Ainda no Bordeaux: a trajetória de Malcom rumo ao mais alto nível

LOGO APÓS a conquista do Campeonato Brasileiro de 2015, o Corinthians sofreu desmanche. Renato Augusto, Gil, Jádson, Vágner Love e Ralf saíram logo no início do ano; Elias, na metade de 2016. Apesar da juventude, aos 18 anos, Malcom também preferiu deixar o Timão. No encerramento da janela de transferências europeias, assinou com o Bordeaux. O negócio causou certo estranhamento: valeria a pena seguir no Brasil, desenvolver-se mais e partir para uma equipe mais forte? O momento do brasileiro prova que não. Esperar não era a melhor opção.

Malcom Bordeaux

Foto: Reprodução

Um jovem maduro

Apesar da vertigem, Malcom não aparentou deslumbre com tudo o que aconteceu em sua carreira. Da estreia como profissional ainda aos 17 anos, em março de 2014, até a saída do Corinthians, o ponta tem mantido os pés fincados no chão.

Do êxtase da estreia, quando se emocionou por representar o clube de seu coração, que o acolhera aos 10 anos, até os agradecimentos em sua saída, o garoto mostrou seriedade. Esse também foi o traço mais marcante de seu desempenho dentro das quatro linhas. Breve análise de sua participação no título nacional de 2015 serve de confirmação.

Do lado direito do meio-campo corintiano, Jádson era um criador de jogo, alguém que saía da ponta para o meio para armar. Pela esquerda, Malcom garantia que o time tivesse o adequado balanço nos momentos defensivo e ofensivo.

Na hora de atacar, provou-se uma flecha, com incisões diagonais permitindo jogadas de ultrapassagem do lateral esquerdo Uendel. No entanto, quando a posse de bola passava aos rivais, retornava prontamente, para fechar linhas de marcação, compactar o meio-campo e forçar o adversário a se arriscar e, fatalmente, livrar-se da bola. Isso com 18 anos e sem vaidades.

Malcom Corinthians

Foto: Alexandre Schneider / Getty Images

“A maturidade dele está acima dos seus 18 anos. Eu, com 18, não tinha a maturidade que o Malcom tem […] Em determinados momentos, os atletas têm liberdade de criação e enfrentamento. O um contra um é fundamental para quebrar a marcação. No último terço do campo, vá para dentro. Pode errar uma, duas, três vezes. Se acertar uma, quebrará o sistema defensivo”, disse Tite à ESPN, em julho de 2015.

O Bordeaux tenta retomar a relevância

Malcom recebeu propostas do exterior, entre as quais uma do Bordeaux. Hexacampeões franceses, os Girondinos já não pareciam um destino tão importante, afastados do troféu da Ligue 1 desde a temporada 2008-09. Sua mais relevante conquista recente era a Copa da França de 2012/13. Em meio à hegemonia do Paris Saint-Germain e à consolidação de um modelo de negócios competitivo e sustentável por parte do Monaco, o clube passou à sombra.

Mesmo assim, o brasileiro entendeu que a possível ida para a França poderia ser benéfica e acertou. A evolução coletiva do time desde a chegada de Malcom é notória, assim como a do próprio brasileiro. Em sua primeira campanha no clube, o Bordeaux terminou na 11ª posição; na segunda, chegou ao sexto lugar; e, no promissor início de campanha de 2017-18, ocupa a terceira colocação.

Para essa temporada, bons investimentos foram feitos. Entre outros, desembarcaram no clube o volante Otávio, destaque do Atlético-PR, o atacante Nicolás De Preville, que veio de boa temporada com o Lille (14 gols na última Ligue 1), além do selecionável e experiente goleiro francês Benoit Costil, que chegou sem custos desde o Rennes.

Malcom Bordeaux

Foto: Nicolas Tucat/AFP

Há equilíbrio no elenco, que conta com atletas de vasta experiência, como o capitão Jérémy Toulalan, tem outros chegando a seu auge, e alguns ascendendo, como é o caso do próprio Malcom. O brasileiro percebeu que a oportunidade na França poderia não levar às conquistas, mas contribuir com sua evolução em solo europeu. Sem a pressão por resultados imediatos, Malcom encontrou terreno para uma adaptação tranquila a uma nova liga, país e continente.

“O meu empresário disse que havia outros clubes interessados, com propostas boas, mas o Bordeaux oferece uma série de coisas que nós buscávamos […] Tite me ajudou muito, em tudo… Na volta para marcar, na parte ofensiva […] Com o Tite, passei a defender o campo inteiro. Foi o principal para a minha evolução”, revelou ao Yahoo, em março de 2016.

Um novo Malcom

A maior prova de seu acerto é a permanente evolução técnico-tática que vive; tornou-se um dos destaques da Ligue 1. No início da temporada corrente, o jogador já tem cinco gols marcados e quatro assistências, em 13 partidas. Segundo o portal de estatísticas Whoscored, foi o melhor em campo em quatro compromissos. Tudo isso aos 20 anos.

Quem pode dizer o que teria acontecido se tivesse partido para um gigante desde o início? Poderia ter sido bem-sucedido, indubitavelmente. Porém, exemplos contrários são fartos, como as carreiras de Keirrison, Wellington Silva, Lucas Silva, Gabriel Barbosa ou Phillipe Coutinho, para citar poucos nomes, não deixam mentir.Malcom The Guardian

“Vocês precisam vê-lo no dia a dia […] Ele tem atuado como tradutor para seus novos companheiros brasileiros. Ele não tem sido afetado por tudo o que tem sido dito. Ainda que seja jovem, ele também é muito maduro”, disse o treinador do Bordeaux, Jocelyn Gourvennec, ao The Guardian.

Confiante em seu talento e consciente de suas funções no campo, Malcom passou a jogar majoritariamente pelo flanco direito — valorizando a qualidade de sua perna canhota — e mostra repertório.

Inevitavelmente, veicula-se o interesse de outras equipes em seu futebol. Jornais internacionais o têm como um assunto quente. Em maio, o Manchester United foi especulado como possível destino. O fato é que o jogador que desembarcar em outra equipe estará mais preparado para ser bem-sucedido do que aquele que deixou o Corinthians. Isso porque tomou uma decisão correta na hora de deixar o futebol brasileiro.

Wladimir Dias

Idealizador d'O Futebólogo. Advogado, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Escrita Criativa. Mestre em Ciências da Comunicação. Colaborou com Doentes por Futebol, Chelsea Brasil, Bundesliga Brasil, ESPN FC, These Football Times, revistas Corner e Placar. Fundou a Revista Relvado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

SiteLock