Míchel e Girona: o futebol levado às últimas consequências
SE MIGUEL ÁNGEL SÁNCHEZ MUÑOZ tivesse aceitado o mundo como lhe fora apresentado, o melhor Girona da história não teria existido. Uma equipe memorável não surgiria de um conformista. Era preciso escapar do machismo da criação e da arrogância da juventude; observar, pensar e aprender. Enfim, ensinar.

Foto: David Borrat
Na primeira metade dos anos 1990, o futuro permitia sonhos. Desde a cantera do Rayo Vallecano, seu talento chamava a atenção; chamado ao Mundial Sub-20 de 1995, cumpriu bom papel em meio a figuras como as de Raúl González, Míchel Salgado, Iván de la Peña e Joseba Etxeberria, artilheiro do certame. Disputou todas as partidas e, inclusive, deixou sua marca contra o Chile.
Ali, no então remoto Catar, anos antes da revolução conjunta promovida pela combinação de internet, smartphones e redes sociais, Míchel apenas aspirava ser um grande jogador. “Foi uma experiência maravilhosa”, contou ao Sport. “Me lembro de caminhar pelas ruas e começar a tocar uma sirene muito forte de algum alto-falante. De repente, as pessoas iam rezar no meio da rua”.
Em uma existência menos veloz e mais tediosa, os detalhes eram mais facilmente distinguidos e provocavam mais aguçada curiosidade. Ainda assim, a sensibilidade para notá-los sempre foi uma peculiaridade típica de algumas personalidades, não um traço comum ao coletivo. Detalhes.
O caminho para Girona
Míchel foi, essencialmente, um jogador do Rayo. Foram mais de 300 jogos pelos Franjirrojos, em três passagens: 1993-96, 1997-03 e 2006-12. Também começou a carreira de treinador ali mesmo, em Vallecas. O processo começou imediatamente após pendurar as chuteiras.
Dos bastidores, viu Paco Jémez causar frenesi, liderando o clube a sua melhor colocação histórica em La Liga, um 8º lugar na temporada 2012-13. A dupla de meio-campistas formada por Javi Fuego e Trashorras personificava o tiki-taka dos pobres, um mais tático, outro mais criativo. Era um time com identidade ofensiva e que não se contentava com bons resultados. Sem surpresa, marcou 50 gols, mas sofreu 66.

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Míchel foi um aluno exemplar na escola Rayo. “Minha paixão pelo futebol nasce com Maradona. Depois, com a Quinta del Buitre e o Dream Team. Eram dois estilos diferentes da fúria espanhola […] Como técnico, comecei com Paco Jémez. Fui diretor de metodologia do Rayo e desenvolvi na cantera o estilo ofensivo que Paco trazia para o time principal. Esses anos me deram muita informação”, contou ao La Vanguardia.
Foi necessário amadurecer. Na juventude, frustrava-se quando não era escalado e ouvia sempre o mesmo — com a bola, era um jogador de muito bom nível, mas faltava uma dose de comprometimento defensivo. Como técnico, proclama: “O talento é bom, mas é preciso fazer o companheiro crescer e entender o jogo. Trabalho, não improviso. A segurança de um jogador, oferecem-lhe os outros dez”.
Um dia no final de fevereiro de 2017, a oportunidade chegou e Míchel assumiu o posto máximo, junto aos profissionais do Rayo. Ele substituiu Rubén Baraja, que já assumira no lugar de José Ramón Sandoval. O time enfrentava dificuldades na segunda divisão, lutando contra o descenso. Apesar da derrota na estreia, 1 a 0 para o Getafe, ele deu a volta por cima.

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O Rayo terminou a temporada 2016-17 numa crescente e arrancou para o acesso no ano seguinte. O título veio com o melhor ataque da competição (67), apesar dos 48 tentos sofridos, que posicionaram a equipe como a 9ª defesa menos vazada. Raúl de Tomás, autor de 24 gols, brilhou —assim como o ponta Adri Embarba, com 14 assistências.
Uma sequência de sete derrotas consecutivas no retorno à elite, em 2018-19, selou a saída do comandante e o retorno de Paco Jémez. Míchel não demorou para assinar um novo contrato; em agosto de 2019, começou um novo trabalho.
O Huesca foi o escolhido e um novo acesso à primeira divisão espreitava. Mais um título confirmou-se, desta vez, com mais equilíbrio. A equipe aragonesa teve o 4º melhor ataque (55) e a 4ª melhor defesa (42). Porém, a história se repetiu e após uma sequência de seis partidas sem vencer (1E e 5D), Míchel foi demitido. 
Meses depois, voltava à La Liga 2. Desta vez, com a missão de levar o Girona de volta a um lugar com o qual não estava acostumado.
O melhor Girona de sempre
De volta à estaca zero. O Girona, que chegou à elite pela primeira vez em 2017-18 e se tornou parte do Grupo City, estava de volta ao escalão de acesso, assim como seu novo treinador. Veterano nesse ambiente, Míchel colocou os catalães entre os seis primeiros e o sucesso nos confrontos diretos com o Real Oviedo permitiu que, apesar do empate em pontos, o Girona disputasse os playoffs.
Liderando o meio-campo, Aleix García, Ivan Martin e Alex Baena conectavam presente e passado, emulando traços da dupla formada por Javi Fuego e Trashorras do Rayo. No ataque, o uruguaio Christian Stuani cumpria dois papéis: o de capitão e o de liderança técnica. Aos 35 anos, marcou 22 gols e foi um dos artilheiros do certame. O acesso foi decidido contra o Tenerife, com vitória por 3 a 1.

Foto: David Borrat/EFE
O time começou a competição com um 4-2-3-1 e terminou alinhando um 3-5-2. O protagonismo do passe, porém, manteve-se. O Girona registrou a 5ª maior média de posse de bola da competição (54,5%) e o segundo maior número de passes certos trocados por jogo (385,2).
Individualmente, enquanto o zagueiro Juanpe liderou em passes certos por partida (57,6), seu companheiro de retaguarda, Arnau Martínez, ficou na vice-liderança do ranking de grandes chances criadas (14). Até os defensores jogavam avançados.
Em uma temporada, Míchel tornou o coletivo catalão sua imagem e semelhança e o Estadi Montilivi sorriu. “O futebol te ensina que é preciso trabalhar até o último minuto”, comentou Míchel após a conquista.
De volta à elite, o time passou a se beneficiar cada vez mais de seu lugar no Grupo City. De Nova York, chegou Taty Castellanos; de Manchester, Yangel Herrera e Yan Couto. O clube também abriu os cofres e concluiu negócios bem pensados, com as chegadas do lateral esquerdo Miguel Gutiérrez, do volante Oriol Romeu e do ponta Viktor Tsygankov.

Foto: Girona FC
Nenhuma contratação aleatória. O resultado veio na tabela de classificação: um 10º lugar histórico.
Apenas Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid marcaram mais tentos que o Girona (58). O clube confiou em Míchel mesmo diante de uma sequência de sete partidas sem vitória, entre as rodadas 6ª e 12ª. A aposta foi recompensada. E a equipe não era toda ataques inconsequentes. Contra o Real, no Santiago Bernabéu, segurou um 1 a 1; no Camp Nou, parou o Barça (0 a 0).
Mas havia espaço para mais.
O Girona da Europa
A temporada 2023-24 trouxe o brilho que faltava ao projeto. Se era preciso aumentar a capacidade de desequilíbrio no ataque, Savinho a trouxe. Se os 13 gols de Castellanos não bastaram no ano anterior, o ucraniano Artem Dovbyk tratou de superá-los. Além deles, peças como Daley Blind e Paulo Gazzaniga — velho conhecido de Míchel dos tempos do Rayo — agregaram experiência.

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Era a hora de as ideias do treinador se consolidarem. Passadas 13 rodadas de La Liga 2023-24, o Girona era o líder pela primeira vez em 93 anos de história. Até o 23º confronto, perdeu apenas uma vez (17V e 5E), para o Real Madrid. No meio do caminho, silenciou Montjuïc, vencendo o Barcelona por 4 a 2.
O 4-2-3-1 preferido de Míchel atingiu sua versão mais madura. Pela direita, Yan Couto e Tsygankov se alternavam: quando um preenchia o corredor, o outro se metia nas zonas centrais. O mesmo acontecia na esquerda, com Blind (ou Miguel Gutierrez) e Savinho.
Quem mais se beneficiou do entrosamento pelos corredores, somado à capacidade dos meio-campistas de gerir a posse, foi Dovbyk. Ele cumpriu à risca sua função, marcou 24 gols e foi o artilheiro da competição. Aliás, mostrando total integração coletiva, o centroavante também entregou 8 passes para gols — marca inferior apenas à registrada por Savinho (10) e igualada por Yan Couto.
O time aprendeu, também, a se defender melhor. Mantendo um desenho de 4-2-3-1, ocasionalmente transmutado em 4-1-4-1, aceitou o bloco médio-baixo como regra e contou com o compromisso integral de seus pontas na recomposição; aproximou-se de sua própria ideia de plenitude do futebol: jogar agrupado em todas as fases do jogo.
“O pequeno detalhe é que a saída de bola agora é muito mais limpa. A chegada de Daley Blind pela esquerda, sua perna natural, nos deu os dois perfis, nos deu uma riqueza espetacular na saída de bola. E, na frente, estamos falando de 73 gols gerados, muitos pela capacidade de jogo por fora que temos com Yan, Viktor, Portu e Sávio, que para mim é o jogador que mais chama a atenção de todos […] fomos imprevisíveis no ataque. Soubemos ajustar”, comentou Míchel à Cadena SER.
O final da temporada não poderia ter sido melhor: vitória por 7 a 0 contra o Granada. A tabela não podia dizer outra coisa: em 2024-25, o Girona joga a Liga dos Campeões pela primeira vez. Seus 81 pontos só foram superados por Real e Barça. Os 85 gols ficaram atrás apenas dos 87 madridistas.

Foto: Girona FC
“Girona me apaixona, roubou meu coração”, garantiu Míchel. Como poderia ter sido diferente?
Um homem do Rayo… e do Girona
“Quero que a maioria do elenco permaneça conosco para o ano que vem na Liga dos Campeões”. A frase de Míchel à Cadena SER revelou-se impossível de concretizar. O sucesso muitas vezes cobra caro. Especialmente quando se é um clube de futebol de pequeno porte.
Savinho, que pertencia ao Grupo City, seguiu para o Manchester City. Aleix García se juntou ao treinador Xabi Alonso no Bayer Leverkusen, enquanto Dovbyk rumou à Cidade Eterna, para defender a Roma. Yan Couto acertou com o Dortmund. O sonho se converteu rapidamente em pesadelo e o Girona acordou assustado.
Mesmo como uma ideia definida pelo treinador, as reposições não entregaram os resultados esperados. Jogadores como Yáser Asprilla e Ladislav Krejci, que somaram mais de 30 milhões de euros gastos, não mantiveram os elevados padrões da equipe. Nem promessas falhadas, como Bryan Gil, Donny van de Beek e o brasileiro Arthur Melo. A estrutura se manteve, mas, sem o mesmo talento, começou a ruir.

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Com menos qualidade e um calendário mais inchado, o Girona não suportou a demanda. Na Liga dos Campeões, terminou a fase de liga na 33ª posição, com apenas uma vitória em oito partidas — cinco gols marcados e 13 sofridos. Restou a experiência de encarar gigantes internacionais como PSG e Liverpool.
La Liga também cobrou um preço alto e o Girona terminou em 16º lugar, com a 3ª defesa mais vazada do certame (60 gols sofridos).
Os sinais negativos continuaram e, já no início da temporada 2025-26, Míchel fez o diagnóstico: “A palavra é desapontamento. Não somos um time no momento. Ontem, disse que não estava preocupado com o mercado, mas hoje vi um time que não estava focado. Não competimos em nenhum momento”, falou à TV3, após uma derrota para o Villarreal. Era agosto ainda.
Poucas contratações foram efetivas, a do brasileiro Vitor Reis foi uma delas. A conta chegou ainda mais cara do que no ano anterior. Desequilibrado, dessa vez o time teve o 2º pior ataque do campeonato, com apenas 39 gols marcados. O desfecho da mais linda história vivida em Montilivi foi o retorno a um lugar que o Girona conhece melhor, a segunda divisão. Míchel mudou o clube, só não fez milagres.

Foto: Girona FC
Míchel buscou tudo o que estava ao seu alcance. Aprendeu catalão para se aproximar da cultura: “Não vejo isso como algo extraordinário; pelo contrário, parece natural […] Aos que criticam, digo que têm a mente fechada”. Desenvolveu-se como cidadão e aproveitou os anos em Girona para olhar também para a própria história: percebeu como sua mãe fora responsável pelo lar em que cresceu e como aquela criação a deixou sem direito a uma aposentadoria — injustiça que Míchel reprova abertamente no pai.
“Não quero dizer adeus. Não vou embora, porque estarei aqui para sempre. Meu coração estará aqui, porque tenho esse sentimento. Esse sentimento de pertencimento, essa sensação de gratidão […] Primeiro à província, porque sou um gironí a mais. Depois, à torcida pelo Míchel català que define muito bem esses cinco anos. Ao clube, porque sempre tive a confiança de todos e pude trabalhar em um lugar que me realizava como treinador”.
Míchel deixou o Girona, mas não exatamente. Cinco anos transformaram um treinador de Vallecas em um gironí. O Rayo ensinou a pensar o futebol; o Girona permitiu levá-lo às últimas consequências. Sua história continua no Ajax, em Amsterdã, enquanto o clube aprendeu a se permitir sonhar.
