Kaizer Chiefs vs. Orlando Pirates: o derby de Soweto
CIDADE DO CABO é a capital legislativa da África do Sul. Pretória, a executiva. Bloemfontein, a judiciária. Joanesburgo, a do futebol — mais especificamente, Soweto, uma das maiores aglomerações populacionais do entorno da cidade; local de história e importância singulares.

Foto: Kaizer Chiefs
South Western Townships, ou simplesmente Soweto, foi originalmente um município independente e sua história se confunde com a do país. A township, compreendida como um distrito, área suburbana e segregada destinada à sobrevivência de populações não brancas, começou a se expandir muito antes de sua fundação oficial.
Na década de 1880, ainda no século XIX, a descoberta de ouro levou para a região populações de diversas etnias e origens.
Fundada oficialmente em 1930, Soweto serviu originalmente de casa para os trabalhadores das minas de ouro. No entanto, com a instituição do Apartheid em 1948, recebeu um contingente populacional imenso, decorrente da expulsão dos não brancos dos territórios brancos. Assim, desenvolveu-se o principal foco da resistência ao regime de segregação racial, servindo de morada para dois futuros vencedores do prêmio Nobel da Paz, Nelson Mandela (1993) e o padre Desmond Tutu (1984) — ícones da luta pelo fim do Apartheid.

Foto: Reprodução
Em 1976, o local ganhou fama internacional com a Revolta de Soweto, como ficou conhecido o dia 16 de junho de 1976.
A disputa levou milhares de estudantes às ruas para protestar contra o ensino obrigatório do Africâner e a supressão das línguas locais. O resultado foi forte repressão policial que, além de causar indignação humanitária mundial, gerou uma das imagens mais chocantes de todo o período de segregação institucionalizada, em que um jovem de 18 anos carrega outro, de 13, morto.
Foi nesse ambiente que, em 1937, surgiu formalmente o Orlando Pirates. Tudo começou no Orlando Boys Club, um antigo clube local, quando Andries Mkhwanazi, instrutor de boxe, decidiu encorajar alguns de seus orientandos a jogar futebol. Em um ano, ainda sem chuteiras e uniforme, já disputavam torneios de divisões inferiores da Associação de Futebol dos Bantos de Joanesburgo.
Ainda não havia começado a década de 1940 quando o braço futebolístico foi desligado do clube original e passou a caminhar só. Seu emblema, com uma caveira tipicamente associada a piratas, foi inspirado no filme O Gavião do Mar, estrelado por Errol Flynn.

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O Kaizer Chiefs, por sua vez, nasceu em 1970 e tem sua origem intimamente ligada ao clube que se tornaria seu grande rival. O sul-africano Kaizer Motaung, atacante formado no Orlando Pirates, retornou ao país após um período jogando no Atlanta Chiefs, no futebol estadunidense, e, ciente de que alguns ex-companheiros haviam sido expulsos de seu clube original, decidiu fundar outro.
Diante desse cenário, a rivalidade se fundamentou em dois pontos principais. Além do fator local, da disputa territorial pela supremacia em Soweto, pesou a ruptura protagonizada por Motaung. Ele optou por não retornar ao clube de origem e fundou um rival direto, que viria a enfrentar e superar em diversas ocasiões — inclusive com oito gols marcados contra sua antiga equipe.
A primeira vez que se encararam foi em 24 de janeiro de 1970, pela Rogue Challenge Cup, apenas 17 dias após a fundação dos Amakhosi — “Os Chefes”, na língua Zulu. Até a data de atualização do texto, os rivais sul-africanos se enfrentaram 183 vezes. A vantagem é do Kaizer Chiefs que venceu em 75 ocasiões. Já os Buccaneers (“Os Bucaneiros”) levaram a melhor 49 vezes. Aconteceram ainda 54 empates e 5 partidas foram abandonadas, sem que algum resultado fosse declarado.

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Em 2001, a rivalidade foi atravessada por seu episódio mais trágico. Antes de um clássico entre Kaizer Chiefs e Orlando Pirates, no Ellis Park, em Joanesburgo, a superlotação do estádio e falhas graves de controle de acesso provocaram um tumulto que resultou na morte de 43 torcedores. A tragédia expôs de forma brutal a precariedade estrutural do futebol sul-africano e marcou a memória do clássico, traçando novos limites entre paixão popular, organização institucional e responsabilidade do poder público.
Em capítulos mais felizes, há equilíbrio nos títulos. Considerando todos os formatos que o campeonato nacional teve a partir de 1971, o Orlando Pirates conquistou nove, além de 10 taças da Copa da África do Sul e mais duas da Copa da Liga. O time também venceu a Champions League africana uma vez, em 1995, superando os marfinenses do ASEC Mimosas.
Do outro lado, o Kaizer Chiefs levou o título nacional 12 vezes, a copa 14 e a copa da liga 13. Mais: alcançou a Recopa Africana em uma oportunidade, superando os angolanos do Inter de Luanda, em 2001.
Ao longo dos anos, a disputa tem sido tão mordaz que pouquíssimos atletas atuaram pelos dois clubes, entre eles os laterais Jimmy Tau e Sizwe Motaung, os meias Arthur Zwane, Jabu Mahlangu, Stanton Fredericks, Thabang Lebese, Marcus Mphafudi, Gert Schalkwyk, Dumisa Ngobe e Marc Batchelor e os atacantes Collins Mbesuma, Pollen Ndlanya e Siyabonga Nomvethe, este um dos principais destaques da seleção sul-africana durante os anos 2000.
Em vários momentos, o time nacional contou com atletas dos Amakhosi e dos Buccaneers. Um dos momentos mais marcantes aconteceria na abertura da Copa do Mundo de 2010, quando Siphiwe Tshabalala, que atuava no Chiefs, marcou o golaço inaugural do certame.
O clássico entre Orlando Pirates e Kaizer Chiefs não se explica apenas pelo número de confrontos, títulos ou ídolos. Ele nasce de um território específico, marcado por deslocamento, ruptura e organização coletiva, e se sustenta como expressão contínua dessa história.
* Texto editado e atualizado em 09 de fevereiro de 2026

