houvesse ocorrido. Vendeu Cardoso ao Werder Bremen e, com o dinheiro, buscou Alain Sutter, um flop dos bávaros. Mesmo com a disputa da Copa da Uefa no horizonte, Stocker continuou fiel ao seu orçamento e o time caiu logo na primeira fase para o Slavia Praga.

Decisões racionais

Foi durante o período de crescimento do clube, em 1995, que Christian Streich foi contratado para comandar o time sub-19 do Freiburg. Ele acabara de encerrar a carreira de atleta pelo Freiburger SC e chegava para participar de uma revolução. Faltavam alguns anos para a inauguração da Freiburg Football School e ele estaria no centro de tudo. Uma das primeiras provas de sucesso responderia pelo nome de Dennis Aogo.

“Sem Christian Streich, eu não teria me tornado um jogador de futebol profissional. Eu teria me perdido. Três anos antes da minha ascensão, eu estava numa encruzilhada. Na academia do Freiburg, os jogadores eram demitidos depois de três advertências. Eu pude ficar, embora tivesse recebido muito mais do que três. Havia festas, brigas, faltas às aulas, chegar tarde em casa, coisas típicas de um adolescente. Mas você não pode fazer isso quando quer se tornar um profissional”, contou à BBC.

Dennis Aogo Freiburg

Foto: imago

Streich estava lá quando o Freiburg foi rebaixado em 1996-97. E quando voltou à elite, um ano depois. O comando do time seguia nas mãos de Finke e o do clube com Stocker.

Foram mais quatro temporadas na Bundesliga, antes de outro rebaixado. Os brisgóvios viveram um intenso efeito ioiô, mas em momento algum gastaram mais do que podiam. Eram criativos nas contratações e as que renderam frutos logo se transferiram para equipes mais ricas. Foi o caso de Sebastian Kehl, contratado junto ao Hannover 96 em 2000 e vendido ao Borussia Dortmund um ano depois, por um valor três vezes maior ao anteriormente pago.

Em algum momento, porém, a mudança de direção foi inevitável. Em meados de dezembro de 2006, foi anunciada a saída de Volker Finke, a ser efetivada no final da temporada. Houve inevitável desgaste com Stocker, após vários anos. Ainda assim, o clube trabalhou para não evitar uma ruptura brusca.

O clube continuou buscando reações racionais, o que ficou evidente no comunicado emitido na época: “Planejar a sucessão na gestão esportiva para a próxima temporada em conjunto com Volker Finke e implementá-la com a diligência que se espera do SC Freiburg”. Foram 5.843 dias sob a liderança do treinador, 607 jogos (245 vitórias, 139 empates e 223 derrotas).

Julian Schuster Freiburg

Foto: Reprodução

Robin Dutt, ex-Stuttgarter Kickers, foi o escolhido para a sucessão. Tinha 42 anos e seria auxiliado por Christian Streich. O time continuou produzindo jovens de qualidade, como Daniel Schwaab e Ömer Toprak, mas precisou de duas temporadas para voltar à elite.

Importante: o elenco do acesso contava com o volante Julian Schuster, trazido do Stuttgart.

O pequeno grande Freiburg

De volta à elite em 2009-10, o Freiburg manteve sua fórmula, mesmo após a morte de Stocker e a ascensão de Fritz Keller à presidência. O dirigente trabalhava no clube desde 1994 como diretor de marketing e permaneceu até 2019, quando assumiu a chefia da Federação Alemã de Futebol (DFB).

Robin Dutt estabilizou o clube na elite mais uma vez, impulsionando o desempenho de jogadores como Papiss Cissé. O senegalês foi encontrado no Metz e, após marcar 39 gols em duas temporadas, acabou negociado com o Newcastle. As campanhas foram dignas e projetaram a carreira do treinador, que não recusou um chamado do Bayer Leverkusen, em 2011, depois de 145 jogos. Seu substituto foi ninguém menos que Christian Streich.

Obcecado com futebol e um tanto emocional, já era um homem absorvido pela mentalidade local. “Ele vem aqui em seu tempo livre e não queremos que isso se torne um assunto público”, contou à BBC o dono de um pub frequentado pelo treinador. Se a loucura com o esporte projetou sucesso para a equipe, o coração do comandante estreitou a ligação entre clube e comunidade.

 

Em 2012-13, o Freiburg terminou a Bundesliga na 5ª colocação, classificado à Liga Europa. O sucesso foi efêmero, com um rebaixamento encontrando o clube dois anos depois. Porém, foi apenas um deslize em uma caminhada consistente. O retorno foi imediato e a ele se seguiu um 7º lugar na elite, tudo isso mantendo os mesmos padrões de trabalho.

Streich deu espaço a vários jovens, ao longo dos seus anos de gestão. Christian Günter seria um dos principais, eventualmente alçado a capitão da equipe. Matthias Ginter, convocado para a Copa do Mundo de 2014, um dos mais bem-sucedidos. O restante da equipe foi sendo completado com reforços baratos e de potencial, como Çağlar Söyüncü e Vincenzo Grifo. Ambos chegaram às suas seleções.

Streich Ginter Freiburg

Foto: Reprodução

Outro ícone dentro dos campos foi Nils Petersen, contratado em 2015 junto ao Werder Bremen por menos de três milhões de euros e que se tornou o maior artilheiro da história da equipe, com 105 gols, em 277 jogos.

Com o treinador, o time não voltou a ser rebaixado e conseguiu novas classificações à Liga Europa. Quando enfim foi substituído, deu lugar a Julian Schuster, aquele meio-campista que chegou ao clube no final dos anos 2000 e que era um dos auxiliares técnicos desde que pendurou as chuteiras. A mesma roda seguiu em um giro redondo, mesmo que o clube continue progredindo.

Em 2021, inaugurou o Europa-Park-Stadion, um estádio moderno com capacidade para quase 35 mil pessoas, incapaz portanto de comportar os mais de 50 mil sócios-torcedores do clube, a maior massa de associados da região de Baden. Além disso, devido à boa fama no desenvolvimento de jovens atletas, o Freiburg passou a chamar a atenção de atletas que antes privilegiariam se transferir a um clube de maior prestígio.

Europa-Park-Stadion

Foto: BSR Agency

Presidente do clube entre 2021 e 24, Eberhard Fugmann resumiu com precisão os caminhos da equipe. “Não somos um clube grande, mas em termos dos valores que defendemos, somos gigantes. A filosofia que defendemos, nossos valores, nos tornam um clube grande. Mas de uma forma metafórica, não em termos de nosso tamanho em si”. Mais de três décadas após a chegada de Finke, o Freiburg não é mais um azarão.

Wladimir Dias

Idealizador d'O Futebólogo. Advogado, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Escrita Criativa. Mestre em Ciências da Comunicação. Colaborou com Doentes por Futebol, Chelsea Brasil, Bundesliga Brasil, ESPN FC, These Football Times, revistas Corner e Placar. Fundou a Revista Relvado.

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