A ascensão do Brest, da quebra à Liga dos Campeões

IMAGINE O LUGAR onde a terra acaba: a Finistère. É no departamento homônimo que fica Brest, na extremidade oeste da Bretanha. Outrora importante porto europeu, foi severamente destruída durante a Segunda Guerra Mundial. Ao menos um prédio seguiu de pé, o  estádio Francis-Le Blé, construído em 1922. Com cerca de 15 mil lugares, um pouco decadentes, parecia pequeno para grandes sonhos. Até 2023, era.

Brest classifica para Champions League

Foto: Valentine Chapuis/AFP

Com a configuração hodierna, a fundação do Brest data de 1950, após a fusão de cinco clubes locais. Símbolo de uma cidade com menos de 150 mil habitantes, acostumou-se a praticar um futebol aquém da relevância da própria cidade; insuficiente, por exemplo, para estabelecer a equipe na elite do futebol francês. Frequentemente, praças menores, como Metz, Nancy, Cannes ou Ajaccio, faziam melhor.

A primeira tentativa nos anos 1980

Após o vice-campeonato na Ligue 2 de 1979-80, o Brest chegou à Ligue 1 pela primeira vez. Sem surpresa, voltou imediatamente ao segundo escalão, com aproveitamento inferior a 15% dos pontos e sofrendo 87 gols. O acesso parecia obra do acaso. Porém, em 1981-82, o time voltou e ficou.

A permanência na elite perdurou até 1987-88, no que foi a era mais gloriosa da história bretã, até então. Jogadores como os zagueiros sul-americanos Júlio César e José Luis Brown, além de Jorge Higuaín, o pai de Gonzalo, representaram o clube. Ele também revelou uma boa fornada de jovens, incluídos Vincent Guérin e Paul Le Guen, que se tornaram internacionais franceses.

Brown et Julio César jouers du Brest

Foto: Le Télégramme

Outra vez, o afastamento da Ligue 1 foi breve.

Reforçado pela presença de jogadores como David Ginola, contratado após o colapso do Racing Paris, Roberto Cabañas e Stéphane Guivarc’h, mais uma revelação do clube, o Brest se manteve na elite entre 1989-90 e 1990-91. Dali em diante, afundou-se.

O rebaixamento não aconteceu no campo, decorreu do peso das dívidas. Afinal, o presidente François Yvinec, no cargo a partir de 1981, descobriu que futebol não era um negócio tão lucrativo e o Brest foi à falência.

Yvinec du Brest

Foto: L’Equipe

“Eles querem destruir o time do Brest”, sustentou o mandatário, já no fim da gestão. “O clube opera com um orçamento ridiculamente pequeno. Essa é a essência. O Brest desafia todos esses gastadores perdulários oferecendo, de certa forma, o melhor custo-benefício”. A visão não estava errada, mas não se sustentava. Levou 19 anos para o time voltar à elite.

O erro de Yvinec, aponta seu entorno, foi ir além do possível. “Apaixonado a ponto da irracionalidade, ele perdeu o contato com a realidade para mergulhar no mundo específico, complexo e misterioso do futebol”, comentou Allain Guilloux, seu sucessor.

Por mais forte que fosse o sentimento, faltavam condições objetivas para o Brest crescer.

Muito mais baixos que altos

O retorno à elite ocorreu apenas em 2010-11; o time bretão experimentou o pior. Até 2003-04, sequer alcançou a Ligue 2.

A volta ao segundo escalão foi catapultada por aquilo que a equipe fazia de melhor: apostar em jovens talentos. Embora não tenha sido formado no Brest, Franck Ribéry chegou ao clube ainda aos 20 anos e foi o dínamo do acesso. No ano seguinte, já representava o Metz.

Franck Ribery playing for Brest

Foto: Icon Sport

Foram seis temporadas na segundona, até o vice-campeonato, em 2009-10. Um dos artilheiros da competição, Nolan Roux (15 gols), ficou entre os nomeados a melhor jogador do certame, vencido por Olivier Giroud, do Tours. No entanto, o Brest teve eleito o goleiro do ano, Steeve Elana, e o treinador da temporada, Alex Dupont. Todos seguiram no clube até 2012, quando ficou evidente o que viria a seguir.

O Brest esteve sempre perto do descenso. Uma hora, ele foi consumado. Depois de um 16º e um 15º lugares, o rebaixamento em 2012-13 foi inevitável, com a lanterna. Foram outros seis anos na Ligue 2.

Brest 2009-10

Foto: Patrick Tellier

O resgate dos irmãos Le Saint

No final de janeiro de 2025, nove anos após assumir as operações do clube, Denis Le Saint garantiu ao L’Equipe: “Quero transformar o Brest em um grande clube”. O comentário veio às vésperas da recepção do clube ao Real Madrid, pela Liga dos Campeões. Os espanhóis venceram por 3 a 0, gols de Rodrygo (2) e Jude Bellingham.

É impossível ignorar a sede dos negócios dos irmãos Le Saint, o que inclui Gérard. Como registra o Ouest-France, são 15.000 m² de instalações de onde, dia após dia, saem produtos frescos. O faturamento supera os 900 milhões de euros. O sucesso da família, cuja atuação no setor agropecuário vem de gerações anteriores, não foi construído sob os auspícios do mercado financeiro, da exploração de commodities ou das big techs.

Le Saint Food HQ

Foto: DR

Denis e Gérard Le Saint se estabeleceram distribuindo frutas, legumes, carnes e peixes a supermercados e restaurantes franceses. No final dos anos 1990, com a aposentadoria dos pais, assumiram o negócio. Foi o ponto de virada. Ameaçados por grandes varejistas, que tomaram alguns de seus clientes, os irmãos descentralizaram as operações, apostaram em subsidiárias e venceram.

Entusiastas do esporte, assumiram o comando do time de handebol do Brest em 2012. Nove anos mais tarde, ele chegou ao vice-campeonato continental. “Se não fosse por eles, não haveria esporte de alto nível em Brest”, comentou Éric Ledan, diretor comercial do time.

Neste intervalo, em 2016, tornaram-se acionistas majoritários do time de futebol. “Alguém tem que fazer isso”, apontou Gérard Le Saint, em 2018.

Gérard et Denis Le Saint

Foto: Franck Betermin

A transformação sob Éric Roy

Os irmãos não injetaram fortunas no clube. Mantiveram o controle local, priorizando parceiros bretões. Entre os patrocinadores da operação estão empresas da região como Groupe Queguiner, do ramo dos materiais de construção, Ecomiam, da distribuição de alimentos, Malo Yoghurt, dos laticínios, e Breizh Cola, dos refrigerantes.

Esportivamente, a virada veio em janeiro de 2023, com a aposta em Éric Roy. Ex-jogador, representando equipes como Lyon, Marseille e Sunderland; ex-executivo em clubes como Nice, Lens e Watford; e, ainda, ex-comentarista de TV, mas sem grande currículo como técnico, pegou um time ameaçado de queda. Em um ano e meio, transformou-o em terceiro colocado da Ligue 1.

Eric Roy treinador do Brest

Foto: Maxppp/Joël le Gall/Ouest-France

Desde o retorno à elite, em 2019-20, o Brest seguia flertando com um novo descenso. Sua melhor posição fora um 11º lugar, em 2021-22. Quando Roy assumiu, o time ocupava a 17ª posição. Na estreia, não passou de um empate sem gols contra o Lille. No entanto, duas rodadas depois, os efeitos de sua nomeação já se notavam, com uma goleada sobre o Angers, 4 a 0.

A temporada terminou com salvação, na 14ª colocação, e pavimentou o maior sucesso da história da equipe.

A melhor temporada de sempre

Em 2023-24, o Brest garantiu vaga direta na Liga dos Campeões. Pela primeira vez, alcançou uma competição internacional. Durante a campanha na Ligue 1, mostrou força até mesmo contra o Paris Saint-Germain, perdendo a partida do primeiro turno por 3 a 2 e empatando a do segundo, 2 a 2.

O milagre aconteceu sem estrelas. Roy implantou sua filosofia: intensidade coletiva acima do talento individual. Pressão alta, transições rápidas, bolas paradas letais e defesa organizada.

Marco Bizot Goalkeeper Brest

Foto: Brest

Apenas o Lille (16) marcou mais gols a partir de cobranças de faltas ou escanteios; foram 14 para o Brest. Somente Nice (29) e PSG (33) sofreram menos que seus 34 gols cedidos. Além disso, com 13 jogos sem sofrer gols, o goleiro Marco Bizot ficou atrás apenas de Marcin Bulka (17), Lucas Chevalier (16) e Brice Samba (14). Ele superou até mesmo o italiano Gigi Donnarumma.

“A vontade que nos impulsionou ao longo da temporada, com garra e talento, é o que nos motiva. Somos uma verdadeira equipe, em que todos lutam uns pelos outros, com um forte espírito coletivo. Essa é a coisa mais difícil de se construir. Parabéns a todos”, comentou Roy, à comunicação da Ligue 1.

Brest 2023-24

Foto: Brest

Enfim, futebol europeu

Em 2024-25, na estreia europeia, o Brest não fez feio. Venceu os austríacos do Sturm Graz (2 a 1) e do RB Salzburg (4 a 0), os tchecos do Sparta Praga (2 a 1) e os holandeses do PSV Eindhoven (1 a 0). Ainda empatou com o Bayer Leverkusen (1 a 1).  Suas únicas derrotas pesadas foram em contextos esperados, contra os gigantes espanhóis, Barcelona e Real Madrid, ambas por 3 a 0.

Classificado aos playoffs com o 18º lugar, viu o sonho chegar ao fim em um confronto doméstico contra o Paris Saint-Germain, que venceu a eliminatória com um agregado de 10 a 0 e, meses mais tarde, tornou-se o campeão.

 

Na Ligue 1, o sucesso não se repetiu, mas a 9ª posição não foi um fracasso.

Na corrida europeia, o time atuou em Guingamp, no Stade du Roudourou. O Stade Francis-Le Blé não atende aos padrões da UEFA. O fato recolocou na pauta uma promessa antiga dos irmãos Le Saint, um novo estádio. A Arkéa Park já foi desenhada e terá capacidade para cerca de 15 mil espectadores. O projeto, aprovado no final de 2024, aponta o custo de pouco mais de 100 milhões de euros, com conexão por bonde e captação de energia solar.

O time sobrevive à base de bom scout e desenvolvimento de jogadores: não abre mão de seus princípios e aposta em contratações de baixo custo, como Ludovic Ajorque, antigo centroavante do Mainz 05 e que custou 2 milhões de euros. Por outro lado, os destaques têm saído mais caros, como o zagueiro Lilian Brassier, vendido ao Rennes por 12 milhões.

ARKÉA PARK

Foto: Cabinet d’architecture François de La Serre

Os gestores evitam contrair dívidas e valorizam a lealdade de investidores locais. O desejo de grandeza não é novo, mas o caminho trilhado pelos irmãos Le Saint é diferente do escolhido por François Yvinec, nos anos 1980 — até mesmo porque um clube como o Brest não mais consegue contratar destaques sul-americanos em primeira mão.

Ganhar títulos é uma situação ideal, mas não é o motor das ambições do Brest. Consolidar a marca, sim. Afinal, ela é um lembrete constante do potencial que há onde a terra acaba.

Wladimir Dias

Idealizador d'O Futebólogo. Advogado, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Escrita Criativa. Mestre em Ciências da Comunicação. Colaborou com Doentes por Futebol, Chelsea Brasil, Bundesliga Brasil, ESPN FC, These Football Times, revistas Corner e Placar. Fundou a Revista Relvado.

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