O triste desfecho da Argélia em 1982
5 DE JULHO DE 1962 é um dia histórico na Argélia: representa o final de uma longa e sangrenta guerra civil, iniciada em 1954. Enfim, o país se tornava independente da França. No entanto, milhares haviam morrido, outros emigraram e parte do país estava destruída. A economia se encontrava em frangalhos. A nação saariana não disputou as eliminatórias da Copa do Mundo de 1966, em parte aderindo a um protesto em face da inexistência de vaga direta para os africanos. Na sequência, foram três insucessos entre 1970 e 78, até chegar à disputa de um Mundial.

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A estreia mundialista
A competição de 1982, sediada na Espanha, foi inusitada em alguns aspectos: o virtuoso Brasil caiu para a desacreditada Itália; Paolo Rossi ressurgiu após escândalo envolvendo apostas; a Polônia, que já não tinha Kazimierz Deyna, chegou em terceiro lugar; e a França de Michel Platini, futura campeã europeia, sucumbiu contra a pragmática Alemanha Ocidental, de Karl-Heinz Rummenigge. Este foi o contexto da estreia da Argélia.
Comandada pela qualidade de jogadores como Lakhdar Belloumi, eleito melhor jogador africano de 1981, Salah Assad e Rabah Madjer — que viria a se tornar protagonista da primeira conquista europeia do Porto —, a seleção nacional brilhou nas Eliminatórias; deixou Serra Leoa, Sudão, Níger e Nigéria pelo caminho. Adiante, contrariando um prognóstico que sugeria dificuldades, a Argélia se saiu bem.
Dividindo o Grupo 2 com os alemães ocidentais, a Áustria e o Chile, experientes em Copas do Mundo, as Raposas do Deserto surpreenderam e poderiam ter vivido uma realidade brilhante.
Tudo começa e termina em Gijón
A estreia aconteceu em Gijón, justamente contra os germânicos, últimos campeões europeus. Era 16 de junho de 1982 e a vitória não parecia um resultado factível. Porém, nada importou o gol de Rummenigge. Antes, Madjer já cumprimentara as redes, após grande defesa de Harald Schumacher, e pouco depois Belloumi assinaria a sentença, completando cruzamento de Assad: 2 a 1 histórico e que aplacou a soberba alemã amplamente noticiada pela imprensa.
O choque de realidade veio logo, em uma derrota inoportuna contra os austríacos, 2 a 0. No entanto, a Argélia superou o Chile por 3 a 2 e aguardou o confronto entre Áustria e Alemanha para saber se avançaria à fase seguinte. Uma vitória alemã simples, ou por dois gols de diferença, serviria aos interesses de ambos os europeus.
Assim se fez. No mesmo palco em que os africanos fizeram história, vencendo sua primeira partida em Mundial: Alemanha 1, Áustria 0 — europeus na fase seguinte, Argélia eliminada.
Uma desgraça
Sem demonstrar interesse pela partida após os germânicos abrirem o placar, os vizinhos foram acusados de manipular o resultado. A FIFA não investigou e o evento ficou conhecido como “A Desgraça de Gijón”,. O incidente foi o chamariz para a revisão do sistema de disputa de grupos, para que as partidas finais acontecessem no mesmo horário, evitando suspeitas. Para a Argélia, nada.
Nunca foi provada a existência de algum pacto entre Alemanha e Áustria. A conveniência do resultado e as performances, porém, geraram ruído. Em 28 de junho, o New York Times falou em “gosto amargo”, chamando a partida de “evento vergonhoso”. Na Espanha, o El País relatou que se ouviu nas arquibancadas gritos de que se besen e que “vários torcedores argelinos, que eram os diretamente prejudicados por este resultado, tentaram saltar ao campo e foram atacados pela polícia”.
Em 2010, o Guardian reproduziu as palavras de Eberhard Stanjek, comentarista do canal alemão ARD: “O que está acontecendo aqui é vergonhoso e não tem nada a ver com futebol. Diga o que quiser, mas nem todos os meios justificam os fins”. O escândalo estava marcado na história, mas uma geração histórica da Argélia também.
“Jogamos um tipo diferente de futebol, que nunca havia sido visto antes. Era uma mistura dos estilos alemão, francês e latino”, comentou o antigo capitão, Ali Ferghani. “Os alemães e austríacos jogaram um combinado para nos eliminar pela diferença de gols. Foi o que chamamos de partida da vergonha”, completou Belloumi, ambos à BBC.
Mais uma vez, em um momento que deveria ser de esperança e alívio, a Argélia sangrou. Ainda que uma partida de futebol não se compare a uma guerra, o fim de um sonho é sempre doloroso e o esporte, que tem sido ao longo da história um motor de mudanças e pacificação social, trouxe mais lágrimas que sorrisos.
A Argélia se classificaria ao Mundial de 1986, apenas para ter participação obscura. Após, só voltaria em 2010.


Uma pena, realmente, para os argelinos. Foi óbvio para todos que assistiram o jogo que ninguém queria jogar. Mas não é possível afirmar que houve algum tipo de complô. O mais provável é que tenham simplesmente jogado com o regulamento debaixo do braço. O verdadeiro culpado foi o regulamento. Quaisquer outros dois times no lugar de Alemanha e Áustria provavelmente fariam o mesmo.