A epopeia europeia do Dynamo de Kiev de Shevchenko e Lobanovskyi

UM DOS CENTROAVANTES MAIS PROLÍFICOS da história do futebol, lembrado sobretudo pela passagem pelo Milan, Andriy Shevchenko deve sua carreira ao Dynamo de Kiev, clube em que deu seus primeiros passos como futebolista profissional. Com a camisa capitalina, reinou em solo doméstico e chegou perto do lugar mais alto do principal pódio continental. Tudo isso sob o comando do treinador mais importante da história do futebol ucraniano: Valeriy Lobanovskyi.

Shevchenko Dynamo Kiev

Foto: Reprodução

Sinônimo do Dynamo

Ainda que tenha sido jogador de talento, Lobanovskiy tem lugar cativo na história pelos feitos de fora das quatro linhas. Paralelamente ao que acontecia na Holanda dos anos 1970, construiu uma outra imagem do Futebol Total.

À sua maneira, forjou um time disciplinado, adepto da marcação pressão e com destacada consciência coletiva — nada muito diferente da famosa proposta de Rinus Michels, seja à frente do Ajax ou da seleção holandesa. O Dynamo adentrou os livros de história, com conquistas nacionais e internacionais, desenvolvendo o talento de Oleh Blokhin.

Duas décadas depois, já no fim da vida, voltou pela quarta vez à equipe kievana — a terceira como treinador. As anteriores haviam sido notáveis e vitoriosas, mas nenhum de seus antigos comandados remanescia e o clube vivia momentos de tensão fora das quatro linhas: o Dynamo fora suspenso por três temporadas das competições da UEFA.

Lobanovskiy Dynamo

Foto: Reprodução

A investigação concluiu que o clube tentou subornar o árbitro espanhol Antonio Lopez Nieto, antes de uma partida da Liga dos Campeões em 1995, contra o Panathinaikos. A punição foi revista e os ucranianos ficaram alijados, apenas, da disputa da competição na própria temporada 1995-96.

Lobanovskyi retornou em 1997 e, rapidamente, levou a equipe a feitos memoráveis. A maior estrela era Andriy Shevchenko, garoto que ascendera aos profissionais do Dynamo em 1994 e, desde a temporada 1995-96, empilhava gols e chamava a atenção internacional, tanto que logo se tornou selecionável.

Ensaio geral

Em 1997-98, o Dynamo disputou a Liga dos Campeões e fez papel honroso. Após despachar o modesto Barry Town, do País de Gales — e passar apertado pelos dinamarqueses do Brondby —, chegou à disputa da fase de grupos e superou um desafio impressionante.

Azarão no Grupo C, deixou Barcelona, Newcastle United e PSV Eindhoven comendo poeira e avançou com a liderança. Só perdeu uma vez, para a equipe inglesa e fora de casa. Por outro lado, soterrou os catalães em duas oportunidades: em casa, venceu por 3 a 0; em pleno Camp Nou, massacrou, com direito a hat-trick de Sheva: 4 a 0.

 

No entanto, os feitos mais incríveis da equipe ficaram para a temporada seguinte. Embora tenha avançado às quartas de finais, parou na Juventus (5 a 2, no placar agregado), que havia sido vice-campeã e voltaria a sê-lo, perdendo para o Real Madrid. Com o tetracampeonato ucraniano, o Dynamo voltou à competição europeia em 1998-99.

A hora da verdade

Pelo segundo ano consecutivo, os comandados de Lobanovskyi demoliram o pequeno Barry Town e passaram dificuldades na fase seguinte, eliminando o Sparta Praga nos pênaltis. Assim, chegaram ao Grupo E, dividido com Lens, Arsenal e Panathinaikos. O avanço, outra vez, foi com louvor e apenas uma derrota, para o coletivo grego.

Ainda impulsionado pelos gols de Shevchenko e de seu fiel escudeiro, Serhiy Rebrov, o Dynamo voltou às quartas de finais, mas dessa vez foi além O rival foi o Real Madrid, campeão da edição anterior e que alinhava figuras como Roberto Carlos, Fernando Hierro, Fernando Redondo, Clarence Seedorf e Raúl.

Na partida de ida, os madrilenos abusaram de perder gols; Guti isolou chute após boa trama, Fernando Morientes parou em Oleksandr Shovkovskiy e Raúl cabeceou bola perigosa. Os ucranianos deram trabalho ao goleiro alemão Bodo Ilgner, sobretudo em chutes de fora da área. Porém, foi de uma jogada inusitada que saiu o primeiro tento da partida. Shovkovskiy bateu o tiro de meta, a bola foi escorada no meio do caminho e Shevchenko ganhou campo para avançar e balançar as redes, prenunciando o que viria a seguir. De falta, Predrag Mijatović empatou: 1 a 1.

 

Em Kiev, um contragolpe em vertiginosa velocidade só foi parado quando Ilgner puxou Sheva pelas pernas. O pênalti foi cobrado pelo centroavante e defendido pelo arqueiro. No rebote, o goleador não perdoou. Já o segundo gol foi uma verdadeira pintura, a perfeita execução do que Lobanovskyi sempre enxergou como seu ideal de jogo.

A bola foi recuperada na defesa, trabalhada com critério, paciência e movimentação constante do time. Shevchenko deu o passe à frente, ganhou metros, recebeu a bola novamente, tabelou e foi colocado de frente para Ilgner, que nada pôde fazer. O Dynamo estava nas semifinais: 2 a0.

No meio do caminho, os alemães

Quis o destino que os ucranianos voltassem a enfrentar o futuro vice-campeão, agora o Bayern de Munique. Apesar da derrota, 4 a 3 no placar agregado, o time de Lobanovskyi não deu vida fácil aos bávaros. Na capital ucraniana, Shevchenko colocou o Dynamo em vantagem. Primeiro, foi lançado em velocidade, superou a defesa alemã e tocou na saída de Oliver Kahn. A seguir, cobrou falta que não desviou em ninguém e estufou as redes. Porém, também de falta, Michael Tarnat diminuiu para o Bayern, que foi para o vestiário em desvantagem.

No retorno do intervalo, pouco após despediçar chance evidente, com o gol aberto, o Dynamo chegou ao terceiro tento, marcado por Vitaliy Kosovskyi. No entanto, a persistência alemã se fez presente. Embora os anfitriões fossem mais perigosos, Stefan Effenberg marcou de falta e Carsten Jancker, livrando-se de seu marcador dentro da área ucraniana, deu números finais ao encontro: 3 a 3.

 

Em Munique, Kahn parou os visitantes e Mario Basler, deixando dois marcadores para trás e finalizando com maestria de fora da área, marcou o solitário tento que colocou os germânicos na final.

“Não chorei após a partida, mas meu desapontamento foi profundo. […] Ainda estou certo de que o Dynamo era mais forte naquela temporada; os alemães, basicamente, tiraram três gols do nada”, afirmou Kosovskiy, em 2009, ao site oficial da UEFA.

À espera de mais uma grande geração

Sheva foi o artilheiro da competição com oito gols, ao lado de Dwight Yorke, do campeão Manchester United. Porém, com o fim do sonho continental, partiu para o Milan. Vestindo vermelho e preto, ganharia a competição continental em 2002-03, vingando-se da Juventus na decisão.

Shevchenko Milan 1999-00

Foto: Reprodução

Lobanovskyi permaneceu no Dynamo até 2002. Porém, sem sua estrela e apesar do domínio doméstico, não repetiu grandes feitos continentais. Ele faleceu em plena atividade, após  sofrer com complicações decorrentes de um AVC, ocorrido em maio daquele ano. Tinha 63 anos.

O histórico time kievano tinha jogadores históricos, como o goleiro Shovkovskiy, os defensores Kakha Kaladze e Oleh Luzhny, além do meia bielorrusso Valyantsin Byalkevich e do excepcional Rebrov, no ataque. Contudo, foram a mente do treinador e o coração do artilheiro, que levaram o Dynamo às mais emocionantes noites europeias de sua história.

Wladimir Dias

Idealizador d'O Futebólogo. Advogado, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Escrita Criativa. Mestre em Ciências da Comunicação. Colaborou com Doentes por Futebol, Chelsea Brasil, Bundesliga Brasil, ESPN FC, These Football Times, revistas Corner e Placar. Fundou a Revista Relvado.

Sem Resultados

  1. Unknown disse:

    Kakha Kaladze tb jogaria no Milan futuramente!

  2. Wladimir Dias disse:

    Por muitos e muitos anos!

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