Forest Green Rovers: o time mais verde do mundo

SE O NOME DE DALE VINCE soa familiar, o leitor deve ter ao menos uma vaga ideia do que virá adiante. Se a surpresa é total, o espanto também será. Em 2010, o empresário inglês se tornou acionista majoritário do Forest Green Rovers, equipe que carrega como glória máxima o título da League Two, a quarta divisão inglesa. Poderia ser a história típica do homem rico e um pouco excêntrico que decide se aventurar pelo futebol, exceto pelo fato de se tratar de um time vegano.

Forest Green Rovers Celebrates

Foto: Getty Images

Quem é Dale Vince?

Poucos indivíduos defendem uma causa, um propósito, de forma tão intensa quanto Dale Vince. Filho dos anos 1960, foi um de tantos garotos new age a experimentar um estilo de vida hippie; foram mais de 10 anos vivendo entre trailers e vans, enquanto estudava os benefícios e o potencial das fontes renováveis de energia. Tais experiências o levaram a fundar a empresa Ecotricity.

O que começou com uma turbina eólica construída no quintal de casa chegou a um valor de mercado equivalente a mais de uma centena de milhões de libras. A notoriedade veio à tiracolo, com a filiação ao Partido Trabalhista, a frequente especulação quanto a uma entrada no universo político e a fundação da Green Britain Foundation, organização de caridade que financia iniciativas nas áreas de educação, esporte, desenvolvimento sustentável e direitos dos animais.

Em agosto de 2010, Vince concordou em investir “uma quantia considerável” e se tornou o acionista majoritário do Forest Green Rovers. “O Forest Green é um ótimo clube local e estou muito feliz pela oportunidade de trabalhar com eles, dentro e fora de campo”, comentou.

Dale Vince Forest Green Rovers

Foto: Reprodução

Institucionalmente, o clube reagiu:

“Damos as boas-vindas a Dale e, em particular, ao seu desejo de trazer uma abordagem nova e criativa ao seu investimento […] Com base no crescimento da sua própria empresa num setor tão competitivo como o do fornecimento de energia, este é o tipo de notícia que todos os que estão ligados a nós devem receber com grande entusiasmo”.

Três meses depois, Dale Vince também assumiu a presidência da equipe e começou a imprimir sua marca. Em fevereiro de 2011 vieram os primeiros sinais. A carne vermelha foi removida do cardápio da equipe e proibida de ser vendida do estádio “como mais um passo para nos consolidarmos como uma organização ‘verde’”, apontou Tom Williams, então diretor de comunicação do clube, à BBC.

Food at Forest Green Rovers

Foto: Reprodução

Verde além do prato

O primeiro passo da mudança institucional foi, efetivamente, a adoção de uma dieta sem carne animal dentro das instalações do clube e no estádio. Processos nesse sentido continuaram sendo levados adiante até o final de 2015, quando o clube se tornou 100% vegano: nenhum produto animal é vendido em suas dependências. Como apontou o The Guardian, nem mesmo fica disponível leite para o chá.

Vince reconhece as limitações do modelo, não tendo ingerência sobre a alimentação de seus funcionários — inclusive os atletas — fora do ambiente de trabalho, mas incentiva a adoção do veganismo. “O Forest Green Rovers está quebrando estereótipos e ajudando as pessoas a associarem o veganismo à saúde, boa forma física e bem-estar”, comentou Dominika Piasecka, assessora de imprensa da Vegan Society.

Mais ideias do mandatário foram colocadas em prática, ao longo dos anos seguintes. Tanto quanto viável, o Forest Green Rovers viaja para as partidas em um ônibus de 48 lugares movido a energia elétrica, dispensando deslocamentos aéreos sempre que possível. O investimento de 325 mil libras tem ajudado o clube a também se intitular o time com a menor pegada de carbono do planeta.

Electric Coach Forest Green Rovers manager Rob Edwards

Foto: Adrian Sherratt/The Guardian

À espera do Eco Park

Outra iniciativa se materializa no estádio. A equipe atua no The New Lawn, com capacidade para pouco mais de 5 mil espectadores. Em 2011, Dale Vince revelou à BBC que havia planos para modernizar a praça, mas não em sentido de infraestrutura básica:

“Temos um projeto de energia solar planejado, estamos estudando a possibilidade de usar LEDs nos refletores e também estamos buscando coletar a água da chuva do estádio e a água de drenagem do campo para que possamos reutilizá-la continuamente. Também estamos estudando a possibilidade de perfurar um poço artesiano para abastecer o campo com água de nascente”.

Até o final daquele ano, 180 painéis solares foram efetivamente instalados no teto e ao redor do estádio, gerando cerca de 25% de toda a energia consumida no local. O gramado, evitando produtos químicos, é fertilizado por algas marinhas. Além disso, já em 2012, os arredores foram contemplados com o plantio de diversas espécies vegetais.

Outskirts of The New Lawn

Foto: Forest Green Rovers

“Nos últimos dez anos, houve uma redução significativa em áreas de vida selvagem no Reino Unido”, apontou Stewart Ward, jardineiro do clube. “Temos o poder de fazer algo que consideramos importante. O plantio de flores silvestres atraiu abelhas e borboletas; esteticamente, é um belo complemento para o terreno”.

A mudança ainda reduziu a frequência de corte da grama nas áreas contempladas, diminuindo a utilização de maquinários. Mas Dale Vince quer ir além e projeta a construção de um estádio de madeira, possivelmente o investimento mais decisivo para a redução de emissões de carbono na atmosfera.

Eco Park Forest Green Rovers

Foto: Forest Green Rovers

O Eco Park foi idealizado em 2016 e recebeu permissão para construção em dezembro de 2024. O projeto prevê que o próprio estádio produza 80% da energia necessária para seu funcionamento, com a utilização de energias solar e eólica. Ademais, está prevista a plantação de quilômetros de sebes e árvores, objetivando ainda a recuperação da biodiversidade local.

O estádio é o passo definitivo para um time que pensa até nos uniformes, produzidos a partir de borra de café e plástico reciclado.

Altos e baixos no campo

Dentro das quatro linhas, o Forest Green Rovers não fica abandonado e também registra avanços. Na temporada 2025-26, a equipe disputa a National League, equivalente à quinta divisão inglesa. Trata-se de um revés, no que vinha sendo uma sequência de crescimento.

Quando Dale Vince assumiu a equipe, ela disputava justamente o quinto escalão. Frequentemente, acabava em posições intermediárias. A partir de 2014-15, o cenário mudou com a classificação para os playoffs de acesso. Ele viria duas temporadas depois, impulsionado pela temporada mais artilheira de Christian Doidge, autor de 25 gols, em 41 partidas.

Christian Doidge celebrates for Forest Green Rovers

Foto: Reprodução

A chegada à League Two representou um salto histórico. Pela primeira vez, o Forest disputava um escalão profissional. Seriam 5 temporadas, em que o clube chegou duas vezes aos playoffs, sem acesso. Enfim, em 2021-22, subiu para a League One. Era mais um degrau superado para a consolidação da equipe liderada por Rob Edwards. Com histórico em equipes de base do Wolverhampton e da seleção inglesa, vivia seu primeiro sucesso como treinador.

A alegria não durou muito, entretanto. O projeto em curso sofreu um abrupto golpe quando Edwards decidiu aceitar uma proposta do Watford e se mudar. A passagem pelos Hornets seria um fracasso, durando apenas 11 jogos.

“As negociações aconteceram pelas nossas costas. Assim que ele começou a falar, eu soube que era verdade. Ele disse que estava em negociações e que sentia que era uma grande oportunidade para ele. Para mim, o sentimento predominante foi decepção, porque no futebol as pessoas vêm e vão o tempo todo. O importante é a maneira como isso acontece”, comentou Dale Vince ao Sky Sports News.

Rob Edwards Forest Green Rovers champions

Foto: Sky Sports

Para o Forest Green Rovers, o destino foi implacável. Nem a presença de Connor Wickham, outrora prodígio do Sunderland e com passagem por seleções inglesas de base, bastou para evitar o descenso. Para piorar, virando a esquina, logo na temporada 2023-24 outra queda aguardava.

“Obviamente, todos estão desapontados […] Nossos melhores esforços não foram suficientes, principalmente em termos de contratações. Não é uma questão de orçamento”, disse Vince, em nota oficial. “Inauguraremos novas instalações de treinamento a tempo para a próxima temporada; estas serão, de longe, as melhores instalações que o FGR já teve. Como clube, provavelmente estaremos na melhor posição das últimas temporadas”.

No período, cinco treinadores passaram pelo Green Army. Com maior notoriedade, Duncan Ferguson e Troy Deeney, ex-atacantes com passagens por clubes da Premier League. Além deles, em outro movimento contracultural, Hannah Dingley, que logo assumiria as categorias de base do time feminino do Manchester City, chegou a ser apontada como interina.

 Hannah Dingley caretaker forest green rovers

Foto: Shane Healey/ProSports/REX/Shutterstock

Tentativa com “o homem mais sujo da Inglaterra”

Para se reerguer, o clube apostou em Robbie Savage, um nome histórico e polêmico do futebol inglês. Formado no Manchester United, o meio-campista fez história com as camisas de Leicester City, Birmingham City, Blackburn e Derby County — ademais da seleção galesa.

Além do estilo combativo, e de eventuais atos de simulação, chegou a ser o jogador mais vezes advertido da história da Premier League, com 89 cartões amarelos recebidos, e ganhou fama com histórias polêmicas. O Poogate se tornou uma das principais. Durante a temporada 2001-02, sem autorização, Savage utilizou o banheiro dos vestiários da arbitragem antes de um jogo, sendo punido pela Federação Inglesa e pelo Leicester.

Mais tarde, tornou-se um dos rostos mais frequentes na mídia esportiva inglesa, passando por BBC, ESPN e TNT Sports. Como treinador, entretanto, suas credenciais são poucas. Antes de chegar ao Forest Green Rovers, liderou apenas o Macclesfield, conquistando a Northern Premier League em 2024-25, equivalente à sétima divisão.

Robbie Savage Forest Green Rovers

Foto: Reprodução

“A ambição, o projeto, o centro de treinamento, o novo estádio, mas principalmente as boas pessoas me convenceram. A forma como o clube tratou o Charlie [seu filho], como a Claire [Thorley, chefe de operações] e toda a equipe me acolheram, a mim e à minha família. Eu pensei: sabe de uma coisa? É um passo a mais para mim, saindo de Macclesfield. É uma oportunidade, com pessoas competentes, de tentar trazer o Forest Green de volta à League Two”, disse Savage à BBC Radio Gloucestershire.

Até a primeira metade da temporada 2025-26, o Forest Green Rovers se colocou como postulante ao acesso.

O futebol pode não ser a principal prioridade de Dale Vince, mas não é deixado de lado. Assim, o time mais verde do mundo vai se consolidando não apenas como um expoente do combate à crise climática em um ambiente flagrantemente retrógrado, mas também cresce como equipe esportiva. Altos e baixos são parte do processo.

Wladimir Dias

Idealizador d'O Futebólogo. Advogado, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Escrita Criativa. Mestre em Ciências da Comunicação. Colaborou com Doentes por Futebol, Chelsea Brasil, Bundesliga Brasil, ESPN FC, These Football Times, revistas Corner e Placar. Fundou a Revista Relvado.

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