A missão de Borja Valero: organizar a Inter de Milão

A TEMPORADA 2016-17 se anunciou cercada de expectativas para o torcedor da Internazionale. Com a chegada de atletas da qualidade de Ever Banega, João Mário, Antonio Candreva ou Gabriel Barbosa, além da incorporação do treinador Frank De Boer, pensava-se que o clube poderia voltar a lutar por títulos. Não aconteceu. Desorganizado, pouco produtivo e instável, decepcionou. De Boer deu lugar a Stefano Pioli, que tampouco foi exitoso. Em novo recomeço, o time aposta na experiência do técnico Luciano Spalletti; poucas contratações foram confirmadas. Uma delas, no entanto, traz o perfil e a qualidade que os Nerazzurri tanto procuram: o espanhol Borja Valero.

Borja Valero Inter

Foto: Reprodução

Aos 32 anos, Borja Valero exemplifica o clichê que é nascer na época errada. Ele começou a se destacar no momento mais vitorioso da vida da seleção espanhola. Em tempos de Xavi, Andrés Iniesta, Xabi Alonso, Cesc Fàbregas ou Sergio Busquets, só representou a Espanha uma vez. O que não condiz com sua trajetória por clubes. É impossível cravar, mas a sensação que fica é a de que em qualquer outro tempo da história do futebol espanhol, o meio-campista teria tido um volume significativo de internacionalizações.

Formado no Real Madrid, brilhou com as camisas de Mallorca, Villarreal e Fiorentina. Cerebral, construiu uma reputação. As capacidades para distribuir a bola, pensar o jogo, interpretar as ações do adversário e encontrar brechas em defesas fechadas o tornaram jogador de culto. Na Itália, não se compreendem suas frequentes ausências na seleção. A Federação Italiana considerou sua naturalização, o que foi prontamente rechaçado.

“Certa vez, fui perguntado pela FIGC se eu tinha algum parente italiano, para que eu pudesse ter também o passaporte italiano, mas eu lhes disse que só quero jogar pela Espanha”, revelou o jogador ao ABC.

O ápice em Florença

Em sua última temporada pela Fiorentina, o jogador reforçou o que se diz sobre ele. Em 31 jogos pelo Campeonato Italiano, criou 10 assistências. Apenas Mohamed Salah, da Roma, e José Callejón, do Napoli, superaram-no. Valero acertou, em média, 89,5% de seus passes e ofertou uma média de dois passes decisivos por partida. Foi, mais uma vez, o regente do jogo da Viola; é a figura que chega para recolocar o jogo coletivo da Inter em funcionamento.

Em 2016-17, notou-se a necessidade da contratação de um jogador com o perfil do espanhol. Apostou-se, assim, na chegada de Ever Banega, que fora o organizador do Sevilla nas duas temporadas anteriores, substituindo o croata Ivan Rakitic com perfeição. Contudo, o argentino não repetiu suas destacadas performances. Embora tenha marcado seis gols e construído seis assistências, não convenceu a direção azul e preta a apostar em sua continuidade.

Borja Valero Captain Fiorentina

Foto: Gabriele Maltinti/ Getty Images

A equação formulada pelo clube milanês apresenta balanço positivo: Banega saiu por 9 milhões de euros; Valero chegou por 5,5 milhões de euros. Saiu um jogador de 29 anos inadaptado. Chegou outro, de 32, mas com cinco anos de experiência na Velha Bota.

“Borja Valero pode atuar como playmaker ou trequartista, ele tem muito caráter e não se livra da bola. Ele pode atuar como um líder para os outros e precisamos de homens assim. Quero dois jogadores como ele, porque é difícil alcançar resultados focando apenas em jogadores que têm apenas 22 ou 23 anos”, disse Spalletti à Gazzetta dello Sport.

Uma das missões do novo treinador da Inter é ajudar alguns jogadores a desenvolver todo o seu potencial e fazer valer os investimentos interistas dos últimos anos.

A personificação de Spalletti no campo

A expectativa é de que Borja Valero seja a imagem e semelhança do treinador dentro das quatro linhas, um jogador para coordenar as ações dos demais; alguém para fazer aflorar a qualidade de companheiros como Geoffrey Kondogbia, Roberto Gagliardini e João Mário.

“Quero ser um jogador importante, dentro e fora do campo. Tenho muitos anos de experiência em várias ligas diferentes e sempre fui titular, não importa onde tenha ido. Espero poder contribuir com a Inter e ajudar os muitos jogadores jovens do elenco”, revelou o atleta.

Borja Valero Cesc Fàbregas

Foto: Reprodução

A aposta em Borja Valero foi levada tão a sério, que a direção Nerazzurri firmou contrato com o espanhol até o final da temporada 2019-20, quando o meio-campista terá completado 35 anos. O casamento entre clube e atleta parece se desenvolver positivamente. Avaliado como fundamental por um treinador de personalidade forte e dono de um perfil agregador, o meia é visto como alguém capaz de organizar o clube dentro das quatro linhas. Espera-se que ajude o treinador a potencializar a qualidade de alguns companheiros.

A Inter deu uma cartada certeira no sentido de se reorganizar e, a partir de então, recuperar protagonismo. Se o timing de seu amadurecimento para o futebol parece ter sido injusto em termos de seleção espanhola, o momento de Valero não poderia ser melhor para lhe render o protagonismo que, há anos, merece.

Wladimir Dias

Idealizador d'O Futebólogo. Advogado, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Escrita Criativa. Mestre em Ciências da Comunicação. Colaborou com Doentes por Futebol, Chelsea Brasil, Bundesliga Brasil, ESPN FC, These Football Times, revistas Corner e Placar. Fundou a Revista Relvado.

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