A evolução de Lyanco (ou futebol é contexto)

POUCAS VEZES NA HISTÓRIA RECENTE DO ATLÉTICO MINEIRO houve tanta expectativa pela abertura de uma janela de transferências quanto no meio de 2024. O clube sofria com um momento de instabilidade, com vários jogadores indisponíveis, e aguardava a chance de inscrever novos reforços. Eram eles os velhos conhecidos Junior Alonso e Bernard, além de um brasileiro que era mais lembrado no exterior do que no próprio país: Lyanco.

Lyanco Atlético Mineiro

Foto: Pedro Souza/Arte: O Futebólogo

As expectativas na chegada ao Galo

Então treinado pelo argentino Gabriel Milito, o Galo tinha uma proposta de jogo bem estabelecida. Raramente abria mão da presença de um terceiro zagueiro, ainda que por vezes funcionasse como lateral nos momentos de posse e criação das jogadas. Com a entrada de Alonso pelo lado esquerdo da defesa, aproveitando seu pé canhoto, e a titularidade absoluta de Rodrigo Battaglia, adaptado de volante a zagueiro, restou a Lyanco disputar por uma vaga pela direita.

Na altura, ainda que Milito tenha observado o desempenho — insuficiente — do beque Bruno Fuchs como o citado terceiro zagueiro, mais à direita, havia duas alternativas pelo setor: os laterais direitos Renzo Saravia e Mariano, este já veterano. Contudo, houve um momento, entre meados de setembro e de outubro, em que o argentino frequentou o departamento médico e a lacuna foi ocupada justamente por Lyanco.

Deve ser notado que as primeiras impressões a respeito do jogador provocaram um misto de sensações. Por um lado, ele parecia tecnicamente capaz de se tornar um referente na retaguarda alvinegra; por outro, não se sabia se teria condições emocionais para tanto. Ainda que se possa questionar o mérito de sua expulsão contra o Corinthians, logo no segundo jogo pelo Galo, faltou lucidez ao chapelar um adversário com a bola parada e, a seguir, dar uma entrada mais forte.

Lyanco 2024

Foto: Pedro Souza/Arte: O Futebólogo

O papel de Lyanco

Retomando o fio da meada, logo que assumiu a titularidade, Lyanco voltou a mostrar suas qualidades. Nas quartas e semifinais da Copa Libertadores, diante de Fluminense e River Plate, fez partidas elogiáveis em casa, sendo até mesmo ovacionado pelo torcedor. “Aquele carinho de ontem, a atmosfera que foi ontem contagiou muito”, comentou após o triunfo diante do Tricolor.

Porém, em partidas de Campeonato Brasileiro, seguia instável e, acima de tudo, temerário, recebendo um número elevadíssimo de cartões amarelos.

É necessário, porém, delimitar que o sistema de jogo proposto por Gabriel Milito, não raras vezes, expôs a primeira linha de marcação atleticana, que se postava em uma posição muito alta no campo, vulnerável a jogadas de transição ofensiva do adversário. Não foram poucas as vezes em que perdas de posse foram fatais para o Galo. A corda estourou muitas vezes nos zagueiros, que tiveram desempenho sensivelmente melhor em partidas em que a equipe marcou com bloco médio.

A tônica dos primeiros meses de Lyanco no Atlético foi exatamente esta: a qualidade técnica era notória, seja no passe, na condução da bola, na competência para fazer coberturas e até mesmo na bola aérea. Porém, em lances capitais de alguns jogos, deixou a desejar, seja em tomadas de decisão equivocadas e por vezes puníveis ou por um certo destempero.

Em especial, as aparições de Lyanco nas finais da Copa do Brasil e da Libertadores foram vistas com muitas ressalvas.

O peso do extracampo

Fora dos campos, no entanto, as coisas também não pareciam ir bem. Ainda era o final de setembro quando o beque admitiu que convive com “crise de pânico, ansiedade”, vivendo “todos os dias a base de remédio”.

Não por acaso, o jogador comemorou o vice-campeonato da competição nacional, destacando a dificuldade de chegar a uma fase tão aguda. “Seja ouro ou prata, isso representa trabalho… e isso não faltou”, pontuou. A frase não caiu tão bem nos ouvidos de um torcedor irritado com a derrota para um rival e em casa, mas sinalizou que o atleta vivia um momento em que era importante comemorar as pequenas vitórias, as primeiras em seu próprio país.

Lyanco decepção

Foto: Gilson Lobo/AGIF/ Arte: O Futebólogo

O ano terminou da forma mais desgastante possível para o Galo. Depois de flertar com a conquista de dois títulos, chegou a lutar contra o rebaixamento e, antes mesmo de 2025 apontar no horizonte, Milito caiu e notícias ruins como a venda do atacante Paulinho para o Palmeiras aumentaram a atmosfera de desânimo. Após o que pareceu uma interminável busca por um novo treinador, os alvinegros se acertaram com um velho conhecido, Cuca.

Falando exclusivamente de futebol, o treinador chegou com uma missão parecida com a empreendida a partir do final de 2011, quando chefiou o clube que acabara de sofrer uma goleada acachapante para o rival Cruzeiro, a qual, para além de doer pelo resultado, evitou o que seria o primeiro descenso da Raposa.

No princípio de 2025, Cuca encontrou um clube cabisbaixo e em rota de colisão com parcela significativa da torcida, que cobrava a contratação de reforços e a garantia de um elenco mais encorpado.

Um novo começo

Desde o início, o treinador mostrou o que já se conhecia a partir de seus últimos trabalhos: habilidade para montar táticas eficientes, ainda que mais tradicionais, para lidar com o vestiário, o trato com a imprensa e, a portas fechadas, para cobrar da diretoria melhores condições de trabalho — leia-se, contratações.

Ainda que dentro de um contexto de especulação, a viagem do clube para uma pré-temporada nos EUA parece ter feito maravilhas a nível anímico. Um dos jogadores que Cuca chamou de lado e tratou como figura importante a ser recuperada foi justamente Lyanco, nunca como lateral, sempre como zagueiro.

Logo no início do Campeonato Mineiro, o atleta protagonizou polêmica no clássico contra o Cruzeiro e a conversa voltou à pauta: a qualidade lá está, mas e a cabeça? Ele foi brilhante ao expor Gabriel Barbosa ao ridículo que foi agredi-lo e ser expulso. Porém, não mostrou muita sabedoria ao passar por cima de Dudu e pisar em seu braço — a intenção ficando a cargo do julgamento de cada um. As rusgas com jogadores celestes vinham desde o amistoso disputado em solo estadunidense.

Lyanco Cruzeiro

Foto: Pedro Souza/Arte: O Futebólogo

Lyanco saiu por cima, mas algo ficou no ar. Então, o treinador tocou na ferida: “A gente tem conversado muito com ele, muito mesmo, pra ele usar todo o potencial dele, mas tendo o limite”.

A partir da vitória no dérbi, a terceira consecutiva, o Galo entrou em uma espiral positiva. Acumulou mais quatro triunfos e conquistou o Estadual sem margem para questionamentos.

Mais confiança, mais responsabilidade

Nas finais, o Atlético não contou com seu grande ídolo e capitão, Hulk.

Coube a Lyanco a missão de carregar a braçadeira, isso em um time com referências históricas ao seu lado, casos de Alonso, Guilherme Arana e Everson. Não foi mero detalhe ele ter marcado dois dos quatro gols do Galo na partida de ida da decisão contra o América. A confiança estava tão alta que ele arriscou até uma bicicleta que poderia muito bem ter consumado um atípico hat-trick de zagueiro.

Depois de receber cartões amarelos em seus dois primeiros jogos, Lyanco atuou pendurado por seis partidas. Não cumpriu suspensão, e só voltou a ser admoestado no segundo embate da decisão do Campeonato Mineiro. Então, voltou a falar:

“Continuo com minhas coisas, até quem não está passando deveria fazer. Consultar um psicólogo, conversar, colocar o que está sentindo. Chega uma hora, como aconteceu comigo, foi de pouquinho e pouquinho, até que uma hora estourou tudo […] Em campo, o ambiente te ajuda a trabalhar esse lado mental. Quando as coisas estão boas, você vai relaxando, vendo que está calmo”, declarou ao ge.

Lyanco 2025

Foto: Pedro Souza/Arte: O Futebólogo

O mesmo jogador, mas um novo contexto

Além de vir crescendo em estatuto dentro do elenco, Lyanco vem atuando na sua posição preferencial. Está mais protegido do que no ano anterior, com um lateral direito com boas valências defensivas, Natanael, e com um coletivo mais compacto. Isso inclusive tem favorecido suas iniciativas na saída de bola, com conduções mais longas e a confiança de que, caso perca a bola, a cobertura dará conta do recado.

Lyanco não se transformou em outro jogador da noite para o dia. Sua técnica, sua intensidade e até mesmo sua veia provocadora sempre estiveram ali. O que mudou foi o cenário ao seu redor. Um time mais organizado, um treinador que soube trabalhar seus pontos fortes e um ambiente mais estável, dentro e fora de campo. Ele ainda usa bem da picardia, como nas declarações após o título estadual:

“Continuo repetindo o que falei no início da temporada, antes de começar, que em Minas só tinha um, contínuo com isso, e está aí mais uma prova”.

No início de sua trajetória no Galo, o questionamento era se ele conseguiria controlar suas emoções para se firmar. A resposta começa a aparecer. Lyanco se tornou peça-chave no sistema defensivo e, mais do que isso, símbolo de uma equipe que busca redenção após um ano turbulento. Seu crescimento não foi apenas técnico, mas também mental. No fim das contas, futebol é contexto.

O Galo agradece. O Brasil começa a entender melhor quem é aquele zagueiro que foi para a Europa tão cedo prometendo tanto e quase sempre parecendo aquém do próprio potencial.

Wladimir Dias

Idealizador d'O Futebólogo. Advogado, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Escrita Criativa. Mestre em Ciências da Comunicação. Colaborou com Doentes por Futebol, Chelsea Brasil, Bundesliga Brasil, ESPN FC, These Football Times, revistas Corner e Placar. Fundou a Revista Relvado.

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