ASEC Mimosas: a exceção possível na África
MUITO ANTES de revelar nomes como os de Yaya e Kolo Touré, Bonaventure e Salomon Kalou, Emmanuel Eboué ou Gervinho, ou de conquistar a Liga dos Campeões africana, o ASEC Mimosas já mostrava por que se tornaria o time mais bem-sucedido da Costa do Marfim. Mais do que isso, tornou-se referência internacional quando o assunto é vencer.

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Em 12 de julho de 1960, o New York Times noticiava que quatro estados africanos haviam se tornado independentes, entre eles a Costa do Marfim. Em 7 de agosto, as formalidades foram concluídas e o novo status foi oficializado. O campeonato nacional de futebol não demorou a surgir. Os primeiros títulos passaram pelas mãos de Onze Frères de Bassam (duas vezes) e Stade d’Abidjan.
Em 1963, o ASEC Mimosas, a Associação Esportiva dos Trabalhadores do Comércio, conquistou o título. Foi a primeira glória de um total que chegaria, até 2025, a 29 — recorde absoluto.
O time de Abidjan, maior cidade do país, foi fundado em 1948 por empresários da África Ocidental vindos de Benin, Burkina Faso, Costa do Marfim, Gana, Togo e Senegal, além do Líbano e da França. Já em 1960, com a aprovação da Lei n° 60-315, recebeu oficialmente o estatuto de associação sem fins lucrativos, o que já estava impregnado na ideia original.
Os fundadores buscavam fomentar um ambiente de desfrute, justificando o lema estabelecido por seu terceiro treinador, que também atuava como jogador, Guy Fabre: que les enfants s’amusent. Que os jovens se divirtam. Seriam eles os responsáveis pelo crescimento da equipe, como o tempo provaria.

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A primeira conquista foi uma glória isolada e que só voltou a ocorrer em 1970, quando o time já contava em seus quadros com Laurent Pokou, a estrela que levou a Costa do Marfim à quarta colocação da Copa Africana de Nações daquele ano, com artilharia (oito gols) e eleito melhor jogador. Ele também ficaria em segundo no prêmio de melhor africano do ano e, mais tarde, faria sucesso defendendo Nancy e Rennes.
Aquela década mostrou que o time estava destinado a ser grande, com conquistas em 1972, 73, 74 e 75. Quando voltou a vencer, em 1980, Pokou já havia retornado de suas aventuras na França. No entanto, o decênio foi marcado pelo domínio do rival Africa Sports, até que Les Mimos buscaram sua essência, ainda que cercados por ingerência política.
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Em 2016, em uma dura matéria intitulada A miséria do futebol africano, os franceses do Le Diplomatique destacaram que o ASEC Mimosas é uma exceção não apenas na Costa do Marfim, mas por toda a África Subsaariana.
“Georges Ouegnin era o braço direito do presidente Houphouët. Diretor do Protocolo da Presidência da República, era considerado o número dois do regime”. Conhecido como Le Vieux, Houphouët presidiu a Costa do Marfim de 1960 a 93. Foi um período sem guerras, mas marcado por autoritarismo e ausência de oposição — cenário que desembocaria em violência crescente e recessão econômica.
O irmão de Georges Ouégnin, Roger, assumiu a presidência da equipe em 19 de novembro de 1989, e utilizou sua influência para torná-la viável e bem-sucedida. Seu principal investimento foi em Sol Béni, o centro de treinamento da equipe, em que também funciona a prestigiosa Académie MimoSifcom, onde acontece a formação de jovens atletas.

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“A melhor escola do país capacita 45 futuros jogadores profissionais, com idade entre 12 e 18 anos. Escolhidos a dedo, esses jovens são geralmente dos bairros pobres da capital. O orçamento anual de 300 mil euros é totalmente fornecido pelo grupo agroindustrial Sifca, o maior empregador da Costa do Marfim, com 30 mil empregados”, aponta a reportagem.
O lema da academia não deixa dúvidas sobre seu viés de trabalho: Plus l’homme grandit, plus la chance du footballeur est grande. Quanto mais o homem cresce, maiores as chances do futebolista.
No local, a ênfase não fica apenas no futebol. São fornecidos ensino formal, alimentos e alojamento. É um ambiente raro, que teve no francês Jean-Marc Guillou, convocado para a Copa do Mundo de 1978, o idealizador de um método. O antigo meio-campista foi contratado para dirigir o clube em 1993, mas sua ação teve um escopo muito mais amplo e ele participou de vários processos do clube.
Ainda assim, após o sucesso de Jean-Marc Bosman na ação judicial que autorizou o livre trânsito de atletas com nacionalidade europeia pelos países da União Europeia, bem como do advento do Acordo de Cotonou, que com algumas peculiaridades estendeu essa liberalidade aos cidadãos africanos, os jovens de Sol Béni partem cada vez mais cedo para a Europa, sobretudo por terem formação reconhecida e valorizada internacionalmente.

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“Aprendi muito na escola e, acima de tudo, aprendi a me tornar um homem. Não foi só chutar bola: nós estudávamos futebol, sua técnica. Chamávamos isso de aulas de tecnologia. O que é um chute? Um chute curto, com efeito? O que é qualidade tática, física? A gente discutia isso durante horas. Guillou nos ensinou futebol misturando teoria e prática. Essa era a força dele”.
O comentário é de Roméo Affesi, atleta formado no ASEC Mimosas e que defendeu os belgas do Beveren, clube que fora treinado por Guillou e que possuía laços estreitos com o Mimosas. A parceria visava valorizar os talentos individuais, os esforços da academia de formação, e mitigar os efeitos da Lei Bosman e do Acordo de Cotonou.
As transferências, porém, costumam ser módicas. Em 2002, o Arsenal pagou 150 mil libras para contratar Kolo Touré. Os Gunners tinham vínculo com o Beveren, facilitado pelo fato de que seu treinador, Arsène Wenger, fora auxiliar de Guillou no Cannes ainda nos anos 1980.

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Os esforços de Roger Ouégnin deram resultados também dentro dos campos.
Um de seus primeiros trabalhos foi nomear o francês Philippe Troussier, le Sorcier blanc, como novo treinador da equipe. O francês encerrara a carreira de jogador no início da década de 1980 e a de comandante estava ainda no início. A partir da ida para a Costa do Marfim, tornou-se referência no futebol africano.
Entre 1989 e 94, o ASEC Mimosas passou 108 partidas domésticas sem perder, estabelecendo um recorde que não foi superado. Foram 96 vitórias e 12 empates. Os marfinenses ultrapassaram o Steaua Bucareste, da Romênia, que obtivera uma invencibilidade de 106 jogos, entre 1986 e 89.

Parte dessa jornada ocorreu também sob as lideranças de Eustache Manglé, que jogou no clube ao lado de Laurent Pokou nos anos 1960 e 70, e do suíço Charles Rössli. Isso porque Troussier teve seu sucesso reconhecido e assumiu a seleção da Costa do Marfim em 1993, logo após o título da Copa Africana de Nações do ano anterior, em que nove dos 22 selecionados atuavam no ASEC Mimosas.
O período de sucesso contínuo foi coroado com os títulos nacionais de 1990 a 95 e, desde então, apesar de breves períodos de seca, o time não parou de vencer. As categorias de base continuaram sendo um chamariz, o que os rivais não conseguem acompanhar.
“O clube não tem meios de progredir. Eu corro por todos os lugares para fazer como o ASEC. O Africa Sports está sendo cedido para um investidor belga”.
O apontamento, feito em 2016, é de Alexis Vagba, presidente do clube que é o segundo maior vencedor da história da Costa do Marfim, com 18 títulos nacionais, e que chegou a contar com o goleador nigeriano Rashidi Yekini.

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Depois do título africano de 1998, o ASEC Mimosas continuou mostrando força. No ano seguinte, na vitória na Supercopa da África, já contava com Barry Boubacar no gol, Kolo Touré na defesa, Didier Zokora e Yapi-Yapo no meio de campo. Eles estiveram presentes em 2006, quando a Costa do Marfim disputou sua primeira Copa do Mundo. Naturalmente, já estavam espalhados por equipes europeias.
Era um sucesso da nação, mas também um momento de aclamação do ASEC Mimosas. O time que, apesar de perder seus talentos cada vez mais cedo, continua produzindo-os, e se orgulha de um recorde que dificilmente será superado. Não é o modelo perfeito, mas é o possível.

