Günter Netzer, o craque que decidiu sem jogar

O PERÍODO entre o final dos anos 1960 e o início da década de 70 acompanhou uma revolução futebolística no ocidente. A Holanda e o Ajax se afirmaram os expoentes desse cenário; Johan Cruyff se tornou o protagonista do Futebol Total. Na Alemanha, por outro lado, dois times definiam os rumos da seleção: Borussia Mönchengladbach e Bayern de Munique — liderados por Günter Netzer e Franz Beckenbauer. Anos depois, enquanto o papel do Kaiser é inquestionável na conquista da Copa do Mundo de 1974 pela seleção alemã, pouco se fala em Der Rebell.

Günter Netzer Borussia Mönchengladbach

Foto: imago

Uma das estrelas do elenco da Mannschaft que conquistou a Euro 1972 — autêntico combinado de atletas bávaros e renanos —, Netzer chegou ao Mundial de 1974 como uma das maiores esperanças germânicas. Não foi à toa que envergou a camisa 10 e venceu o prêmio de jogador alemão do ano em 1972 e 73.

O Cruyff alemão fica no banco

Se algum alemão era capaz de executar função semelhante à desempenhada por Cruyff na Oranje, era Netzer. No entanto, acabou preterido em benefício do coletivo. Em sua vaga, afirmou-se Wolfgang Overath. Houve protestos da torcida e da imprensa. Nada importava que o substituto fosse também considerado um jogador talentoso — ainda que menos genial e mais confiável. O mundo queria arte e os alemães, que sediavam a Copa do Mundo, queriam Netzer.

Fosse pelos longos cabelos, a confiança nos próprios instintos, a execução de lances improváveis, ou por qualquer outro motivo de foro íntimo, o público queria o 10. Nada feito. Todos tiveram que se contentar com 21 minutos do astro durante toda a competição, justamente na famosa derrota para a Alemanha Oriental.

 

Günter Netzer não exemplificava as virtudes alemãs cultuadas ao longo do tempo, como a resiliência e a disciplina. Era indomável. Em 1972, Overath estava lesionado, dois anos depois, apareceu em plena forma. “Não recebíamos instruções do treinador. Fizemos isso sozinhos no campo e deu certo”, revelou a estrela do Gladbach ao site da UEFA. Esse tipo de atitude não convencia o treinador Helmut Schön.

Jogando com mais de 11

Apesar disso, o comandante não ignorava o talento que estava diante de si. Em segredo, como revelou David Winner no livro Brilliant Orange, Schön utilizava o 10, recém-transferido ao Real Madrid, para emular Cruyff nas sessões de treinamento, durante a preparação para a final do Mundial, justamente contra a Holanda.

“O trabalho de personificar o capitão holandês foi entregue ao recuperado Günter Netzer, que, sob protestos da imprensa alemã, havia sido substituído pelo mais confiável Wolfgang Overath. Netzer-como-Cruyff jogou tão brilhantemente que deixou Vogts em farrapos; após 20 minutos, um intervalo foi pedido e ajustes feitos. Na final, Vogts fez de Cruyff uma sombra de si mesmo”.

Cruyff Netzer

Foto: Reprodução

Berti Vogts foi humilhado pelo seu colega de clube e seleção e, segundo conta a história, aprendeu a lição. As dificuldades vividas em ambiente privado levaram ao sucesso diante do público. Netzer era capaz de provocar revoluções, como Cruyff.

Nas palavras de Wolfram Pyta, reproduzidas por Jonathan Wilson em A Pirâmide Invertida, Netzer “se tornou o favorito dos intelectuais de esquerda, que enxergavam nele alguém que rompia com as tradições culturais alemãs dentro e fora do campo, porque celebrava uma forma de jogar que representava uma mudança radical […] em especial, porque era considerado um não conformista”.

Antagonismo também na Espanha

O alemão foi o escolhido pelo Real Madrid para responder ao Barcelona, quando os catalães contrataram Johan Cruyff. Ainda que com menos páginas do que a história construída pelo eterno camisa 14 dos Culés, a história com a camisa madridista também foi escrita. A inteligência de seus passes, a beleza dos dribles e a precisão de seus chutes foram vistas no Santiago Bernabéu.

Foram 100 jogos e 13 gols, distribuídos em três temporadas. O individualista que por 10 anos foi motor do Gladbach, conquistou dois títulos espanhóis e dois da Copa del Generalísimo — levantando mais taças que o holandês. Na sequência, em 1976, partiu  para a Suíça, onde representou o Grasshoppers e encerrou a carreira.

Como a Alemanha venceu a Copa do Mundo de 1974, a história pouco recorda que Günter Netzer tenha permanecido no banco de reservas. Apesar disso, indiretamente, o meia foi decisivo para o sucesso da Mannschaft, mesmo atuando por pouco mais de 20 minutos oficiais. Lembrado ou não, está na eternidade.

Wladimir Dias

Idealizador d'O Futebólogo. Advogado, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Escrita Criativa. Mestre em Ciências da Comunicação. Colaborou com Doentes por Futebol, Chelsea Brasil, Bundesliga Brasil, ESPN FC, These Football Times, revistas Corner e Placar. Fundou a Revista Relvado.

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