O caso único de Dejan Stankovic
OS ANOS 1990 foram sinônimo de conflito nos Bálcãs. A imponente Iugoslávia, liderada com mãos de ferro pelo General Tito até sua morte, em 1980, começava a se desintegrar. Era evidente que, sem a presença de alguém capaz de se impor enquanto governante — considerando conotações positivas e negativas —, isso aconteceria.

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*A primeira versão deste texto apareceu em Revista Relvado, em 11 de janeiro de 2018
Era inviável a manutenção harmônica da união de povos de diferentes religiões, católicos, ortodoxos, protestantes e muçulmanos, e diversas etnias, sobretudo diante das crescentes tensões nacionalistas e dos desejos centralizadores da liderança sérvia. A prova veio com as guerras sangrentas que se seguiram e os massacres personificados na figura do presidente Slobodan Milosevic, que defendia ideias de pan-eslavismo e Grande Sérvia, obviamente não aceitas pelas demais nações.
Era o dia 16 de março de 1991 quando admitiu: “A Iugoslávia está acabada”. O retorno ao status quo, de fato, não aconteceria. Ainda assim, a história comportava mais capítulos. Em especial, o futebol local escreveu novas memórias, nem sempre felizes.
Poucas semanas após o título europeu do Estrela Vermelha, que superou o Olympique de Marseille e se juntou ao Steaua Bucareste como representante do Leste Europeu a vencer a Copa dos Campeões, a Guerra dos Dez Dias marcou o início da ruína irreversível da Iugoslávia. A Eslovênia declarou sua independência e a separação croata viria logo em seguida.

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Na política da bola, a Iugoslávia foi banida pela FIFA da disputa da Euro 1992 em virtude de seu protagonismo nos violentos conflitos armados de então, sendo substituída pela futura campeã Dinamarca. Já em 1996, a Croácia disputou seu primeiro torneio europeu e, em 1998, estreou com destaque na Copa do Mundo. Já muito reduzida, nesse mesmo ano, a Iugoslávia também viajou à França, contando com um camisa 20 talentoso, um certo Dejan Stankovic — que estava de mudança, trocando o Estrela Vermelha pela Lazio.
O elenco reunia nomes importantes e carregava parte da herança do título europeu do Estrela Vermelha, com jogadores como Vladimir Jugovic, Dejan Savicevic, Sinisa Mihajlovic e Predrag Mijatovic, então no Real Madrid. Avançou aos mata-matas, com o segundo lugar do Grupo F, ficando atrás da Alemanha. Contudo, no caminho até o reconhecimento de seus craques, havia uma geração fabulosa de jogadores holandeses, nas oitavas de final. A derrota por 2 a 1 sinalizou a última participação em mundiais dos iugoslavos. Mas a história não acabava ali.
Fora dos campos, a tensão persistia. Croácia, Bósnia e Herzegovina, Eslovênia e Macedônia já haviam se desligado do braço central iugoslavo, que, com a queda de Milosevic, mais tarde julgado pelo Tribunal Penal Internacional de Haia, passaria a ser conhecido como Sérvia e Montenegro.
À parte de uma década de sangue derramado, a Iugoslávia jogou as eliminatórias da Copa do Mundo de 2002. Não se classificou. A geração de 1998 envelhecera e os jovens da vez não inspiravam confiança.
Entre uma dissolução e outra, Stankovic permanecia. Em 2006, agora representando Sérvia e Montenegro, voltou aos palcos mundiais. O problema é que, nos últimos meses, uma nova separação havia sido acordada. Na prática, o país já não existia e, na Alemanha, o elenco rachou.
“Meus gols na Alemanha serão dedicados exclusivamente ao povo da Sérvia. Não vou presentear os montenegrinos porque acho que há a possibilidade da existência de um Estado único”, disse o atacante Savo Milosevic, às vésperas da Copa do Mundo.
Sérvios boicotavam montenegrinos e vice-versa. Não foi à toa o atropelo sofrido perante a Argentina, em um impetuoso 6 a 0. A única participação do país em Copas terminou com três derrotas e um saldo de gols de menos oito. O extracampo afetou diretamente o lado esportivo, antes de mais uma dissolução.
Stankovic chegava ao auge da carreira. Jogador da Internazionale, era o principal líder técnico da seleção.
Em 2010, enfim separada de Montenegro, a Sérvia foi à sua primeira Copa do Mundo. Aos 31 anos, Dejan envergava a braçadeira de capitão. Porém, naquela altura, nem a vitória contra uma jovem geração alemã, liderada por talentos como Manuel Neuer, Mesut Özil e Thomas Müller, foi suficiente para culminar em um bom desempenho. Os sérvios perderam para Austrália e Gana e ficaram a ver navios, ainda na primeira fase.
Stankovic, o último remanescente da excelente geração noventista iugoslava, entrou para a história, não da forma como gostaria. É o único a ter jogado três Copas do Mundo por três seleções diferentes e não há perspectiva realista de que isso possa acontecer novamente, ao menos não em tempos pacíficos.

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Foram 40 jogos pela Iugoslávia, 21 por Sérvia e Montenegro e 42 pela Sérvia; marcou 15 vezes.
“Estou feliz com a marca, mas preferia vencer. É bom ter estado em três Copas do Mundo, mas eu ficaria mais satisfeito com melhores resultados”, disse em 2010.
A carreira de Dejan por seleções reflete o caos vivido por sua região. Em plena cicatrização dos horrores da Guerra dos Bálcãs, a Sérvia tenta construir uma nova identidade, dentro e fora das quatro linhas. O futebol é testemunha.

