Entre lesões e expectativas: a curta carreira de Sebastian Deisler
NÃO FALTAM trajetórias que prometeram os céus e terminaram em lágrimas. Lesões, decisões ruins e descaminhos contribuem para isso desde sempre. Na Alemanha, ao final dos anos 1990, uma dessas histórias começou com o surgimento de um jogador de enorme talento. A hora era oportuna: os germânicos discutiam os rumos de seu futebol, questionavam o modelo rígido que adotavam e que não privilegiava qualidades individuais. No entanto, a sorte não andou ao lado de Sebastian Deisler; aos 27 anos estava aposentado.

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A Alemanha no divã se maravilha
Em 1998, a Alemanha foi castigada pela Croácia na Copa do Mundo, 3 a 0, e houve consequências. O placar do Stade de Gerland, em Lyon, deixou uma pulga atrás das orelhas germânicas. A Euro 2000, com novo insucesso, reiterou fragilidades e nem o vice-campeonato mundial em 2002 mascarou os indícios de decadência. A Mannschaft refletia ideias arcaicas.
Em meio à autoanálise, o surgimento de um jogador com virtudes incomuns para o contexto alemão animava. Era um meio-campista pela direita com arranque, criatividade, drible e um pé direito moldado para acertar cobranças de faltas, cruzamentos e escanteios. Deisler despontou no Borussia Mönchengladbach, o time que lançou jogadores da estirpe de Günter Netzer, Jupp Heynckes ou Lothar Matthäus.
Era setembro de 1998 quando, diante do Eintracht Frankfurt, o jovem estreou. O jogo terminou 1 a 1. Três dias depois, protagonizou uma corrida de 60 metros e marcou um golaço contra o 1860 München. O apelido de Das Supertalent foi inevitável. As expectativas ao seu redor eram altíssimas e irreversíveis, assim como o preço de tanta exigência.
“Em algum momento, ele será lembrado no mesmo patamar de Fritz Walter, Uwe Seeler e Franz Beckenbauer”, disse, à época, seu treinador no Gladbach, Friedel Rausch, como veiculado por reportagem do portal GOAL.

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Apesar de sua qualidade e vinculação com os Potros, que o receberam aos 15 anos, o meia não evitou o rebaixamento de sua agremiação à 2. Bundesliga e teve de sair. Recebeu várias propostas e escolheu a do Hertha Berlin, último terceiro colocado da Bundesliga e que disputaria a Liga dos Campeões em 1999-00; custou aos cofres azuis e brancos 4,5 milhões de marcos.
O preço do sucesso
Beckenbauer profetizou que o atleta era “física e tecnicamente o melhor da Alemanha”, como reportou o The Guardian. O corpo do jovem discordou.
“Eu tinha 19, 20 anos, quando o povo pensou que eu poderia salvar o futebol alemão. Eu sozinho […] Eles não me deram tempo para me encaixar”, revelou Deisler à citada reportagem publicada pelo GOAL.
No ano de seu debute pelo coletivo capitalino, Deisler sofreu lesão no ligamento cruzado de seu joelho, disputando apenas 19 encontros e iniciando uma sucessão de sofrimentos. O segundo revés veio em 2001, quando rompeu a membrana sinovial do joelho direito. Era outubro, o jogador ficou afastado do restante da temporada e perdeu a oportunidade de disputar a Copa do Mundo de 2002.

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Sua trajetória no Hertha durou três temporadas. Foram poucas partidas, apesar da conquista de uma Copa da Liga Alemã. Ainda assim, sua qualidade valia a aposta e qualificou-o a voos mais altos. Em 2002-03 foi negociado com o Bayern de Munique, após saída polêmica do Hertha; chegava com a missão de substituir Stefan Effenberg.
O corpo não deu trégua; a mente sucumbiu
As lesões continuaram perseguindo Deisler e sua forma física foi ficando cada vez mais debilitada. Seus joelhos nunca se recuperaram dos traumas sofridos, os músculos desenvolveram limitações decorrentes da falta de treino e o pior: sua saúde mental não passou imune. Ainda em 2003, Deisler foi diagnosticado com depressão e interrompeu a carreira.
Voltou em 2004, mas não se recuperou plenamente. Em suas palavras, sentia-se um palhaço triste; precisava dar espetáculo sem ter o menor ânimo.

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Foram muitas tentativas de voltar. A temporada 2005-06 acabou sendo sua melhor, atuando regularmente. Porém, a velha história se repetiu: em março, às vésperas da Copa do Mundo que seria disputada na própria Alemanha, lesionou novamente o joelho direito e ficou fora. Ainda retornou, mas se sentia acabado.
Em janeiro de 2007, pendurou as chuteiras, abrindo mão de um contrato que só expiraria em 2009: “Tem sido uma provação para mim”, declarou. Não estava mais disposto a enfrentar o ciclo vicioso de pouco jogo, muitas lesões e longas recuperações. Nas quatro temporadas e meia em que defendeu o gigante bávaro, fez apenas 90 partidas.
A memória do que podia ter sido
Pela idade, em condições físicas e mentais ideais, Deisler teria sido vital para a transição ocorrida no futebol alemão. Poderia ter sido importante em quatro Mundiais; em 2014, tinha apenas 34 anos. Possuía a técnica necessária e o estilo de jogo ideal. Não era para ser. O meia disputou 36 partidas pela seleção, mas nunca conseguiu jogar uma grande competição. O mais perto disso foi a disputa da Copa das Confederações de 2005, tendo atuado em todas as partidas do certame.
Uma carreira de oito temporadas e meia registrou apenas 195 jogos por clubes, média de 23 jogos por ano. Além da Ligapokal vencida nos tempos de Hertha, levou para casa mais três conquistas da Bundesliga, três títulos da Pokal e outro da Ligapokal, todos pelo Bayern. As expectativas e os sucessivos reveses levaram Deisler a protagonizar um drama, longe do estrelato.

